Artistas gravam sons das cidades que ficaram desertas por causa do coronavírus

Projetos registram panelaços, cantorias na varanda e descortinam cartografia urbana por meio dos sons

São Paulo

Na ilha de São Luís, no Senegal, um homem canta uma música numa língua desconhecida —a única palavra identificável é “corona”. Em Helsinque, uma mulher imita as vozes dos personagens ao narrar uma história infantil para os filhos. O badalar dos sinos das igrejas ressoa por vários países europeus.

Os sons podem ser ouvidos à medida que se explora o mapa interativo do projeto #StayHomeSounds, sons de ficar em casa, da plataforma Cities and Memory. Em uma semana no ar, ela reuniu cerca de 150 gravações de 35 países.

A maioria delas, no entanto, não registra exatamente barulhos, mas o silêncio que reina desde que diversos países adotaram o distanciamento social para combater a pandemia do novo coronavírus.

Criador da plataforma, o britânico Stuart Fowkes conta que não se surpreendeu com as gravações do piar dos pássaros e do sopro do vento que chegaram. “Quando os barulhos que nos cercam desaparecem, passamos a ouvir com muito mais atenção. A audição é um sentido muito íntimo”, afirma ele, que fundou há cinco anos o Cities and Memory.

Por outro lado, diz, não foi só essa quietude idílica que o motivou a pedir que o público gravasse o que anda ouvindo de suas janelas. Sons cotidianos que nasceram justamente por causa do coronavírus, como os aplausos em homenagem aos trabalhadores da saúde, ou a cantoria das famílias confinadas nas varandas da Itália, também estão na gênese da iniciativa.

Um desses sons próprios da quarentena era o único registrado na parte do mapa correspondente ao Brasil no início desta semana. É a gravação de um panelaço na avenida Ipiranga. Também era o som mais negativo do projeto até agora, segundo Fowkes.

“No Brasil, vocês têm um líder que está pregando coisas diferentes daquelas do resto do mundo”, afirma. “Mas acho que talvez vocês estejam ouvindo algo que outros países vão ouvir à medida que a quarentena avança. O clima agora é positivo, otimista. Mas se o contrato social for rompido, ou a situação econômica piorar para muita gente, ouviremos mais sons de protesto, de agitação, de outros países.”

Os panelaços inspiraram ainda um outro projeto local de cartografia sonora.

Liderado por Giselle Beiguelman, artista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, junto a seus alunos da pós-graduação em design, a proposta é entender como o coronavírus impacta de forma diferente cada uma das regiões de São Paulo.

Afinal, afirma Beiguelman, a pandemia não se projeta pelos espaços de um jeito uniforme. Ao contrário, ela reflete uma série de marcadores sociais —renda, classe social, raça, acesso à infraestrutura.

Fatores que, quando a paisagem é parecida em todo lugar, sem carros ou pessoas, podem ser mais perceptíveis pelo som. “Ele passa a ser uma pele mais evidente da cidade, daquilo que os jornais estão tendo dificuldade de cobrir”, diz.

Ela conta que fizeram gravações em bairros das zonas oeste, norte e centro, e também em Santos, no litoral paulista.

Perceberam que, enquanto as partes mais ricas experimentaram diminuição radical do barulho do trânsito, outros lugares convivem com ele sem grandes mudanças. São bairros que abrigam uma população que não pode trabalhar de forma remota e que depende de transporte público.

Outro indício da diferença são, é claro, os panelaços —que Beiguelman prefere chamar de “janelaços” para os diferenciar das panelas que pediram o impeachment de Dilma Rousseff. “Não é só bater panela.
Ao meu redor, sabemos que começou quando toca ‘Apesar de Você’”, ela exemplifica.

Mas ressalta que, enquanto no centro da cidade, onde mora, a hora do “janelaço” é de catarse, em outros lugares ele é um momento de vozes cruzadas —isso quando acontece.

No distrito de Ermelino Matarazzo, na zona leste, por exemplo, não se ouviram protestos contra o presidente Jair Bolsonaro em nenhum dia, conta Vinicius Santos Almeida, mestre em geografia pela USP e integrante do projeto.

Ele relata que, na sua vizinhança, os sons são os mesmos de sempre —as principais avenidas continuam movimentadas, e o funk e o sertanejo reinam em festas improvisadas nos carros estacionados.

Se houve alguma melodia nova, foi a das rádios gospel, que parecem estar sendo ouvidas num volume mais alto do que o usual. “Tem dias em que você acorda com um pastor orando”, diz Almeida.

Segundo ele, a aparente normalidade transmitida pelos ruídos é um exemplo de como áreas como aquela em que vive não têm condições de pôr em prática recomendações do sistema de saúde. “Para alguns, ficar em casa não é opção. E isso tem a ver com a falta de infraestrutura que temos, de não ter privacidade ou espaços vazios, de casas insalubres.”

Da janela, Almeida deve continuar a gravar os ruídos da vizinhança nos próximos dias.

Ainda não sabe, no entanto, como o batidão ou a gritaria das crianças brincando no seu condomínio serão combinados aos sons gravados pelo restante de sua turma —Beiguelman diz que a ideia é apresentar o projeto numa interface que fique entre a arte e o design, mas sem a pretensão de um mapeamento urbano rigoroso.

Enquanto os sons gravados por eles e por outros enchem a internet, porém, a Terra vai ficando mais silenciosa, por assim dizer. A diminuição dos fluxos de pessoas e de automóveis nas grandes cidades têm diminuído o chamado ruído sísmico, ou as pequenas vibrações e oscilações do chão que atrapalham o trabalho dos sismógrafos, em várias partes do planeta.

No Brasil, uma estação em Canela, cidade próxima a Gramado no Rio Grande do Sul, chegou a registrar metade da frequência associada às atividades humanas desde que o prefeito decretou quarentena, segundo o Centro de Sismologia da USP.

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