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Cinema

Novo 'Aladdin' vai contra o que consagrou a Disney como estúdio

Com atores, versão do desenho clássico acende o sinal amarelo para a estreia de 'O Rei Leão'

Cena de versão live-action de

Cena de "Aladdin", que estreia nesta quinta (23) Divulgação

Bruno Molinero

Aladdin

  • Classificação 10 anos
  • Elenco Will Smith, Mena Massoud, Naomi Scott
  • Produção EUA, 2019
  • Direção Guy Ritchie

A certa altura de "Aladdin", quando tudo parece perdido para o herói e para Jasmine, quando nem o Gênio se mostra capaz de tirar a vaca do brejo, o palácio do sultão e todo o cenário do filme de repente ficam congelados. Os efeitos especiais só não afetam a princesa, que logo encara o espectador de frente e começa a cantar uma música com jeitão de hit pop, na qual resume seus infortúnios com ar de diva.

Enquanto a personagem deságua todo o seu sofrimento no novo filme da Disney, que estreia nesta quinta (23), o espectador na sala de cinema abre aquele sorriso amarelo, meio desconfortável, meio incrédulo com o número cafona que está sendo exibido bem à sua frente.

Talvez esse seja o símbolo de todo “Aladdin”, longa-metragem que recria com atores a animação clássica do estúdio, lançada originalmente em 1992.

Dirigida por Guy Ritchie ("Sherlock Holmes", "Snatch"), a produção vai contra o que consagrou a Disney como uma das principais empresas de entretenimento do mundo: um estúdio capaz de criar histórias que hipnotizam as crianças e, ao mesmo tempo, divertem os adultos (ou, se não chegam a entretê-los, produzem no mínimo um “pô, isso aí é interessante”). O novo “Aladdin” não chega lá.

É claro que as crianças provavelmente vão achar os cenários arabescos lindos, o caso de amor entre a princesa e o plebeu pé-rapado emocionante, o Gênio meio desbocado um sarro e o tapete voador realmente mágico. Mas, da maneira como são encadeados, fazem os adultos ensaiarem um bocejo. Inclusive os trintões que mal tinham aprendido a andar no início dos anos 1990 e assistiam à animação em looping infinito para desespero de pais que não aguentavam mais ouvir "um mundo ideal, um privilégio ver daqui".

Poucas coisas convencem no novo filme. As atuações de Mena Massoud e de Naomi Scott, que dão vida a Aladdin e Jasmine, são frouxas. As canções remetem aos piores musicais —aqueles em que qualquer coisa vira motivo para cantorias, com personagens que louvam a margarina a cada vez que abrem a porta da geladeira. O cenário cria um mundo árabe tão convincente quanto um playground de condomínio fechado.

Um dos principais alvos de fãs perturbados de internet, Will Smith não chega a comprometer na pele do Gênio. Talvez pela baixa expectativa gerada por sua performance nos trailers divulgados antes da estreia, ele aparece como uma das surpresas do longa. O ator é como aquela nota seis no boletim quando pensávamos que ficaríamos de recuperação.

Mas é claro: se colocarmos a atuação de Smith lado a lado com a performance de Robin Williams no desenho original, parece que os dois estão praticando esportes diferentes. Williams eleva a animação quase ao brilhantismo; Smith produz algumas cenas engraçadas.

Mesmo as intervenções do diretor parecem gratuitas e pouco convincentes. A mudança no roteiro para que Jasmine sonhe em se tornar sultana não consegue ir além da tentativa de agrado ao #MeToo ou aos movimentos de empoderamento feminino. O namorico do Gênio não justifica a sua inserção no roteiro.

A Disney até que vinha bem no remake de suas animações clássicas, caso do recente "Dumbo" ou dos já distantes "Mogli" (2016) e "A Bela e a Fera" (2017). Mas “Aladdin” escorrega na casca de damasco e acende um sinal amarelo para a maior expectativa do ano dentro desse universo: “O Rei Leão”, que tem estreia prevista para julho.

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