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Streaming da Disney alerta sobre representações antiquadas em longas

Especialistas dizem que medida não é o suficiente e que terminologia usada pela empresa é imprecisa

Marisa Iati
The Washington Post

O muito aguardado serviço de streaming da Disney incluiu alertas no início de alguns dos filmes disponíveis para indicar que eles podem incluir elementos racistas ou ofensivos de outras maneiras – uma decisão que segundo especialistas representa um começo na solução do problema, mas não vai longe o bastante.

Uma mensagem que é exibida na tela antes da exibição de filmes clássicos como “Dumbo” e “Peter Pan”, no serviço Disney+, informa que os filmes estão sendo exibidos tal como produzidos originalmente, e que eles “podem conter representações culturais antiquadas”.

A decisão de incluir essa mensagem em alguns filmes de animação foi recebida tanto com elogios, por pessoas que a viram como uma forma de prestação de contas, quanto com críticas, por aqueles que consideram que os termos empregados no alerta minimizam o problema. As reações conflitantes, dizem especialistas, destacam o fato de que a Disney mal começou a assumir a responsabilidade pelas representações vistas como problemáticas.

“A sensação é de que se trata de um primeiro passo”, disse Michael Baran, sócio sênior da InQUEST Consulting, uma consultoria de diversidade e inclusão sediada no Illinois. “Acredito que eles poderiam ser muito mais vigorosos não só naquilo que estão dizendo no alerta, mas naquilo que estão fazendo”.

A Disney sofre críticas frequentes por seu uso de personagens que promovem estereótipos racistas. Os corvos em “Dumbo”, lançado em 1941, encapsulam estereótipos sobre os americanos negros. Um deles portava o nome “Jim Crow” [um nome derrogatório usado originalmente como gíria para descrever os negros e mais tarde associado ao conjunto de leis discriminatórias contra os negros que vigoraram por décadas no sul dos Estados Unidos].

Em “Mogli”, de 1967, críticos dizem que os macacos retratam as pessoas negras como tolas e criminosas. As hienas rancorosas de “O Rei Leão”, lançado em 1994, poderiam representar minorias raciais que vivem em áreas de baixa renda. A lista de filmes que contêm elementos caracterizados como racistas se estende.

O alerta da Disney+ de que elementos de certos filmes podem ser “antiquados” é uma maneira apolítica e passiva de reconhecer o diálogo da sociedade sobre racismo e diversidade, e o fato de que alguns filmes merecem críticas, disse Shilpa Davé, professora de estudos de mídia e estudos americanos na Universidade da Virgínia.

“Eles estão aceitando responsabilidade por terem sido uma companhia que fazia coisas assim no passado, mas declarando que agora seguirão uma nova direção”, disse Davé. “Trata-se de uma maneira segura de dizer que compreendem o momento em que sua companhia existe e que o país vive agora”.

Outros criticaram o serviço Disney+ por não ser direto sobre aquilo a que os alertas de conteúdo se referem, especialmente em comparação com os alertas acrescentados pela Warner Bros. ao início de alguns desenhos animados da série “Looney Tunes”.

“Os desenhos animados que você está a ponto de assistir são fruto de sua era”, afirma alerta da Warner Bros. “Podem representar alguns preconceitos raciais e étnicos que eram comuns na sociedade americana. Essas representações eram erradas então e continuam erradas hoje”.

Baran disse que gostaria de ver a Disney usar linguagem mais explícita para reconhecer que um filme inclui representações distorcidas de um determinado grupo racial, e que a empresa incitasse os espectadores a falar sobre essas representações. A Disney poderia criar áreas para discussão online dessas questões, como acompanhamento para os filmes, disse Baran.

Alguns filmes que ao que se sabe não contêm alertas, como “Aladim”, deveriam fazer parte da lista, disse Baran, e também deveria haver alertas em filmes que contém representações problemáticas de gênero e sexualidade.

Cena do filme da Disney 'Aladim' (1992)
Cena do filme da Disney 'Aladim' (1992) - Divulgação

Walt Disney, que fundou a Walt Disney Co. com seu irmão Roy Disney, já foi definido como racista e misógino, embora seu biógrafo e outros simpatizantes contestem essa caracterização. A sobrinha neta de Disney, a documentarista Abigail Disney, declarou em 2014 que concordava com a avaliação negativa a respeito dele.

“Antissemita? Sim. Misógino? É CLARO!! Racista? Veja só, ele fez um filme (‘Mogli’) sobre a necessidade de as pessoas viverem ‘com gente de seu próprio tipo’, no auge da luta contra a segregação racial!”, escreveu Abigail Disney no Facebook. “Como se a canção ‘King of the Jungle’ não fosse prova bastante! De que outras informações vocês precisam?”

“As afirmações de que Disney era racista podem fazer com que os executivos da companhia que ele fundou se sintam especialmente responsáveis por lidar com os aspectos mais desagradáveis de seus filmes”, disse Gayle Wald, que dirige o departamento de estudos americanos da Universidade George Washington e é especialista em questões raciais e mídia popular. Ela disse que a terminologia escolhida pela Disney é imprecisa e que a empresa deveria ser mais explícita sobre a mensagem que pretende transmitir.

Produzir novas versões de seus filmes clássicos, dessa vez não em forma de desenhos animados, deu à Disney a oportunidade de revisar partes de seus roteiros que eram vistas como insensíveis. No novo “A Dama e o Vagabundo”, que estreou no Disney+, os gatos siameses que representavam estereótipos asiáticos no filme original não são retratados como siameses.

No entanto, Davé disse que essas novas refilmagens em formato moderno continuam a evocar os filmes originais e que mudar os personagens não basta para consertar o racismo dos filmes originais.

“Por que não, em lugar disso, recontar a história de um ponto de vista alternativo, ou criar novas histórias com novas pessoas e novos animais?”, ela disse.

Os especialistas elogiam o fato de que a Disney em geral não tenha optado por excluir os filmes racistas do serviço de streaming ou por alterá-los de forma a remover os elementos criticados. Uma exceção foi “A Canção do Sul”, um filme de 1946 cuja história se passa em uma fazenda do sul dos Estados Unidos na era da reconstrução [pós-guerra civil e libertação dos escravos]. O filme foi severamente criticado por glorificar a vida rural no sul dos Estados Unidos, e não está disponível no Disney+.

“Em geral tendo a rejeitar a ideia de impedir que alguma coisa seja vista, porque me preocupo com a possibilidade de que isso conduza ao esquecimento”, disse Wald. “A exposição a esse passado feio é necessária para que nos compreendamos como americanos”.

Tradução de Paulo Migliacci

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