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'Estamos no fim, e todo mundo presta contas no fim', diz Martin Scorsese

Aos 77 anos, cineasta conta como 'O Irlandês' é uma forma de refletir sobre sua carreira e sobre a morte

Dave Itzkoff
The New York Times

Martin Scorsese está mais vivo do que esteve em muito tempo, repleto de paixão renovada pelo cinema e revigorado pela recepção de “O Irlandês”. Mas ele quer falar sobre morte.

Ele não está falando sobre as mortes em filmes. “É preciso saber abrir mão, especialmente na minha idade”, disse, num sábado no mês passado.

Scorsese, 77, estava se referindo a abrir mão de suas expectativas quanto a “O Irlandês”, explicou. Mas também sobre abrir mão de posses físicas. “O ponto é me livrar de tudo agora”, disse, falando em seu habitual ritmo acelerado. “Você precisa decidir quem fica, ou não fica, com o quê.” E o último passo nesse processo é abrir mão da existência.

O diretor Martin Scorsese posa para foto em entrevista ao The New York Times em dezembro de 2019
O diretor Martin Scorsese posa para foto em entrevista ao The New York Times em dezembro de 2019 - NYT

“A morte é muitas vezes repentina. Se lhe for concedida a graça de continuar trabalhando, é preciso descobrir alguma coisa que mereça ser contada.”

Ele encontrou essa inspiração em “O Irlandês”, dramatização em escala imensa da vida de Frank Sheeran (Robert De Niro), capanga do crime organizado que diz ter assassinado Jimmy Hoffa (Al Pacino).

Não foi uma empreitada leve, e a ideia de fazer mais um filme sobre o crime organizado causou dúvidas. Ele também hesitou em realizar o projeto com a Netflix e não com um estúdio tradicional.

Mas o que o convenceu foi uma história que ia além do escopo de “Os Bons Companheiros” e “Cassino”, e se estendia aos dias finais de Sheeran, quando ele contempla solitário a moralidade de seus atos. Em palavras que Scorsese sabia que ecoariam além do quadro de “O Irlandês”, disse: “Tudo gira em torno de 
últimos dias. Do último ato”.

Scorsese às vezes fala como alguém que nada mais tem a perder. Continua trabalhando, depois de mais de meio século, e embora “O Irlandês” pudesse oferecer um epílogo digno, ele não tem intenção de parar.

O que o motiva agora não é o medo da morte, mas a aceitação de que ela vem para todos. “Como dizem no filme, as coisas são o que são”, afirmou. “Você precisa aceitar o fato.”

Scorsese tem recordações vívidas de crescer em Little Italy, onde suas influências incluíram os pais, os padres e os bandidos locais que inspirariam filmes como “Caminhos Perigosos” (1973). Se seus longas tendiam a glamorizar a violência dos criminosos, disse, “é porque ela é glamorosa se você é jovem e estúpido, o que muita gente era. Eu era”.

A juventude dele também foi uma iniciação a uma cultura de morte: servir como coroinha para missas de réquiem, ajudar a entregar coroas para serviços fúnebres. Quando adolescente, perdeu dois amigos, e um dos sepultamentos, num cemitério ao lado de uma fábrica, causou impressão duradoura.

“Terminar comprimido em um cantinho de terra qualquer no Queens, diante um panorama feio. Não sei bem para o que despertei, mas que houve uma mudança, houve.”

Um bom olho para detalhes macabros serviu bem a Scorsese, mas em algum momento da produção de “Cassino” (1995), ele começou a imaginar se não teria levado o talento ao limite. “Pensei que não tinha mais como levar adiante.”

Nas duas décadas seguintes, em geral evitou projetos no gênero. Uma exceção foi “Os Infiltrados”, pelo qual ganhou um Oscar. Mas não importa qual o tema, os filmes o esgotavam, especialmente quando entrava em disputas com executivos de estúdios que preferiam trabalhos de duração menor.

Scorsese não abandonou o cinema, mas passou a recorrer cada vez mais a financiamento independente. 

Quando De Niro o procurou com o material básico para “O Irlandês”, o cineasta não entendeu aquilo como oportunidade para fazer um pronunciamento grandioso sobre a máfia. “Isso era um perigo”, disse, temendo que o filme viesse a ser desconsiderado como mais um drama sobre o crime organizado.

Mas talvez fosse capaz de dizer algo sobre “o processo da vida”. E ele não conseguiu resistir a uma história sobre criminosos cujas vidas se tornaram uma maldição que grava a fogo em suas almas os maus atos que praticaram.

