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Cinema

Documentário 'Fernando' decola ao expor beleza da cumplicidade conjugal

Filme, que joga entre real e ficção, conta a história de um professor de teatro e ator de 74 anos

Fernando

  • Quando 2017
  • Produção Brasil
  • Direção Igor Angelkorte, Paula Vilela e Julia Ariani
  • Duração 70 min.

Existe uma onda crescente de filmes em que dificilmente se distingue com clareza o que é fato e o que é ficção. Recortes de um universo objetivo se confundem com fragmentos da imaginação. Caso a verdade exista, onde ela está, afinal?

Em meio a esse movimento que abarca a cinematografia do mundo todo, os documentários brasileiros exibem potência criativa.

“Fernando” conduz a reflexões como essas ao acompanhar momentos da vida de Fernando Bohrer, um professor de teatro e ator de 74 anos, que vive no Rio de Janeiro. Ciente das artimanhas da representação, ele nos leva a acreditar que compartilhamos da intimidade dele em casa, no bar com amigos, no ensaio para uma peça, no consultório médico.

Fernando fica preocupado ao descobrir uma arritmia cardíaca, um problema que o aproxima de inquietações existenciais, mas não chega a transformar sua rotina.

São apenas as informações sobre a saúde dele que nos oferecem sinais de uma cronologia. De modo geral, assim como o personagem que retrata, o filme se afasta de uma visão convencional do tempo.

Esse jogo entre real e ficção é bem articulado pelos diretores Paula Vilela, Julia Ariani e Igor Angelkorte, todos ex-alunos de Fernando. Mas não é o bastante.

Num documentário tão concentrado em um personagem, é indispensável que essa figura seja realmente fascinante. Nesse sentido, as oscilações são evidentes.

As aulas de teatro têm um excesso de lances de efeito na fala, nos olhares e nos gestos de Fernando, que soam às vezes caricaturais. Talvez ele seja, de fato, um bom professor, mas isso não fica evidente nas cenas que acompanhamos.

No entanto, o filme vai a um outro patamar quando mostra a vida de Fernando com seu companheiro. Aparecem juntos na praia e no pequeno apartamento onde vivem.

Não é, portanto, na eloquência das aulas de teatro que o documentário alcança um vigor poético, e sim naquilo que parece mais banal, a relação de amor entre dois homens. “Fernando” merece ser visto pela beleza como expõe a cumplicidade conjugal.

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