Regina Duarte fala em carta branca ao assumir Cultura e Bolsonaro cita poder de veto

Em cerimônia com pouco prestígio da classe artística, atriz assumiu a Secretaria Especial da Cultura

Brasília

Em evento com pouco prestígio da classe artística, a atriz Regina Duarte assumiu nesta quarta-feira (4) a Secretaria Especial da Cultura do governo de Jair Bolsonaro prometendo pacificar a pasta e manter diálogo constante com a classe cultural, a sociedade e o Congresso. 

"Meu propósito aqui é de pacificação, diálogo permanente com o setor cultural, estados e municípios, Parlamento e com os órgãos de controle", disse. 

Olhando para Bolsonaro, a atriz reforçou a promessa feita a ela de que teria liberdade para escolher os integrantes da secretaria. 

"Então, o convite que me trouxe até aqui falava em porteira fechada, carta branca. Não vou esquecer não, hein?"

Na sequência, Bolsonaro pontuou que embora tenha concedido todos os ministérios de "porteira fechada", termo usado na política para indicar que o titular tem liberdade para fazer mudanças, ele tem poder de veto.

"Regina, todos os meus ministros também receberam seu ministério de porteira fechada. Por isso, tem liberdade de escolher seu time. Obviamente, em alguns momentos, eu exerço o poder de veto de alguns nomes. Eu já fiz em todos os ministérios. Até porque, para proteger a autoridade. Isso não é perseguir", disse.

Apesar da advertência, o presidente disse que se considera um amigo da atriz, que valoriza a cultura brasileira e que, diferentemente do que o acusam, não é um “brucutu”, termo utilizado para definir alguém grosseiro e ríspido.

“Eu confesso que é um momento muito difícil, porque o que muitos têm na cabeça é que sou uma pessoa que está longe de amar a cultura” afirmou.

Segundo ele, nos governos anteriores, a cultura não atendia aos anseios da população e era explorada com motivações políticas.

“Nós achamos uma pessoa certa que agora pode valorizar, por exemplo, a Lei Rouanet, que foi mal utilizada no passado”, afirmou. “Com a chegada dessa grande mulher, nós estamos colocando nas mãos de quem realmente entende do assunto esse desafio”, acrescentou.

O presidente disse que a atriz merece “mais do que isso” e que ela vai passar por um momento probatório no cargo, do qual sairá vencedora.

Em meio a críticas da ala ideológica do bolsonarismo, Regina fez sinalizações ao Congresso e disse que "o apoio do Legislativo é indispensável para que se tornem reais os objetivos da tarefa que vamos realizar a partir de hoje".

Depois de usar termos de relacionamento para falar do convite para integrar o governo como namoro e noivado, Regina desceu a rampa presidencial vestindo um blazer branco e um vestido preto estampado de bolas brancas de braços dados com o vice-presidente da República, o general Hamilton Mourão. 

Conhecida por seus célebres papéis da televisão brasileira, a "namoradinha do Brasil" entrou no salão nobre do Palácio do Planalto de forma performática, gesticulando como quem aguarda aplausos.

Regina fez um discurso de 15 minutos, durante o qual exaltou o papel e a diversidade da cultura brasileira, defendeu valores familiares e a repartição com equilíbrio de recursos de fomento.

 
Sua fala foi marcada por pausas dramáticas, risadas, olhares e gestos. Ela brincou que sabe que Bolsonaro é bravo e disse que o humor faz parte da sociedade brasileira, dizendo que cultura é "feita de palhaçada".

Ao se apresentar para o cargo, disse estar "municiada de confiança e coragem" para a missão. Agradeceu publicamente o apoio do ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, e disse ouvido dele palavras de incentivo e encorajamento.

"Vai lá, segura essa para gente antes que um aventureiro lance mão", disse Regina, citando declaração de Ramos. 

"Posso ser um tanto ingênua, mas eu acredito que possa se fazer muita cultura e arte com os recursos que nós temos com criatividade", disse.

Embora tenha prometido fazer uma cultura "acima das ideologias", o público presente no evento contou com poucos artistas e, sobretudo, com a rede de integrantes do governo e de bolsonaristas.

No evento, estiveram presentes atores como Carlos Vereza, Rosamaria Murtinho, Mylla Christie, Mário Frias e Maria Paula, além do locutor de rodeios Cuiabano Lima.

A equipe de Regina ainda não foi anunciada, mas o ator e produtor teatral Humberto Braga e Vereza devem integrar a Secretaria de Cultura. 

Nomeada nesta quarta, Regina fez uma série de exonerações na pasta, publicadas no Diário Oficial da União. 

Após encerrar um contrato de 50 anos com a TV Globo, a atriz chega ao governo Bolsonaro com um salário mensal de R$ 17.327,65.

Ela já enfrenta resistência da ala ideológica do governo, em especial de seguidores do escritor Olavo de Carvalho, pelas exonerações feitas nesta quarta. 

Entre os demitidos estão Dante Mantovani, da Funarte, a Fundação Nacional de Artes, que é aluno de Olavo e membro da Cúpula Conservadora das Américas. 

Mantovani havia sido nomeado em dezembro de 2019 pelo ex-secretário da Cultura Roberto Alvim, que deixou o cargo em 17 de janeiro após fazer um vídeo com referências de um ministro da Alemanha nazista. 

Regina é a quarta titular da pasta, marcada por uma série de controvérsias desde o início da gestão Bolsonaro.

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