Estética colorida e fofinha do k-pop é arranhada por onda de escândalos sexuais

Indústria da música pop coreana movimenta cerca de R$ 20 bilhões por ano no mundo

Os integrantes da banda Bigbang; Seungri, ao centro, foi acusado de vazar filmes de sexo Divulgação
Os integrantes da banda Bigbang; Seungri, ao centro, foi acusado de vazar filmes de sexo - Divulgação
Lucas Brêda
São Paulo

A banda BTS, a exemplo de Paul McCartney, esgotou dois dias de shows no estádio do Palmeiras, o Allianz Parque. Ao contrário do ex-beatle, a boyband sul-coreana, que se apresenta ali em maio, já vendeu todos os cerca de 90 mil ingressos com antecedência de meses.

A música pop da Coreia do Sul, ou k-pop, tem um mercado estabelecido em todo o planeta e vem ameaçando o domínio do ocidente na exportação de astros. Nesta sexta, a mesma banda lança o aguardado álbum "Map of the Soul: Persona", com participação da cantora Halsey. No dia seguinte, o grupo toca no tradicionalíssimo programa da TV americana "Saturday Night Live".

Mas os últimos meses foram conturbados para a imagem dessa indústria que movimenta cerca de R$ 20 bilhões por ano ao redor do mundo.

Uma investigação na boate de luxo Burning Sun, em Seul, revelou escândalos de prostituição e tráfico de drogas. Seungri, um dos "idols" (como são chamados os artistas do k-pop) do grupo Bigbang, foi acusado pela polícia local de comandar esquemas de cafetinagem para investidores estrangeiros no clube.

Enquanto a investigação avança, o envolvimento de outros "idols" e outros escândalos vêm subindo à tona.

Jung Joon-young, cantor de k-pop e celebridade da TV sul-coreana, foi acusado de filmar relações sexuais e compartilhar em chats os vídeos sem o consentimento das parceiras. Seungri também era um dos participantes do chat, assim como Choi Jong-hoon, da banda de rock F.T. Island.

As revelações levaram à saída de Seungri do Bigbang, e Joon-young prometeu abandonar a carreira. Eles se desculparam e disseram à polícia que vão colaborar com a investigação. Joon-young chegou a dizer que fez e divulgou os vídeos "sem sentir culpa".

Neste momento, nenhum dos dois pode deixar o país.

"Nossa primeira reação foi acreditar que estava acontecendo uma caça às bruxas, a mídia estava sendo sensacionalista, mas quando a investigação veio a público, começamos a desacreditar nas versões dele", diz Graziele Chaves, 24, dona da página de fãs do Bigbang no Brasil.

Devido à barreira da língua, Chaves tem feito um trabalho de tradução e reunião de informações. "Ainda esperamos as investigações e que ele possa ser inocentado em algumas coisas, mas aquela relação de admiração e credibilidade acabou." Apesar do posicionamento dela, que vem perdendo dezenas de milhares de seguidores desde o escândalo, há fãs a favor de Seungri —56 mil permanecem fiéis ao canal nacional da banda no Twitter e 42 mil no Facebook.

Em uma galeria na Liberdade, em São Paulo, com lojas de artigos de k-pop, os produtos do Bigbang (de carteiras a camisetas) ainda têm boa saída. Um vendedor dizia que, para os fãs, as acusações soam como perseguição. "É como um skatista cair do skate, sabe? Eles são menos 'nas rédeas', pelas roupas, tatuagens."

Fãs de outros grupos, como o EXO ou o BTS, usam o caso para atacar os fãs do Bigbang, mas a proporção tomada por essa discussão é mais um resultado da importância do k-pop na cultura contemporânea do que o contrário. Problemas com drogas e casos de suicídio já aconteceram no passado, quando a indústria não era tão conhecida.

