Coronavírus faz músicos trocarem shows com plateia por público online

Após cancelamentos de eventos, artistas ao redor do mundo tentam se adaptar à situação

Michael Cooper e Alex Marshall | The New York Times

O teatro de ópera de Veneza, La Fenice, sobreviveu a inundações e foi reconstruído depois de incêndios devastadores. Por isso, estava determinado a se manter em operação, mesmo que o coronavírus o tenha forçado a cancelar suas apresentações.

Esta semana, um quarteto de cordas se posicionou no grande teatro, fantasmagoricamente vazio, e tocou Beethoven; o concerto foi transmitido online, e os músicos foram ovacionados em forma de emojis de palmas.

O gerente geral da companhia, Fortunato Ortombina, disse que o objetivo do concerto virtual havia sido o de enviar uma mensagem: “Continuamos a tocar, neste lugar”.

Embora o coronavírus tenha causado um grande abalo no mundo da arte, em termos de locais de apresentação fechados e eventos cancelados, também estimulou muito a criatividade e o espírito de que o show precisa continuar, em algumas das áreas mais atingidas, com artistas e organizações batalhando para se adaptar às circunstâncias desafiadoras.

O surto forçou a Orquestra Sinfônica de Xangai a cancelar seus concertos de fevereiro e março e deixou os músicos trabalhando em casa. Por isso, eles começaram a postar aulas no grupo da orquestra no WeChat, além de vídeos informais que os mostram ensaiando em casa e playlists concebidas para ajudar as pessoas que estão em quarentena a “combater o tédio que sentem em casa”.

“Todos os médicos e enfermeiros estão trabalhando muito para ajudar as pessoas e, por isso, pensamos no que poderíamos fazer, como músicos”, disse Hao Jie, o trombonista principal da orquestra, em entrevista por telefone. “Com todo mundo ficando em casa por tanto tempo, imaginamos fazer alguma coisa para os jovens e os estudantes interessados em aprender a tocar um instrumento musical.”

Os vídeos se provaram populares e foram vistos milhares de vezes. “As pessoas adoram”, disse ele.

O mundo pop também sofreu um abalo. Quando o grupo BTS, um dos maiores sucessos do k-pop, lançou seu novo álbum, no mês passado, o medo do coronavírus e as restrições a grandes eventos forçaram a banda a repensar a complicada entrevista coletiva que estava elaborando. “Decidimos realizar a entrevista coletiva sem a presença de jornalistas”, eles anunciaram, antes de concederem uma entrevista online.

Centenas de fãs viram o evento em seus serviços de streaming.

Na Suíça, uma apresentação da ópera “Salomé”, de Richard Strauss, no Lucerne Theater, quase foi cancelada quando a Orquestra Sinfônica de Lucerna foi posta em quarentena por ter se apresentado no norte da Itália menos de duas semanas antes.

O teatro começou a procurar por um pianista solo para uma versão reduzida da complexa partitura, escrita para uma das maiores orquestras na história da ópera e que, muitas vezes, é tocada por mais de cem músicos.

“A casa estava lotada e, por isso, o intendente do teatro me procurou naquela manhã, às 9h, para me convidar para tocar”, recorda a diretora da equipe musical do teatro, Valeria Polunina.

Polunina conhecia bem a partitura para piano da ópera, mas temia não ser capaz de fazer justiça a ela naquela noite. No entanto, começou a ensaiar e logo ganhou prática; por isso, quando recebeu um novo telefonema naquela tarde, no qual foi informada de que a apresentação não aconteceria sem ela, a artista aceitou o convite.

“Foi uma aventura”, disse ela, estimando ter tocado piano por mais de dez horas sem parar, naquele dia, entre ensaios, que duraram o dia todo, e a apresentação de noite. “O teatro estava lotado, e as pessoas apreciaram muito o nosso esforço, porque todo o resto tinha sido cancelado."

Muitos eventos foram cancelados na Suíça depois que o governo proibiu apresentações para públicos superiores a mil pessoas. A Casa de Ópera de Zurique, que acomoda 1.100 espectadores, encontrou uma solução inovadora para poder manter seu calendário —limitou o público a 900 pessoas, recomprando ingressos, quando necessário, como teve de fazer para apresentações de “La Bohème”, de Puccini, nesta semana.

Mas a companhia teve de cancelar um de seus maiores eventos de arrecadação de verbas do ano, o Baile da Ópera, que aconteceria em 14 de março e devia atrair 1.600 convidados. Bettina Auge, porta-voz do teatro, disse que embora este estivesse oferecendo restituições, a ópera esperava que seus frequentadores dispensassem a restituição, como forma de apoiar seus programas educacionais.

Mesmo a televisão, por definição uma forma de entretenimento caseiro, está se ajustando ao coronavírus, pelo menos na China. Em muitos programas, não há mais espectadores nas gravações.

Um reality show de música chamado “Singer”, no qual cantores se apresentam, recentemente transmitiu um episódio em que os jurados e participantes apareceram em suas casas, noticiou a BBC. E alguns programas de entrevistas estão sendo transmitidos via internet das casas dos apresentadores, quase como se fossem videoconferências.

O grupo sul-coreano BTS lançou seu novo disco com sucesso, mas teve de cancelar diversos grandes shows na Coreia do Sul por causa do surto.

Os integrantes da Orquestra Sinfônica de Lucerna não apresentam sintomas e estão no final da quarentena; devem voltar a tocar “Salomé” neste domingo (8). Mas a proibição a grandes apresentações, na Suíça, levou a orquestra a cancelar dois grandes concertos.

O Quartetto Dafne, formado por membros da orquestra da ópera, tocou Beethoven e Borodin para fileiras de assentos vazios, no auditório rococó do La Fenice, em Veneza, durante o concerto transmitido online. Foi incômodo ver os músicos subirem ao palco em meio ao silêncio e agradecerem ao final sem receberem aplausos.

Uma pessoa que viu o espetáculo online respeitou rigorosamente os preceitos de etiqueta da música clássica, escrevendo “psiu” repetidas vezes quando outros espectadores postavam comentários.

Ortombina, o gerente geral da companhia veneziana de ópera, disse que as duas semanas de apresentações canceladas representavam um custo de cerca de US$ 670 mil. Mas seu maior medo, disse, era a perda do relacionamento entre o teatro e a audiência.

“Fechar a casa em uma noite na qual todos os ingressos foram vendidos é um desastre”, disse ele. “Em termos musicais, econômicos e humanos.”

Tradução de Paulo Migliacci

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