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Sensibilidade guia relato sobre exílio na Sibéria e revela barbárie sob os Románov

'A Casa dos Mortos' mostra que as atrocidades siberianas começaram muito antes do stalinismo

Henrique Canary

A Casa dos Mortos: O Exílio na Sibéria sob os Románov

  • Preço R$ 84,90 (496 págs.)
  • Autor Daniel Beer. Trad.: Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra
  • Editora Companhia das Letras

Lançado recentemente pela Companhia das Letras, "A Casa dos Mortos: O Exílio na Sibéria sob os Románov", de Daniel Beer, preenche todos os requisitos para se tornar uma obra de referência no estudo da Rússia pré-revolucionária.

O autor toma o título emprestado de Dostoiévski, que em seu "Recordações da Casa dos Mortos" já havia descrito, em uma forma um pouco autobiográfica, o horror do exílio na Sibéria, onde cumpriu quatro anos de trabalhos forçados por subversão.

No caso do livro de Beer, o que impressiona, em primeiro lugar, é a quantidade de fontes utilizadas. Ao total, o historiador britânico recorre a oito arquivos estatais localizados em Moscou, São Petersburgo e em cidades da Sibéria.

O resultado é louvável. Ao longo de quase 500 páginas, Beer consegue evitar as especulações generalizantes e fornece um fluxo constante de dados, lugares e histórias de homens e mulheres de carne e osso que dão vida à sua narrativa leve e elegante.

Atletas participam de maratona na região do lago Baikal, na Sibéria
Atletas participam de maratona na região do lago Baikal, na Sibéria - Emile Ducke/The New York Times

A tese fundamental apresentada é a de que o sistema de exílio siberiano, pensado, entre outras coisas, para permitir a ocupação de uma área equivalente a uma vez e meia o tamanho do Brasil, acabou atrasando enormemente o desenvolvimento da região, pois inibiu a colonização voluntária por interesse econômico.

“A própria palavra ‘Sibéria’ é suficiente para aterrorizar um russo”, nos lembra o autor diversas vezes. Sob tais condições, eram poucos os que estavam dispostos a se deslocar para a região com o fim de nela trabalhar e produzir. A Sibéria permaneceu, até muito recentemente, como sinônimo de morte, desolação, barbárie e injustiça.

Nesse sentido, "A Casa dos Mortos" vem preencher uma lacuna importante. Nos últimos anos, devido à abertura de arquivos secretos, as publicações a respeito da repressão na Rússia têm se concentrado fundamentalmente no período soviético.

Beer nos lembra, no entanto, que a barbárie siberiana começou muito antes disso, e que, sob o stalinismo, ela apenas adquiriu dimensões industriais.

A despeito da dureza de seu conteúdo, o livro de Beer é bastante sensível. Chama atenção, por exemplo, a importância que o autor dá às histórias dilaceradoras sobre o sofrimento das mulheres dos exilados, que acompanhavam voluntariamente seus maridos ao deserto gelado da Sibéria.

Outros capítulos surpreendem pelo próprio tema, como o dedicado exclusivamente ao cnute, o chicote russo, utilizado para torturar condenados, ou o que descreve o complexo sistema de fugas.

Por vezes, a narrativa de Beer permite estabelecer um vínculo quase emocional não apenas com os personagens que encontramos a cada página, mas inclusive com a própria região, sua geografia e sua paisagem. Seu relato permite ter uma dimensão, apenas aproximada, evidentemente, daquela que permanece até hoje uma das zonas mais remotas, mas também mais ricas e belas do mundo.

Henrique Canary é doutorando em literatura e cultura russa pela USP

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