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Cinema

Filme mostra que homem e mulher são mais complexos do que se pensa

Espécie de documentário musical, 'Bixa Travesty' acompanha shows e divagações da cantora Linn da Quebrada

São Paulo

Bixa Travesty

  • Quando em cartaz
  • Classificação 18 anos
  • Produção Brasil, 2018
  • Direção Claudia Priscilla e Kiko Goifman
  • Duração 76 min

Na música "Mulher", Linn da Quebrada canta: "Ela tem cara de mulher/ Ela tem corpo de mulher/ Ela tem jeito/ Tem bunda/ Tem peito/ E o pau de mulher". Os versos são um resumo da figura da artista, retratada no documentário "Bixa Travesty", de Claudia Priscilla e Kiko Goifman.

Num determinado momento ali, ela e a também cantora, e sua companheira de shows, Jup do Bairro reclamam de serem tratadas como homens pela sociedade. Eles não veem que eu não sou homem, que eu não me comporto como um homem?, pergunta Linn, para depois emendar que também talvez não seja uma mulher.

É essa indefinição entre homem e mulher que pode fazer enlouquecer aqueles que forem ver ao filme desavisados, aqueles que acreditam piamente que são os órgãos genitais os definidores do gênero de cada um. Como veremos, Linn tem um "pau de mulher". Mas este filme não é "Um Tira no Jardim de Infância", em que a lição é "meninos têm pênis e meninas têm vaginas".

Entre amigos, Linn brinca sobre uma "boneca destruidora de gênero", e é exatamente esse o seu papel nessa espécie de documentário musical que mostra cenas de seus shows, conversas e divagações da artista com amigos.

Para aqueles que já conhecem as letras de Linn, nada de novo. Em "Pirigoza", ela questiona a ideia binária e biológica de gênero: "Eu quero saber quem é que foi o grande otário/ Que saiu aí falando que o mundo é binário" e "Sabe a minha identidade?/ Nada a ver com xota e pau".

Além de levar aos cinemas a discussão cada vez mais proeminente sobre identidade de gênero e transfobia, o filme de Priscilla e Goifman, que tem Linn também como roteirista, tem o grande trunfo de humanizar a artista que se define como "bicha travesti", por não ser uma travesti, segundo ela, com a aparência física totalmente de uma mulher. Linn não fez implante de seios, por exemplo.

Na nossa sociedade machista, travestis e transexuais são desumanizadas e superssexualizadas. Há conversas sobre amor e casamento nas quais Linn e suas amigas falam sobre como muitas vezes são vistas como objetos sexuais desprovidos de sentimentos.

A câmera acompanha momentos em que Linn cozinha com sua mãe —que, num descuido, a trata no masculino— e duas amigas, uma delas a também cantora Liniker, ou em que ela toma banho. 

Embora compreenda-se o mote de humanização do filme, o modo como aborda, porém, o câncer que Linn teve nos testículos, poderia ter sido menos dramático. Tocante, parece que está dando um beliscão no espectador para que ele chore.

Linn, porém, não está sozinha. E o filme deixa isso claro ao mostrar também Liniker e Raquel Virgínia e Assucena Assucena, do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira. Elas também não foram as primeiras, e desde o começo o filme faz a ligação entre as performances de Linn e as de Ney Matogrosso, que, nos anos 1970, estremeceu as certezas dos estereótipos de gênero no Brasil. 

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