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Mulher que salvou poesias proibidas decorando versos inspira livro de Noemi Jaffe

'O que Ela Sussurra' conta a história de Nadejda, que memorizou a obra de seu marido, censurado pela União Soviética

São Paulo

À frente, estava a história de um homem, o poeta Óssip Mandelstam, autor de uma das obras mais importantes da literatura russa no século 20. Alguém que só não era visto assim pelas autoridades soviéticas de seu tempo.

Em 1933, Mandelstam publicou um livro que já fora atacado pela crítica literária do regime —o realismo soviético começava a surgir e depois se tornaria a doutrina oficial, sob o comando de Andrei Jdanov, ideólogo cultural do partido.

Mas a situação ficou feia mesmo em seguida, quando, numa reunião de amigos, disse em voz alta um poema satirizando Stálin. Algum amigo não era tão amigo assim, o poeta foi denunciado, preso e mandado para o exílio. Anos depois, preso de novo, morreria a caminho de um gulag na Sibéria.

Mas, ao fundo, menos conhecida, havia a história de uma mulher. Nadejda, casada com ele, passaria duas décadas guardando os versos daquele poeta maldito na memória —e, quando o autor foi reabilitado, já nos anos Khrushchev, cuidaria de escrevê-los e publicá-los.

Prédio em que Nadejda Mandelstam vivia, em Moscou
Prédio em que Nadejda Mandelstam vivia, em Moscou - Emil Gataullin/Memorial Society Photo Archive

É ela a personagem que inspira “O que Ela Sussurra”, novo romance de Noemi Jaffe, que só não chega agora às livrarias porque já não há livrarias abertas, mas que já pode ser comprado online.

O título faz referência a uma rede de sussurros formada por mulheres, que dizem em voz alta para si mesmas versos, ensaios, artigos científicos, teorias que, naquele momento, não podem circular —mas precisam sobreviver.

“Ela sussurrou 300 poemas durante 25 anos”, diz Jaffe, que se interessou pela personagem ao ler os dois livros de memórias que Nadejda publicou nos anos 1970. “Ela tinha uma visão histórica, política e artística muito penetrante. Era uma mulher de um espírito muito agudo, que não levava desaforo para casa.”

Assim, o que o romance traz é um retrato da arte sob o totalitarismo, que costuma ter suas regras draconianas sobre o que seria a cultura correta, com frequência com seu verniz mal disfarçado de boas intenções —e, em geral, pregando o bem da coletividade.

Num momento em que o autoritarismo se levanta, é inevitável procurar paralelos com o mundo real em “O que Ela Sussurra”. Contudo, enquanto o que se vê é a ascensão de líderes de direita, Jaffe foi analisar esse cenário na União Soviética.

“Autoritarismo não tem direita nem esquerda. E nesse caso é mais, é totalitarismo. E os totalitarismos são todos iguais. Há um arbítrio que lembra o capricho. Como quando Stálin mandou matar o amigo que disse que ele engordurava as páginas dos livros”, diz Jaffe, lembrando países como a Hungria e a Turquia.

Outro aspecto são os artistas que —por medo, convicção ou arrivismo— são cooptados. Afinal, que diferença faz um poemazinho só para o novo czar? Nadejda, por exemplo, chama Górki de vigarista.

“Não imaginamos que um escritor também possa exercer seu pequeno poder de forma tão autoritária. E Górki era responsável por designar as rações dos escritores. Ele se recusou a dar uma calça para o Mandelstam”, diz Jaffe. “Aqui no Brasil, você vê figuras como a Regina Duarte. Ou o Roberto Alvim, que fez aquele discurso nazista. E há outros artistas.”

O romance de Jaffe poderia ser enquadrado dentro de duas tendências contemporâneas relacionadas entre si, mas que não são necessariamente a mesma. Uma é o resgate de mulheres ofuscadas pela história —às vezes, por um homem. Outra é a literatura de caráter político.

“Tenho essa preferência que nem é intencional de escrever sobre mulheres. Mas essa coisa feminista e política acontece apesar da minha opção, porque estou primeiro interessada na história e na linguagem.”

A escritora acrescenta a importância de se evitar o engajamento panfletário.

“Esse tipo de literatura com causa é quase a antiliteratura. É como se fosse uma linguagem a serviço da causa. E a literatura não pode estar a serviço de nada. É a única linguagem que é livre.”

O que Ela Sussurra

  • Preço R$ 49,90 (192 págs.)
  • Autor Noemi Jaffe
  • Editora Companhia das Letras

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