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Cinema

Novo filme de Ira Sachs comove sem apelar à pieguice e aos excessos

'Frankie' serve de álibi para o cineasta concretizar o desejo de filmar a francesa Isabelle Huppert

Frankie

  • Quando Estreia nesta quinta (20)
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Isabelle Huppert, Marisa Tomei, Brendan Gleeson e Jérémie Renier
  • Produção França/Portugal, 2019
  • Direção Ira Sachs

O fim, seja o de relacionamentos, da vida ou dos valores de uma geração, é o nervo dos filmes do americano Ira Sachs. Por meio do registro minimalista das tensões que antecipam todo apagamento, seus dramas comovem sem apelar à pieguice. “Frankie” reitera a opção de Sachs contra os excessos.

Frankie é o apelido de Françoise Crémont, atriz francesa que sabe ter pouco tempo de vida e que reúne a família e uma grande amiga para um encontro de despedidas em Sintra, no litoral português

Além de se inserir no repertório temático favorito de Ira Sachs, “Frankie” serve também de álibi para o cineasta concretizar o desejo de filmar a francesa Isabelle Huppert, uma das maiores atrizes vivas e um fetiche para diretores cinéfilos.

Depois de ter trabalhado ao longo de cinco décadas de carreira com Godard, Chabrol e outros ícones do cinema europeu, a francesa adquiriu uma aura autoral, que agora compartilha com cineastas fiéis à ideia de assinatura.

Huppert não pertence à linhagem das atrizes camaleônicas, aquelas que atraem pela capacidade de se metamorfosear em suas personagens. O método subversivo de atuação de Huppert consiste em roubar a essência de suas personagens para pôr em cena sua persona cínica e fascinante, numa estratégia de assinatura autoral. 

Diretores, técnicos e colegas que já trabalharam com a atriz frequentemente relatam como ela dirige suas cenas. Além do controle das nuances de voz e gestos, Huppert adquiriu amplo domínio das técnicas e dos estilos do cinema e os maneja com autonomia.

Nesse sentido, Huppert não é apenas um instrumento afinadíssimo tocado por um músico, como se costuma comparar a relação entre diretor e intérpretes. “Frankie” amplifica essa possibilidade oferecendo a ela instantes solo e momentos orquestrais, nos quais Huppert compõe lindamente acompanhada por Marisa Tomei e Brendan Gleeson, atores também personalíssimos e de registros diversos.

Sachs, contudo, não deixa que o filme seja sequestrado por sua estrela. A família se mantém como o núcleo em torno do qual o diretor e seu fiel corroteirista, o brasileiro Mauricio Zacharias, tecem uma tapeçaria de afetos. 

O filho instável, um casal em crise, a desordem adolescente e a perspectiva da solidão emergem em meio ao drama central, instaurando um desequilíbrio característico das emoções.

Em meio às turbulências, Frankie ainda tenta regular, impor sua onipotência. A finitude, porém, anuncia que durante ou depois da dor, outras forças ocuparão o vazio.

 
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