Scorsese disse que “O Irlandês” não era um repúdio aos seus filmes anteriores sobre crime. “Não acho que seja arrependimento. Aqui estamos no fim, e todo mundo presta contas no fim. Se tiver tempo. É ao que nos encaminhamos.”

Al Pacino, novato quanto aos métodos de Scorsese, disse que desenvolveu uma comunicação fácil com o diretor, e que percebeu que ele não tem medo de expressar sua opinião.

Depois de uma tomada, o ator recorda-se de “Marty assistindo à cena em um computador e pondo a cabeça para fora, como se quisesse dizer ‘mas que [palavrão] você está fazendo?’ Ele não chegou a dizer isso, mas foi o que senti”.

De Niro, que estrelou nove longas de Scorsese, diz que a abertura do diretor com relação à experimentação continua a ser uma constante desde “Caminhos Perigosos”.

“Se sente que algo não está nos parâmetros, pode dizer ‘não’ ou dizer que é o caso de tentar para saber”, disse. “Ele sempre tem a opção de cortar algo. Isso nos dá liberdade, e todos se sentem confortáveis.”

Mas De Niro diz que Scorsese e ele compartilham certo fatalismo —a expectativa de que, sempre que seu trabalho é celebrado, surgirá uma barragem de rejeição, mesmo no caso de “O Irlandês”, um filme amplamente elogiado.

Scorsese está vendo o mundo mudar. O cineasta aceitou um contrato com a Netflix para cobrir o orçamento de “O Irlandês”. Só que ter uma obra no streaming quer dizer que alguns espectadores estão assistindo ao filme de três horas e meia aos pedaços, em lugar de na íntegra. Mas Scorsese disse que prefere que o filme esteja disponível em algum lugar do que em lugar nenhum.

A Netflix informou que “O Irlandês” foi visto por mais de 26,4 milhões de contas em sua primeira semana, mas o reino dos smartphones, tablets e aparelhos de streaming é em geral invisível para Scorsese.

Descrevendo sarcasticamente sua realidade cotidiana, disse: “Saio, me botam em um carro, me levam para algum lugar, me tiram do carro, me botam numa mesa, cuidam da mim. Se entro em uma sala e alguém fala comigo, respondo que sim. Depois volto para casa e tento passar pela porta sem 
enlouquecer os cachorros”.

Mas ele nada tem de plácido, como mostram suas declarações contra filmes da Marvel, que disse “não serem cinema”.

Isso levou Robert Iger, presidente-executivo da Disney (que controla a Marvel) a dizer que as declarações de Scorsese eram ”cruéis” e “injustas com os que fazem os filmes”.

Scorsese me disse que havia procurado Iger meses antes, em benefício de sua Film Foundation, que busca restaurar filmes do acervo da Fox, agora controlada pela Disney. “E aí acontece isso”, diz Scorsese, rindo. “Vamos ter muito o que conversar.”

O cineasta foi atacado por críticos e outras pessoas que afirmaram que os personagens femininos de “O Irlandês” não foram bem desenvolvidos e existem só para reagir aos personagens masculinos. 

Scorsese disse estar ciente do debate sobre a representação das mulheres em seus filmes, reconhecendo que “O Irlandês” é “um filme mais isolado”, mas não é unicamente representativo de seu trabalho.

O cineasta foi circunspecto quando perguntado sobre filmes recentes de que gostou, dizendo que havia muita coisa que não tinha visto, embora tenha gostado de “Parasita”, de Bong Joon-Ho.

E ele estava ciente de que “Coringa”, baseado em HQs, continha muitas homenagens ao seu trabalho, mas não pareceu ansioso por ver o trabalho.

“Vi algumas cenas. Conheço a história. O que traz a questão: por que preciso assistir? Entendo a história. É bacana.”

A despeito das aversões, Scorsese estará de volta aos estúdios de Hollywood em seu novo projeto, “Killers of the Flower Moon”, ou assassinos da flor da lua, adaptado de um livro de não ficção de David Grann sobre homicídios de indígenas no Oklahoma.

O diretor tem outras aspirações, mas elas nada têm a ver com o cinema. “Adoraria tirar um ano de folga para ler e só. Ouvir música quando necessário. Ver amigos. Porque estamos todos partindo. Amigos estão morrendo. Parentes.”

Um obstáculo, diz, está na disposição que o compele a contar histórias da forma que conhece melhor. E há também a outra fronteira —a morte. 

“O problema é que o tempo é limitado e a energia é muito limitada —e a mente também, é claro. Por sorte, a curiosidade não acaba.”

Tradução de Paulo Migliacci

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