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Governos devem reconhecer coronavírus como trauma coletivo, diz psicanalista

Papel dos líderes diante de crises humanitárias foi discutido a partir de episódio de 'The Crown'

São Paulo

Em 1966, chuvas fortes provocaram o colapso de uma mina de carvão em Aberfan, uma cidade operária no País de Gales. A lama proveniente dos rejeitos da mina inundou a região, matando 144 pessoas —em sua maioria, crianças que estudavam em uma escola nos arredores.

O acidente gerou uma comoção nacional na sociedade britânica, que exigiu ações do poder público e da família real. Para o psicanalista Bernardo Tanis, catástrofes como a de Aberfan —ou a de Mariana, ou a de Brumadinho, ou a da crise mundial gerada pelo novo coronavírus— devem ser entendidas, pelas autoridades, como trauma coletivo para serem reparadas adequadamente no inconsciente coletivo.

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Cena de 'Aberfan', episódio da terceira temporada de 'The Crown' - Des Willie/Netflix/Divulgação

“São acontecimentos que afetam a vida das pessoas diretamente, com intensidade de tal tamanho que desorganizam a subjetividade, o modo como vivemos, como pensamos, como sentimos o tempo”, afirmou Tanis. “É como se suspendesse a noção de continuidade da vida: parece que tudo congela ou explode em inúmeros fragmentos.”

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A análise de Tanis foi feita em um debate sobre “Aberfan”, episódio da série “The Crown” que dramatiza a semana seguinte à tragédia galesa. “Aberfan” foi discutido a distância na edição de abril do Ciclo de Cinema e Psicanálise, evento promovido pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a SBPSP, pela Folha e pelo MIS. O vídeo do debate está disponível no YouTube.

Para Tanis, as autoridades encarnam figuras análogas aos pais de uma criança no modo como lidam com os traumas. Assim como uma criança tem a sua autonomia afetiva e sua capacidade de pensar no futuro prejudicada quando os pais desconsideram um trauma pelo qual ela passou, a população de um país se sente desamparada quando seu líder falha em reconhecer a gravidade de uma crise humanitária e a ruptura que ela provoca no tecido da realidade.

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“O líder que não dá conta disso não pode oferecer um futuro”, afirmou. “Ele precisa demonstrar empatia, mas também dar respostas concretas.”

Em “Aberfan”, a demora da rainha Elizabeth em esboçar comoção a põe numa saia justa perante a opinião pública. Ela viaja à cidade quase uma semana após o acidente e finge limpar uma lágrima ao sair de um encontro com pais e familiares das crianças mortas.

A série sugere que ela sentiu remorso pela inação. Desde o ocorrido, Aberfan se tornou a cidade que ela mais visitou no Reino Unido.

Jaime Spitzcovsky, colunista de política internacional da Folha, que participou do debate, ressaltou que a dificuldade em liderar sempre perseguiu a rainha e que ela tentou, historicamente, se desvencilhar disso.

Como exemplo recente, ele citou o pronunciamento extraordinário que ela transmitiu aos britânicos no início do mês, no qual reconhecia a gravidade da situação provocada pelo coronavírus, agradecia aos profissionais do sistema público de saúde e pedia união ao povo. Foi apenas a quinta vez em 68 anos de reinado que Elizabeth entrou em rede nacional para se posicionar sobre determinada conjuntura.

“Precisamos dramaticamente de lideranças em momentos como o de Aberfan e como o atual”, disse Spitzcovsky. “Os efeitos políticos da responsabilização correta das autoridades significam que temos instituições funcionando, justiça sendo feita e 'accountability' [responsabilidade institucional], o que é fundamental em uma sociedade democrática.”

Na psicanálise, a negação dos fatos —recurso empregado frequentemente por líderes autoritários— se chama “desmentida”, disse Bernardo Tanis. Já o ódio e o ressentimento, afetos igualmente frequentes nesse tipo de discurso, impedem a superação de traumas coletivos porque também funcionam como formas de negação.

“O luto só começa após o reconhecimento da situação. Significa que é possível seguir adiante, reconhecendo a perda e a dor. Não é possível elaborar o luto enquanto há um apego a essas paixões negativas”, disse Tanis, que preside a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Não é raro que o trauma coletivo seja explorado politicamente. Jaime Spitzcovsky, que já morou na China e na Rússia como correspondente do jornal, afirmou que ambos os países “colecionam gigantescos traumas sociais”. Ele citou como exemplos a Revolução Cultural e o maoísmo repressor, no caso da China, e o czarismo, o stalinismo e a Segunda Guerra Mundial, no caso da Rússia.​

Como o trauma força o sujeito a uma posição de passividade, uma das principais formas de recuperação é se pôr como agente ativo na própria transformação. “Se a sociedade não se reconstrói nem assume a responsabilidade por aquilo que foi provocado, dificilmente o trauma poderá ser superado”, disse Bernardo Tanis.

O próximo debate do ciclo será sobre o filme “O Poço”, disponível na Netflix. Para assistir e participar com perguntas, basta acessar o canal do MIS no YouTube no dia 28 de abril, a partir das 20h.​

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