Morre a atriz Anna Karina, símbolo da nouvelle vague

Ícone do cinema francês, artista protagonizou vários filmes de Jean-Luc Godard

Paris e São Paulo | AFP

A atriz Anna Karina, conhecida por seus papéis nos filmes de Jean-Luc Godard, pelos quais se tornou um dos símbolos da nouvelle vague, morreu aos 79 anos no sábado (14), em Paris, em decorrência de um câncer. A informação foi revelada pelo seu agente Laurent Balandras à AFP neste domingo (15). 

Francesa de origem dinamarquesa, a atriz de rosto pálido e grandes olhos azuis fez sete filmes com Godard, então seu parceiro, nos anos 1960.

Imagem em preto e branco. Ana Karina, apoiada no batente de uma porta, vestida com camiseta de manga comprida, olha para o lado.
Anna Karina durante cena do filme "Alphaville", do diretor Jean-Luc Godard - Film Studio/The Kobal Collection
Também fez carreira no mundo da música, triunfando ao lado de Serge Gainsbourg.

"Anna morreu no sábado em um hospital parisiense vítima de câncer. Ela era uma artista livre e única", disse à AFP seu agente.

O marido da atriz, o diretor americano Dennis Berry, estava com ela na hora da morte, segundo o profissional.

"Hoje, o cinema francês ficou órfão. Perdeu uma de suas lendas", afirmou o ministro da Cultura da França, Franck Riester, no Twitter.

Desde a infância na Dinamarca, entre uma mãe distante e um avô que ela adorava, a atriz cultivava grande sensibilidade.

Aos 17 anos, depois de uma briga com a família, fugiu para Paris pedindo carona. Rapidamente começou uma carreira como modelo. 

Coco Chanel (1883-1971), de quem foi uma das modelos, sugeriu que suavizasse o nome, Hanne-Karine, para algo mais palatável a ouvidos franceses, mas que ainda guardasse certo exotismo.

Godard a descobriu em um comercial de sabonete e não tirou os olhos. Ela, como o sabão que anunciava na televisão francesa, não era como as outras. Ele a convidou para um pequeno papel em "Acossado", que Karina rejeitou. 

O cineasta a chamaria novamente alguns meses depois para ser a protagonista de "O Pequeno Soldado", um filme sobre a guerra da Argélia. Durante as filmagens, surgiu um romance entre diretor e atriz, que se casaram em 1961. 

Juntos, filmaram "Uma Mulher é uma Mulher" (prêmio de melhor interpretação no festival de Berlim de 1962), "Viver a Vida" e "O Demônio das Onze Horas", com Jean-Paul Belmondo.

Em entrevista à AFP em 2018, a atriz falou sobre seu relacionamento com Godard.

"Nós nos amávamos muito. Mas era difícil viver com ele", admitiu. "Era alguém que poderia dizer 'vou buscar um cigarro' e voltar depois de três semanas. Era uma época em que não havia smartphone, nem secretárias eletrônicas".

O relacionamento deles foi marcado por uma tragédia, a perda de um filho que ela esperava. A última vez que esse casal mítico se viu foi há mais de 20 anos. Desde então, não houve contato.

"Ele está na Suíça e não abre a porta", disse à AFP. "Não, não fico triste. Afinal, é a vida dele".

Por uma década, Anna Karina participou de outros filmes, embora sempre seja a musa de Godard. 

Trabalhou com Jacques Rivette ("A Religiosa", 1966), mas não com Chabrol nem Truffaut, outros diretores da nouvelle vague.

"Era a mulher de Jean-Luc. Isso certamente lhes dava um pouco de medo", explicou mais tarde.

Em 1973, dirigiu seu primeiro filme, "Vivre Ensemble", uma história de amor entre drogas e álcool.

"É um retrato da minha juventude. Vi pessoas ao meu redor afundarem e morrerem", declarou.

Depois de Godard, Karina se casou com os cineastas Pierre Fabre e Daniel Duval e, em 1982, com o americano Dennis Berry.

Como cantora, teve grande sucesso em 1967 com "Sous le Soleil Exactement" de Serge Gainsbourg, tema do telefilme musical "Anna", de Pierre Koralnik.

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