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HQs colocam candomblé e ex-escravos no centro da narrativa

Intolerância gera pressão por mais diversidade, dizem Marcelo D'Salete e Hugo Canuto

Bruno Molinero
Cachoeira (BA)

Em 2017, o então pré-candidato à Presidência Jair Bolsonaro disse que visitou um quilombo onde “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas” e que, uma vez no governo, “não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola”. No mesmo ano, Marcelo D’Salete pulicou a HQ “Angola Janga” após uma pesquisa de dez anos sobre o quilombo de Palmares.

Em 2019, a Polícia Civil de São Paulo recebeu o dobro de notificações de crimes de intolerância religiosa em relação ao ano passado —sobretudo ataques contra religiões de matriz africana. Ao mesmo tempo, Hugo Canuto lançou “Contos dos Orixás”, HQ que adapta lendas do candomblé com verniz de super-herói.

O que pode parecer coincidência não é encarado necessariamente assim pelos quadrinistas. “O contexto histórico faz as coisas tomarem o seu caminho”, acredita Canuto, que publicou o quadrinho sobre os orixás após dois financiamentos coletivos.

HQ "Angola Janga", de Marcelo D’Salete
Cena da HQ "Angola Janga", de Marcelo D’Salete, sobre o quilombo de Palmares - Divulgação

No primeiro, arrecadou R$ 40 mil; no segundo, ultrapassou R$ 150 mil —o que fez a HQ saltar de 60 para 120 páginas. Nelas, Canuto conta visualmente o surgimento e as lendas que rondam entidades como Iansã, Oxóssi e Oxum. 

“Cada gesto, cada cor tem seu significado. Fui, por exemplo, estudar nos terreiros como Xangô se movimenta na dança para ilustrar como ele se move na HQ”, explica.

Ao lado de Marcelo D’Salete, o quadrinista falou sobre histórias em quadrinhos com perspectivas negras na Flica, a Festa Literária Internacional de Cachoeira, que ocorreu no mês passado na cidade histórica do Recôncavo Baiano.

“Angola Janga” não é a única HQ de D’Salete sobre a luta de negros no Brasil colonial contra a escravidão. Se esse quadrinho surge a partir de uma pesquisa sobre Palmares, em 2014 o autor publicou “Cumbe”, uma aventura sobre a batalha de negros contra a sociedade escravocrata. A revista foi traduzida nos Estados Unidos e ganhou no ano passado o Eisner, prêmio considerado o Oscar dos quadrinhos.

“O contexto em que vivemos hoje no Brasil gera um outro nível de leitura dessas histórias, principalmente a partir de um governo baseado no culto à violência”, acredita.

Para explicar a importância de HQs como as dele e as de Canuto, D’Salete evoca o que considera uma das principais questões no Brasil desde sempre: o direito à terra. 

“É uma guerra que envolve MST, quilombolas, indígenas. O que procurei mostrar em ‘Angola Janga’ é que esses grupos negros desenvolveram outro modo de lidar com a terra. Uma maneira que desconsidera interesses de grandes empresários —o que não é interessante para esse governo atual”, afirma o quadrinista. 

É aí, segundo ele, que está a relevância de obras de arte que trazem diferentes perspectivas. “Elas mostram o que pode ser um Brasil mais igualitário e democrático. Não só nos quadrinhos, mas também na literatura, com Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Lázaro Ramos”, continua. 

Tanto para D’Salete quanto para Canuto, é impossível hoje calar produções que mostrem esses outros pontos de vistas porque, ao mesmo tempo em que ocorrem casos diários de racismo e de intolerância, diferentes grupos pressionam editoras, empresas e eventos por mais pluralidade.

“Precisamos de histórias que fujam do ficou registrado como oficial. Se existe uma área da cultura brasileira que está tomando essa frente é o quadrinho”, acredita Canuto.

Mas não é apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, principal mercado geek e de HQs, as gigantes do mercado já prestam mais do que a atenção em palavras como diversidade —e nas cifras que podem vir junto.

Não à toa “Pantera Negra” quebrou recordes de bilheteria e foi um dos queridinhos do Oscar, o personagem negro Miles Morales virou um Homem-Aranha, e o filme da “Mulher Maravilha” se tornou símbolo do feminismo no mundo dos heróis.

“Estamos tentando levar essas discussões para um público mais amplo do que o da academia”, analisa D’Salete.

O jornalista viajou a convite da Flica

Angola Janga e Cumbe

  • Preço R$ 59,90 (‘Cumbe’, 192 págs.) e R$ 89,90 (‘Angola’, 432 págs.)
  • Autor Marcelo D’Salete
  • Editora Veneta

Contos dos Orixás

  • Preço R$ 45 (120 págs.)
  • Autor Hugo Canuto
  • Editora Edição independente

 

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