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Autora de 'Mulherzinhas' era radical e não gostava de histórias com meninas

Americana Louisa May Alcott odiava o livro que a fez famosa e que inspirou o filme 'Adoráveis Mulheres'

Gillian Brockell
The Washington Post

Acima de tudo, Louisa May Alcott era radical. Desde pequena, foi abolicionista. Também era feminista e prometeu que jamais se casaria; gostava de arregaçar as saias para corridas pelos bosques.

O livro mais famoso de Alcott, “Mulherzinhas”, é o oposto: um romance leve e juvenil sobre amor entre irmãs e paz doméstica. Embora o romance fosse em parte autobiográfico, a escritora o odiava. Agora, a versão cinematográfica mais recente da obra, “Adoráveis Mulheres”, dirigida por Greta Gerwig, chega ao cinema.

O pai de Alcott, Bronson Alcott, também era radical. Ele convivia com poetas transcendentalistas e transformou a casa de sua família num dos pontos de parada da “ferrovia subterrânea” [a via de escape clandestina para escravos]. Ele também foi professor, mas caiu em desgraça ao publicar um livro com ideias sobre educação que eram inovadoras demais para a época.

Alcott se tornou costureira, trabalhou como empregada doméstica de uma mulher rica em uma viagem à Europa e tentou vender a revistas femininas contos que havia escrito. Também trabalhou como enfermeira durante a Guerra Civil, e seu relato sobre o período se transformou em seu primeiro sucesso literário.

Mas o que ela preferia escrever eram romances de suspense. As histórias eram protagonizadas por mulheres liberadas que se entregavam a paixões sensacionais. Ela escreveu dezenas de histórias do tipo para revistas femininas, mas não ganhou muito dinheiro.

Em seguida tentou histórias infantis, mercado maior e no qual o pagamento era melhor. Thomas Niles, um amigo editor, a instou a escrever um romance sobre meninas. Alcott tentou, mas achou a história muito tediosa e desistiu.

Pouco depois, de acordo com a revista Humanities, o pai dela procurou a mesma editora para submeter um manuscrito de suas reflexões filosóficas. Niles concordou em publicar desde que Alcott tentasse de novo escrever um romance sobre meninas.

Em maio de 1868, ela escreveu em seu diário. “Comecei a escrever ‘Mulherzinhas’... Estou dando duro, ainda que não goste desse tipo de coisa. Jamais gostei de meninas, ou conheci muitas delas, a não ser 
minhas irmãs, mas nossas estranhas brincadeiras e experiências podem se provar interessantes, embora eu duvide.”

Na história, a dedicada irmã mais velha de Alcott, Anna, se tornou Meg; a teimosa autora se tornou Jo; a artística May se tornou Amy; e a doce Lizzie, que morreu de escarlatina aos 22 anos, se tornou Beth.

Marmee continuou sendo Marmee, e o pai de Alcott, na verdade um homem emocionalmente ausente por causa da depressão, se tornou um pai fisicamente ausente por estar servindo na Guerra Civil.

Alcott trabalhou com afinco e escreveu o livro em dois meses. Mais ou menos na metade do período, ela entregou 12 capítulos a Niles, confiando a seu diário que “ele achou a história chata; eu concordo”.

Mas os dois mudaram de postura quando Niles deu o livro a algumas meninas. Elas responderam que o livro era “esplêndido”. Alcott escreveu em seu diário que “já que o livro é para elas, elas são as melhores críticas”. Ela escreveu que seu editor a havia aconselhado a reter os direitos autorais, decisão que em breve lhe valeria uma fortuna.

A escritora norte-americana Louisa May Alcott, autora de "Mulherzinhas"
A escritora americana Louisa May Alcott, autora de "Mulherzinhas" - Reprodução

Lançado em setembro daquele ano, o livro foi um sucesso. Ainda que a estabilidade financeira conseguida fosse motivo de gratidão, Alcott jamais se sentiu confortável com o aplauso recebido por escrever alguma coisa sobre a qual ela não ligava muito. Quando fãs batiam à sua porta, ela fingia ser a empregada e 
pedia que fossem embora.

O que conhecemos hoje como o romance “Mulherzinhas” foi lançado em dois volumes; quando o primeiro, que cobria a infância das irmãs March, se saiu bem, os fãs exigiram um segundo, para que pudessem descobrir o que aconteceu às irmãs na vida adulta.

E havia um pedido que incomodava Alcott: as leitoras queriam que Jo se casasse com o vizinho e amigo Laurie.

“Meninas escrevem para perguntar com quem as mulherzinhas se casam, como se fosse o único fim da vida de uma mulher”, queixou-se em seu diário.

Houve um Laurie real para a Jo de Alcott. O nome dele era Laddie, um polonês dez anos mais jovem com quem Alcott manteve um flerte em uma viagem à Europa. No final, porém, Alcott escolheu por respeitar seu voto de “solteirice” —uma decisão que as fãs de seu livro pareciam condenar.

Por isso, escreveu Alcott, “por pura perversidade” decidiu “escolher um par estranho” para Jo na continuação: o velho professor Bhaer, um alemão. Foi uma decisão literária que parte corações até hoje.

“Imagino que a ira se derramará sobre minha cabeça, mas a perspectiva me diverte.”

Alcott continuou a saciar o apetite por histórias sobre a vida doméstica da família March por mais uma década, escrevendo as continuações “Little Men” e “Jo’s Boys”.

Em 1877, ela voltou à sua paixão, as histórias de “sangue e trovão”. Retomando um projeto, escreveu vigorosamente o dia todo e anotou em seu diário: “Foi agradável fazê-lo. Estou cansada de fornecer papinha moral aos jovens”.

Tradução de Paulo Migliacci

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