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Harry Potter, sem ser Cristo, converteu uma geração em leitores

Série de livros de J.K. Rowling sobre o jovem bruxo acaba de ganhar edição de gala

Poucos dias depois do lançamento de “Harry Potter e a Pedra Filosofal” no mercado internacional, em 1997, uma boa alma me aconselhou a ler o livro dizendo que era o tipo de humor e de história de eu iria gostar.

“Ah, que ótimo”, disse. “Passa aqui para eu dar uma olhada.” A primeira frase da capa que chamou minha atenção foi a tarja “de nove a 12 anos”.

Obviamente saí fora. Mas a sábia velhinha amiga forçou a barra com o mesmo ímpeto usado pela madrasta da Branca de Neve ao insistir que a jovem comesse a maçã.

Capa do livro 'Harry Potter e a Pedra Filosofal' - Reprodução

Logo percebi que a fruta não estava envenenada. Fui apresentada a um universo riquíssimo com personagens intensos e bem acabados, todos com histórias pregressas que fazem sentido com o que estão vivendo e com o desenvolvimento da trama. Era evidente o imenso respeito que a autora demonstra pelo seu jovem público, supondo que eles possuem um grau de maturidade capaz de entender um drama de várias camadas, leitura que é raramente apresentada a criaturas de nove aos 12 anos.

Em um mundo que àquela altura (os anos 2000) já era dominado por jogos eletrônicos, os livros de Harry Potter foram responsáveis por transformar uma inteira geração em leitores. E isso só se faz com honestidade e propósito. Ninguém consegue enganar uma criança por sete longos e empenhativos volumes.

Aos poucos, o leitor vai conhecendo personagens e criaturas fantásticas, plantas e poções com características oriundas da mitologia grega, do folclore da Idade Média, da cultura celta e até do universo bíblico.

Como ensina o mitologista e professor Joseph Campbell, que ajudou George Lucas a desenvolver o “mito do herói” em "Guerra nas Estrelas", Harry Potter tem as mesmas características de Luke Skywalker, Buda, Jesus Cristo e todos os outros meninos que se ocupam da solitária missão de salvar o mundo e que, durante a caminhada, acabam encontrando o seu propósito na vida.

Comecei a ler o primeiro livro da série de sete –que acabam de ser relançados em coleção de gala pela editora Rocco para comemorar o aniversário de 20 anos do lançamento de “Harry Potter e a Pedra Filosofal” no Brasil– na versão original, comprada online na Amazon.

E tive a sorte de ler um enquanto o seguinte estava sendo escrito. Você terminava de ler, todos eles acabam em suspense que urge continuação imediata, e ia ter de esperar mais um ano até que J. K. Rowling terminasse o próximo volume.

A angústia da espera coletiva de leitores ansiosos para saber o que iria acontecer na saga acabou criando uma comunidade de “harrypotteiros” ao redor do mundo. Além de trocar mensagens em fóruns da internet para tentar desvendar os mistérios da história, muitos de nós (eu, então com 42 anos, e meus amigos de nove a 12) tentavam pressionar a autora a levar o destino dos personagens para o rumo que desejávamos.

Por exemplo, ninguém que eu conheço se conformou —atenção spoiler— com a Hermione ter ficado com o bola-murcha do Ron Weasley. Onde já se viu?

Existia uma contagem regressiva mundial, sem exagero, esperando pelo lançamento do próximo "Harry Potter" a partir do dia em que ele era anunciado. Todos os livros foram lançados ao redor do planeta simultaneamente. Mesmo dia e mesma hora, sempre à meia noite.

Os lançamentos se davam nas livrarias e acabaram se tornando verdadeiras celebrações com concursos de fantasia, de sósia do Harry e de trivia sobre a história.

Àquela altura, eu já tinha perdido o pudor de gostar de uma série juvenil e passado a ter orgulho de pertencer a uma confraria de pessoas sacadas que conheciam um mundo e uma linguagem que deixava os “trouxas” (não-bruxos) de fora.

A cada lançamento, eu comprava um livro para minha sobrinha de 11 anos e outro para um afilhado de dez, que eram lidos na correria, porque o importante naquela altura era saber o que acontecia antes dos outros pottermaníacos.

A pergunta mais frequente que fazíamos uns para os outros era: “em que página você está?”. Minha pressa de colher as informações sobre o que estava rolando era tão voraz que a fim de ganhar a disputa com, note, duas crianças, eu cheguei ao final do volume cinco sem saber de fato o que tinha se passado no livro.

Posso dizer que vi Harry Potter sair de baixo da escada da casa da tia Petúnia, amadurecer e se tornar um homem.

Quando o conhecemos, ele também tinha 11 anos como minha sobrinha e meu afilhado. E os sete anos que vivemos juntos me credenciam a tia honorária de Harry.

Nas festas de lançamento nas livrarias (infelizmente nenhuma delas sobreviveu para contar a história), assim que os livros eram retirados das caixas lacradas, testemunhei inúmeras vezes crianças correrem para o caixa com seu exemplar e mais um dicionário de inglês em punho, a fim de acompanhar a história no original, uma vez que os livros em português só viriam mais tarde, passado o tempo necessário para a tradução.

No lançamento do quinto volume, “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, a versão original continha 766 páginas, o que causou um problema logístico aos correios de Sua Majestade por ser tão espesso que não cabia nas bocas das tradicionais caixas de correio da Grã-Bretanha.

Cada livro representa um ano escolar de Harry. Na vida real, isso também significou um ano na vida de J. K. Rowling, que escreveu o primeiro livro da série no café The Elephant House, em Edimburgo (hoje um ponto turístico com fila na porta), enquanto era beneficiária de seguro desemprego e tinha uma filha recém-nascida para cuidar depois de se separar do marido.

Surreal acompanhar sua transformação de Cinderela na segunda mulher mais rica da Grã-Bretanha depois da rainha. Mais impressionante ainda ver que daquele livro inicial com a história de um bruxinho de nome comum surgiu um império com parques temáticos, peças de teatro e merchandising infinito, além de filmes de grande sucesso cujos atores principais hoje estão entre os mais reconhecidos do mundo (menos o chatonildo do ruivinho que faz o Ron). Tudo nessa história tem final feliz.

BOX HARRY POTTER (CAPA DURA)

  • Preço R$ 449,90
  • Autor J.K. Rowling
  • Editora Rocco
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