Descrição de chapéu The New York Times

Para pop stars de 20 e poucos anos, como Dua Lipa, os anos 1990 estão de volta

Entenda por que artistas como Charli XCX e Ariana Grande representam uma retomada da estética Y2K, pré-11 de setembro

Lindsay Zoladz
The New York Times

O vídeo aerodinâmico colorido de “Break My Heart”, de Dua Lipa, parece acontecer num período de tempo indeterminado —ou, quem sabe, apenas no hiperpresente eterno e flutuante dos vídeos de música pop.

Uma pista de dança verde-mar brilha de baixo para cima enquanto a cantora britânica e suas dançarinas se exibem de minissaia e com scrunchies nos cabelos, parecendo figurantes de “As Patricinhas de Beverly Hills” (filme lançado em 1995, o ano em que Dua Lipa nasceu).

O cabelo chanel oxigenado e repartido ao meio de Lipa agora ostenta as presilhas que são sua marca registrada, evocando os tempos de glória da cultura dos shoppings encarnada na Claire’s Accessories.

A própria canção também é uma fusão elegante do presente e de vários passados: o riff elástico da guitarra remete ao sucesso de 1987 do INXS “Need You Tonight”, e o ambiente de dance-pop digitalizado recria não tanto a primeira onda do disco quanto seu revival na virada do milênio encabeçada pelo brilho virtualmente reforçado de Kylie Minogue e do Jamiroquai.

Até o título do disco de Dua Lipa é temporalmente vertiginoso, apropriadamente “Future Nostalgia”.

Alguma coisa nessa frase cristaliza uma estética que vem ganhando força nos últimos 12 meses, mais ou menos, com uma microgeração de bebês dos anos 1990 virando gente grande, alcançando o estrelato musical e começando a controlar as tendências emergentes da música pop.

Artistas como Ariana Grande (nascida em 1993), Normani (1996), Charli XCX (1992), Troye Sivan (1995), Summer Walker (1996) e SZA (1990) começaram de diversas maneiras a recriar ou se inspirar no pop Y2K (do ano 2000) de sua infância, criando canções e vídeos musicais que dão a impressão de que eles estão relembrando e depois reescrevendo suas primeiras memórias musicais.

É claro que a nostalgia dos anos 1990 não constitui novidade. Não é de hoje que a paisagem da cultura pop é carregada de elementos da primeira parte dessa década, como as roupas de estilo athleisure (atlética mais lazer) e de flanela e os sons correspondentes.

Mas o tempo não para, e a mesma coisa ocorre com o ciclo que se repete mais ou menos a cada 20 anos que leva o velho a voltar à moda, tornando-se estilosamente novo. E agora os alegres e quase esquecidos artefatos pop do final dos anos 1990 —boy bands, futurismo irreverente, glitter em quantidades homéricas— estão sendo retomados e renovados pelos astros mais jovens de hoje.

Os mundos da moda e do design chegaram primeiro a essa nostalgia futura. Em 2016, Evan Collins lançou um Tumblr popular chamado Institute for Y2K Aesthetics, descrito por um jornalista como um compêndio de “relógios Baby G, Britney Spears segurando um cachorrinho robô no colo, um Walkman pink cintilante em formato de feijão, mais mochilas infláveis”.

Em julho passado a revista GQ publicou uma reportagem sobre o porquê de “roupas e acessórios Y2K terem de uma hora para outra virado os objetos mais cobiçados do mundo das roupas vintage”. Ousado, obcecado por grifes e frequentemente fixado no futuro, o estilo daquela janela do tempo entre 1995 e 2001 foi, como destacou a escritora Erin Schwartz, fruto de “um misto de empolgação e ansiedade diante da disseminação da tecnologia na virada do milênio”.

A mesma coisa se deu com a música.

A era Y2K coincidiu com a ascensão do pop teen cintilante, idealizado na Suécia e industrialmente eficiente de Britney Spears, ’N Sync e Backstreet Boys, além do R&B futurista do TLC, Destiny’s Child e Aaliyah.

O que unia todos esses sons era a fusão ciborgue do “artificial” e do “real”: o som da guitarra acústica preso sob o brilho digital gelado de “No Scrubs”, do TLC, o refrão martelante do piano que reforçou o digitalmente processado “oh-baby-baby” de Britney Spears (mas que fique claro: embora não fosse uma garota, ela ainda não era um robô).

Naquela época a indústria musical ainda era otimista, despreocupada e tinha dinheiro de sobra —ainda não enfrentara os serviços de streaming nem sentira plenamente os efeitos da partilha de arquivos (o Napster estreou em junho de 1999 e foi fechado em julho de 2001).

Assim, muitos selos topavam apostar em nomes novos com o potencial de virar estrelas ou pagar por vídeos musicais conceituais caros. Para citar “Larger than Life”, a canção que passou mais tempo como número um na parada de vídeos da MTV “TRL”, do início dos anos 2000, tudo era chamativo, tudo era fora de série.

