Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha exaltam o amor à casa em ensaios

Antologias revelam como se entrelaçam suas ideias, que partiram do lar para pensar a cidade

A arquiteta Lina Bo Bardi na Casa de Vidro, no bairro do Morumbi, em São Paulo

A arquiteta Lina Bo Bardi na Casa de Vidro, no bairro do Morumbi, em São Paulo Chico Albuquerque/Convênio Mis-SP/IMS

Silas Martí
São Paulo

Na estação mais quente do ano, livros com escritos de Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha, dois dos arquitetos que mais marcaram a construção de um Brasil moderno, revelam o frescor do pensamento deles. Mais para o lado da brisa, o homem que construiu o MuBE e deu vida nova à Pinacoteca fala sobre as janelas. 

“Quando você diz ‘da janela vê-se o mar, o Redentor’, como está na canção de Tom Jobim, você já supõe um prédio de apartamento em Copacabana. De que janela ele está falando? A paisagem só é bela porque atrás de nós há uma brisa, vozes e panelas com feijão no fogo, tanque com água e roupa lavada no varal. É esse o lugar que ampara o abismo da janela através da qual se pode ver uma paisagem.”

Nessa que está entre as passagens mais belas de seus artigos e entrevistas juntos em “Futuro Desenhado”, Mendes da Rocha busca nos versos de “Corcovado” um motivo para enaltecer as virtudes das construções dos homens diante da natureza crua e selvagem.

O arquiteto estende a metáfora, comparando a casa à baía que surge no campo de visão de um náufrago como esperança de sobrevivência, algo “para nos salvar dessa magnífica paisagem que nos desampara e que pode nos matar”.

Bo Bardi lembra também o lar como porto seguro diante do mundo avistado lá fora, escrevendo que “através da janela os ambientes se comunicam com o mundo exterior e deste recebem uma atmosfera”, defendendo que “não é suficiente abrir as janelas, as aberturas devem ser desenhadas e estudadas não só a partir do exterior de um edifício, mas pensadas do interior”.

Tanto para Mendes da Rocha quanto para a arquiteta do Masp, a ideia de amor à casa, seja ela um apartamento em Copacabana ou um casebre rural numa Itália devastada pela guerra, serve de espinha dorsal para o pensamento arquitetônico e ponto de partida para a modernização. 

Nesse sentido, o lado mais forte de “Uma Ideia de Arquitetura”, antologia dos escritos de Lina Bo Bardi organizada por Marina Grinover, é o resgate dos artigos da arquiteta publicados em revistas italianas na década de 1940, antes de sua vinda a São Paulo.

Em ensaios e colunas da época em que a Itália se reconstruía depois dos bombardeios da Segunda Guerra, Bo Bardi dava um caráter de urgência ao ofício do arquiteto, um socorrista chamado às pressas que deve ao mesmo tempo inflamar o debate público para convencer as autoridades de que existe ciência e pensamento por trás do empilhamento de tijolos.

Num de seus artigos mais aguerridos, ela fala em “destruir a psicose da renúncia, propondo aos que se sentam de fora de suas casas que existem casas claras e limpas onde o trabalho se desenvolve mais sereno” e atacando a ideia de casa como “uma toca com uma porta longe do sol”. 

“Temos a oportunidade de criar uma consciência para eles de que a casa é a base de toda a civilização”, escreveu.

Mas não era qualquer casa. Mendes da Rocha lembra a natureza ambígua do lar como “o lugar de maior contradição entre o que é a coragem, ou a aventura do homem, e o seu medo, ou a sua covardia” para atacar as mansões e condomínios fechados que abarrotam as metrópoles brasileiras contemporâneas —o que chama de “casa que pretende a volta ao campo, idealizar o castelo senhorial, que nega a liberdade do homem, que se liga à ideia de herança, fortuna, de guarda de tesouro”.

Longe da fortuna concentrada nas mãos de poucos, a Itália arrasada de Bo Bardi foi a base para a construção de argumentos menos etéreos e mais práticos, de um tom que pode às vezes surpreender os leitores da atualidade.

“Depois de feito o trabalho cotidiano da casa, deve sobrar tempo para a mulher ler, aprender, viver e desfrutar da vida fora de casa”, escreveu a arquiteta em sua coluna da revista Grazia, uma das primeiras semanais ilustradas voltadas ao público feminino e marco do design “made in Italy”.

Bo Bardi, mesmo tendo se tornado na posteridade uma espécie de ícone feminista nas artes, não se furtava em reservar às mulheres o papel de comando do lar, talvez consciente de que a revolução nos costumes e nas formas das casas e cidades pudesse se dar mesmo de forma velada, em 
artigos de dicas de decoração. 

“O trabalho doméstico é tão interessante quanto qualquer outro trabalho”, escreveu. “Todas as mulheres devem pensar o trabalho diário da dona de casa igual ao trabalho que acontece nos escritórios, nas fábricas, nos laboratórios.”

Sua chegada ao Brasil, no entanto, provoca uma mudança radical no discurso. Em São Paulo e na época em que viveu em Salvador para construir o Museu de Arte Moderna da Bahia, Bo Bardi parece ter encontrado a manifestação mais candente da ideia de “abolir o móvel-monumento” que ela já defendia na Itália.

O interesse da arquiteta pela cultura popular, que chamou de “contribuição indigesta, seca, dura” dos nordestinos, pobres, negros e índios seria para ela a chave de uma revisão e balanço do modernismo brasileiro, uma postura crítica que se aguçou na ressaca da construção de Brasília. 

Bo Bardi chegou a atacar Niemeyer, dizendo que o que fez na capital federal não passava de “arte pela arte”. Nesse ponto, contraria a visão de Mendes da Rocha. Embora não exaltasse a ousadia formal de Niemeyer no Planalto, o arquiteto defendia a ideia da construção de uma cidade perfeita à revelia da lógica colonial de ocupar só as costas do país.

Mas os dois voltam a se encontrar no terreno do popular. Num ponto que também pode soar estranho a ouvidos contemporâneos, Mendes da Rocha confessa sua “atração pela pobreza” para dizer que tudo que não é necessário se “torna grotesco” e que a cidade é a “mais completa manifestação da cultura popular”.

Um popular, no caso, longe da miséria e mais próximo da terra. “Nós somos a natureza, somos da mesma matéria que é feita a luz das estrelas.”

Futuro Desenhado
Autor: Paulo Mendes da Rocha. Org.: Daniela Sá, Guilherme Wisnik, João Carmo Simões. Ed. Monade. US$ 40, na Amazon (250 págs.)

Uma Ideia de Arquitetura
Autor: Marina Grinover. Ed. Annablume. R$ 68 (296 págs.) 

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