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Artes Cênicas

Musical sobre Itamar Assumpção mostra enriquecimento do gênero no teatro brasileiro

'Pretoperitamar' foge do andamento tradicional e por vezes causa estranheza e afastamento nos espectadores

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Pretoperitamar - O Caminho que Vai Dar Aqui

  • Quando Qui. a sáb., às 21h. Dom., às 18h. A temporada vai até dom. (15) e retorna no dia 9/1
  • Onde Sesc Pompeia, r. Clélia, 93, São Paulo
  • Preço R$ 12 a R$ 40
  • Classificação 16 anos

O que mais chama atenção no musical “Pretoperitamar - O Caminho que Vai Dar Aqui” é a dramaturgia estilhaçada, que espelha abertamente o próprio Itamar Assumpção (1949-2003). Seus shows à época já eram teatrais, de um músico e performer que, afinal, começou muito jovem como ator no Paraná —como mostra de passagem o espetáculo.

E não eram teatro linear, o que a filha Anelis Assumpção (concepção e direção), Grace Passô (direção e dramaturgia) e Ana Maria Gonçalves (dramaturgia) mantêm e até aprofundam em “Pretoperitamar”.

A própria trajetória dele como criador foi pouco convencional, ao mesmo tempo popular e de vanguarda, como enfatiza o vídeo que abre as apresentações no Sesc Pompeia. Itamar se comunicava com muita facilidade com um grande público, enquanto o questionava, o lançava em estranhamentos.

Sua irmã, a atriz e cantora Denise Assunção, já era nos shows um foco de luz, como agora. As melodias de ambos eram trincadas, as representações eram carregadas de choque e ironia. De carreira também multifacetada no teatro, talvez mais lembrada pelos trabalhos com Zé Celso, mas antes no “Macunaíma” de Antunes, ela volta ao palco para representar essencialmente o próprio irmão.

Não está sozinha. É Denise quem avisa que Itamar não vem, mas ela e todos os outros são Itamar, de diferentes maneiras, em “Pretoperitamar”.

As cantoras-atrizes Thalma de Freitas, Iara Rennó e Tulipa Ruiz, as Floristas como são denominadas na produção, remetem às hoje legendárias vocalistas dos shows nos anos 1980 e têm, cada uma, solos de extasiar, pelo que encarnam do humor e da virtuose musical de Itamar. Porém, também como naquele tempo, os saltos experimentais e a estranheza resultante por vezes afastam o espectador.

A apresentação não tem um andamento tradicional, com sua estrutura entrecortada não só de diálogos, mas pela entrada de rituais e quadros musicais e pelo vaivém de Itamar por todos aqueles personagens.
“Pretoperitamar” termina de supetão e não com alertas teatrais ou mesmo como um show costumeiro.

Um e outro espectador relutam para deixar o teatro, esperando bis, até porque o musical evita a saída fácil do jukebox, deixando muito acorde no ar.

Na mesma direção, também não se faz uma idealização de Itamar. Evita-se o romantismo biográfico simplista, que é aquilo a que se acostumou o público de musicais comerciais, no Brasil e no mundo.

Mas faz falta a empatia cúmplice, por exemplo, do musical “Elza”, que também distribuiu Elza Soares por diferentes intérpretes, mas sem o vanguardismo orgulhoso de Itamar —sua propensão a desnortear, tirar o tapete.

De todo modo, como as sete de “Elza”, também as quatro cantoras-atrizes de “Pretoperitamar” carregam o espectador para a cena, embalam, envolvem, num musical que, embora tão diverso, dialoga com aquele.

Ambos confirmam o quanto se enriqueceu a dramaturgia dos musicais biográficos e nacionais. São hoje mais inteligentes, com liberdade formal e um retrato mais fidedigno da música e da cena brasileira contemporânea, da qual Itamar foi um arauto.

Ele está presente não só no sereno Fabrício Boliveira e no agitado Negro Léo, propriamente denominados Cover e Aquele que Recebe, mas na engraçada Documentarista de Claudia Missura, que faz as vezes do olhar externo, fascinado, do público.

Também está na banda integrada à cena e no dançarino Allyson Amaral, de físico e movimentos tão contrastantes com a antiga linha de coro, dos velhos musicais.

Em tempo, o vago fio narrativo de “Pretoperitamar” começa com uma “expedição” para chamar o músico à celebração de seus 70 anos. E parte daí para montar o quebra-cabeças de sua vida neste, como diz o programa, “elástico de tempo onde moram injustiças, potências culturais e resistências seculares”.

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