Descrição de chapéu Artes Cênicas

Diretor faz quarentena em teatro na cracolândia para combater fome na região

Sede da companhia teatral Pessoal do Faroeste, em São Paulo, vira centro de distribuição de cestas básicas

São Paulo

"Voltem às duas!", grita o diretor teatral Paulo Faria, megafone na mão, da sacada do sobrado onde funciona, há 12 anos, a sede da companhia Pessoal do Faroeste, a 400 metros da cracolândia, no centro paulistano.

Lá embaixo, uma fila que se formava em frente à porta se desfaz sob protestos. A maioria das pessoas, no entanto, simplesmente se muda para a calçada oposta, à espera das cestas básicas que seriam distribuídas dali a meia hora.

A cena tem se repetido desde que Faria se mudou para o casarão, há três semanas. Ele conta que decidiu sair do apartamento onde mora, na avenida São João, para ajudar a população do entorno da cracolândia numa emergência. “Achei que fosse ficar aqui de plantão por causa da polícia, porque antes da pandemia sempre tinha alguma ação”, diz.

Mas, conta o diretor de 54 anos, encontrou outro problema –fome. Ao receber uma doação de alimentos orgânicos e repassar a comida a famílias da região com a ajuda de uma líder comunitária, ele diz ter percebido a demanda dos moradores por comida durante a pandemia do novo coronavírus.

Faria começou, então, a pedir doações a amigos e conhecidos pelas redes sociais. Até agora, angariou R$ 35 mil em cestas básicas e cadastrou mais de mil famílias, segundo a assessoria da Pessoal do Faroeste.

A maior parte dessas doações vão para as cestas que distribui na porta do sobrado. Antes entregues às segundas, quartas e sextas, das duas às quatro da tarde, há uma semana os beneficiados são escalonados ao longo do dia para evitar aglomerações, que facilitam a transmissão do novo coronavírus.

Uma fração da quantia, porém, é dada diretamente a alguns coletivos que atuam na região, como A Craco Resiste e Tem Sentimento. Eles mesmos então determinam as prioridades das comunidades que atendem.

Faria não está sozinho na sede da companhia Pessoal do Faroeste. Do apartamento, vieram com ele as cadelas Folia e Maia, que a todo tempo ameaçam fugir para a rua.

Além deles, estão Puri Yaguarete e Vênus em Câncer, jovens artistas que faziam residência no teatro antes da pandemia, o fotógrafo Paulo Brazyl, que filma um documentário sobre as doações dos mantimentos, e Luzia Sotero, responsável pela limpeza do teatro que já morava no casarão. Um oitavo membro se juntaria à trupe no dia seguinte.

Em sentido anti-horário: o estilista Vênus em Cancer, o fotógrafo e documentarista Paulo Brazyl, a produtora executiva Dandara Maria, o artista Puri Yaguarete e o diretor teatral Paulo Faria na sede da Cia. Pessoal do Faroeste, na Luz, em São Paulo - Karime Xavier/Folhapress

Fora Sotero, que, aos 70 anos, faz parte do grupo de risco da Covid-19, todos estão a postos para atender as mais de cem pessoas que esperam em frente ao teatro à tarde, munidos de cadernos e álcool em gel. Depois de anunciar –sempre com o megafone– que a polícia acabaria com o cadastramento caso as pessoas não mantivessem um metro de distância uma da outra, três filas enfim se formam.

À direita da porta do teatro, pais e mães acompanhados dos filhos se enfileiram até o fim da rua. À esquerda, estão mulheres idosas –homens são instruídos a voltar dali a dois dias. Do outro lado da rua, os que não pertencem a nenhum dos grupos esperam apoiados nas grades das lojas fechadas.

Rância Lopes Pereira é uma delas. Moradora de uma pensão na rua da esquina, ela conta que este é o terceiro dia em que tenta se inscrever no programa, sem sucesso. Prostituta e transexual, relata que os clientes minguaram desde que os casos iniciais de coronavírus foram relatados e que tem passado por dificuldades.

“Estou me sentindo em cárcere privado, e é meu marido que está na prisão”, diz Girlene Leão Cardoso, também vizinha do teatro, depois de realizar o cadastro. Desempregada, ela afirma que o último bico que fez como cabeleireira e manicure foi há duas semanas. De lá para cá, só tinham sobrado na despensa Nescau e leite, além do arroz e do feijão que daria aos três filhos no almoço, dali a pouco.

As histórias são parecidas com aquelas dos mais de 300 que, segundo calcula Faria, se inscreveram no programa naquele dia.

São pessoas que dizem morar ali perto –muitas delas, no mesmo quarteirão– e que souberam das doações por meio de vizinhos. Com ocupações informais em sua maioria, e sem poder trabalhar por causa das medidas de distanciamento social, eles também não sabiam como conseguir o auxílio emergencial de R$ 600 prometido pelo governo federal.

Questionada, a maior parte delas não sabia que, por trás da porta a que se dirigiam, estava a sede de um grupo de teatro.

A bem da verdade, a companhia Pessoal do Faroeste não é um grupo convencional. A trupe capitaneada por Faria pesquisa a região da Luz desde que se mudou para o bairro, há oito anos, graças ao Programa Municipal de Fomento ao Teatro. As peças que encenam têm a ver com o passado daquelas ruas e, de um jeito mais amplo, com a história do país.

Também vêm daquela época as oficinas de arte realizadas com a comunidade local, em especial com os usuários de crack.

Agora, porém, Faria se descola das práticas de arte-terapia para investir no projeto de distribuição de cestas básicas, batizado FomeZeroLuz. O plano é que ele continue depois do período de quarentena e arrecade R$ 4,8 milhões em um ano.

Enquanto isso, a Pessoal do Faroeste enfrenta os próprios problemas financeiros –eles sofrem uma ação de despejo por não pagarem o equivalente a R$ 130 mil em aluguéis de um dos dois prédios que mantêm, segundo Faria. (O diretor afirma que o proprietário do segundo imóvel, um edifício interligado ao sobrado, aceita o que a companhia tem para pagá-lo.)

Questionado se centrar tantos esforços no projeto FomeZeroLuz não é deixar a arte de lado, Faria responde que toda a experiência de agora alimenta a companhia. "Usamos o teatro como ferramenta social. Essas informações vão criando um trabalho. Não está desvinculado", diz.

Erramos: o texto foi alterado

Por erro da equipe de comunicação da Cia. Pessoal do Faroeste, uma versão anterior deste texto informava incorretamente que, até agora, foram arrecadados R$ 600 mil em doações. Na realidade, foram arrecadados R$ 35.000. O texto foi corrigido.

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