Por isso mesmo foi algo desorientador quando Ariana Grande, em sua apresentação no festival Coachella em 2019, em que ela foi a atração principal, chamou ao palco como seus convidados de surpresa quatro dos cinco integrantes do ’N Sync.

Eles pareciam pequenos, comuns ou talvez apenas simplesmente humanos. A situação se invertera. De repente, aquela que no passado era uma fã jovem e ensandecida agora é uma artista todo-poderosa —“venho ensaiando para este momento minha vida inteira”, Ariana Grande disse à multidão—, enquanto os antes futuristas reis galãs da indústria musical foram reduzidos a simplesmente mais uma banda de revival que deixou saudades. Do pó viemos, ao pó voltamos. Garotos viraram homens.

As variações sobre a estética Y2K vêm sendo cozinhadas há anos fora do mainstream musical pop americano, quer seja no som experimental do coletivo PC Music ou no sucesso crossover global das girl groups e boy bands perfeitamente coreografados do k-pop. Mas, para o ouvinte mediano, o álbum mais recente de Ariana Grande, “Thank U, Next”, de 2019, representou a atualização de mais alto padrão feita até agora do som pop do milênio.

No single irreverente “Break Up With Your Girlfriend, I’m Bored”, Ariana imprimiu seu toque próprio a um refrão da faixa “Makes Me Ill”, de 2000, do ’N Sync, mas com uma agressividade e um palavrão que as rádios pop não estavam preparadas para encarar 20 anos atrás. O sucesso enorme “Thank U, Next” evocou a antigravidade ascendente do pop Y2K, e, no vídeo, Ariana representou as heroínas de alguns dos filmes teens mais amados daquela era.

Justin Timberlake não foi ao reencontro do ’N Sync no Coachella, mas fez um duo dance-pop com a ícone millenial SZA em “The Other Side”, da trilha sonora de “Trolls World Tour”. O vídeo é um espetáculo retrofuturista do início dos anos 2000 filmado num set que parece a câmara a vácuo de uma nave espacial, com SZA trajando lantejoulas prateadas que a fazem cintilar como Britney Spears no vídeo de “Toxic”.

Um mês antes disso, a estrela R&B ascendente Summer Walker lançou o single “Come Thru”, que sampleia o clássico “You Make Me Wanna …”, de 1997, de Usher e traz o próprio Usher como o pretendente de Walker no videoclipe. Galãs mais velhos da era da “TRL” são o acessório mais procurado da temporada.

Nenhum vídeo musical conseguiu reviver o pop da virada do milênio tão bem quanto o clipe de Normani, de 2019, para “Motivation”, em que a vemos rendendo homenagens diretas a Britney Spears, Jennifer Lopez e Beyoncé do início de sua carreira solo —sem falar em vestir um top estampado orgulhosamente com “1996”, o ano de seu nascimento.

Charli XCX e Troye Sivan homenageiam outro ano clássico em “1999”, sua ode aos dias de glória do pop. O vídeo hilário os mostra fazendo mais paródias dessa época que o Blink-182 em “All the Small Things”.

Dois outros artistas que aparecem no LP mais recente de Charli também tiveram inspirações semelhantes. O excelente álbum “Pang”, de 2019, de Caroline Polachek remixou pop facilmente palatável com os sucessos kitsch do adulto contemporâneo da era do milênio, enquanto as irmãs Haim, em seus singles mais recentes, personalizaram a vibe que remete ao final dos anos 1990. O suntuoso “Now I’m in It” possui a distinção de ser a primeira canção de uma delas a atrair comparações com o Savage Garden.

Pode ser surreal processar a nostalgia por eras que parecem ter acabado de acontecer; por tanto tempo “os anos 2000” foram simplesmente o presente. Mas, se a estética é algo que é mais fácil ser visualizada em retrospectiva, o mesmo pode ser dito sobre as datas de validade.

O bug Y2K não nos obrigou a nos isolar em nossos bunkers estocados com comida enlatada —seria preciso esperar 20 anos para que uma pandemia o fizesse—, mas dois eventos imprevistos e totalmente diferentes acabariam por romper a bolha maximalista e tecno-utópica da indústria musical –a ascensão da partilha de arquivos seguida pelo choque sombrio do 11 de setembro de 2001. De repente o futuro deixou de parecer tão iluminado.

Mas a música do momento Y2K permanece um sonho glorioso em tons néon, criado com orçamentos extravagantes, congelado eternamente no momento certo antes de o despertador o ter chamado de volta à realidade.

E, à medida que a internet nos permite revisitar mais e mais facilmente os passados que nos deixaram saudades, o pop do milênio vai continuar a exercer uma atração escapista. Na seção de comentários no YouTube do vídeo de Jennifer Lopez “I’m Real”, de 2001, uma espectadora escreve em tom nostálgico: “Vim para cá à procura do som cintilante do final dos anos 1990, início dos 2000”.

Tradução de Clara Allain

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