Mattel lança linha de bonecos do grupo K-pop BTS
Linha de bonecos do grupo K-pop BTS - Reprodução/Twitter/@mattel

Longe da fofura do BTS, que batizou de "Love Yourself" a sua última "era" (período de um álbum e seus respectivos clipes e turnês), cheia de letras sobre amor próprio, o Bigbang é visto como um grupo menos comportado. O conceito do quinteto é mais urbano e hip-hop. G-Dragon, líder da banda, já foi flagrado fumando maconha em um show no Japão, há oito anos.

A agência do Bigbang, YG, agora vive uma crise. E muitos fãs chegam a enxergar os atos como um tipo de rebeldia, já que as gravadoras de k-pop têm controle quase absoluto sobre seus artistas. Não são raros, por exemplo, contratos que proíbem um namoro que não pega bem para determinada carreira.

Tudo faz parte da construção do astro. "Tem um termo que foi cunhado na Coreia do Sul, pelos cientistas sociais de lá: 'academy system'. É a hiper-racionalização do processo de produção de um artista", explica Thiago Haruo Santos, antropólogo que estudou k-pop em seu mestrado na Universidade de São Paulo.

"É a ideia de pegar um jovem saindo do ensino médio e fazer uma peneira. A pessoa faz entrevistas, canta, fala, mostra qual personalidade pode oferecer a um projeto futuro de banda", diz Haruo Santos. Esses jovens recrutados passam a treinar as habilidades de dança e canto.

Tudo no k-pop é preparado para gerar a noção de perfeição. Grande parte do apelo dos grupos fora da Ásia, inclusive, vem desse apuro técnico e estético, uma visão resplandecente de astro.

O BTS, fenômeno do k-pop, por exemplo, já conseguiu se estabelecer de vez no Ocidente. Grupo mais conhecido fora do seu continente de origem, o septeto invadiu as paradas americanas e até esteve no último Grammy.

Em termos de Brasil, nos últimos três shows no país (em 2014, 2015 e 2017), eles não chegaram a reunir 15 mil pessoas. Mas, agora, em maio, vão tocar para cerca de 90 mil.

O crescimento é inteiro calcado no sucesso no YouTube. Os vídeos lúdicos e megaproduzidos batem recordes e acumulam centenas de milhões de acessos. Eles são a conexão principal entre os fãs de outros países e os "idols".

Depois do "debute", quando são apresentados personagens e conceito de um novo grupo, os "idols" vão ganhando novos marcos de personalidade, que são explorados nos "MV" (os "music videos").

Além da música, é esse desenvolvimento meticuloso do astro pop que engaja o fã a ser "seguidor" —e não um mero ouvinte— do artista. Segundo Haruo Santos, o antropólogo, o controle sobre a vida dos cantores tem a ver com isso.

"Os clipes e programas de reality estreitam os laços com a pessoa do 'idol'. O fã o conhece e se sente levado a apoiá-lo, porque eles também se sentem apoiados em suas próprias vidas", diz. "Imagine um adolescente tímido que, de repente, consegue dançar em frente a um monte de gente."

Até por isso, para os fãs mais jovens, é difícil acreditar que o ídolo possa cometer crueldades. "O k-pop, dentre as culturas juvenis, é visto pelos pais como saudável. Os adolescentes estão se encontrando aos fins de semana para se apresentar, dançar, conhecer outra cultura. Uma mãe já me disse: 'O k-pop ensinou minha filha a viver em sociedade'."


Os clipes mais vistos dos gigantes do k-pop 

BlackPink
'Ddu-Du Ddu-du' (749 mi)

BTS
'DNA' (690 mi)

Twice
'TT' (448 mi)

Bigbang
'Fantastic Baby' (393 mi)

Momoland
'BBoom BBoom' (340 mi)

iKON
'Love Scenario' (286 mi)

Jennie
'Solo' (270 mi)

GOT7
'Just right' (265 mi)

EXO
'Monster' (262 mi) 

GD x Taeyang
'Good Boy' (235 mi)

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