Descrição de chapéu Artes Cênicas

Shakespeare e seu maior rival podem ter trabalhado juntos, diz pesquisador

Christopher Marlowe é o autor mais provável de uma das cenas de 'A Megera Domada', do século 16

São Paulo

Uma jovem geniosa, conhecida por afastar os pretendentes que aparecem, é cortejada por um galanteador. Cobiçoso, ele quer amansar a fera para tomar o seu dote.

A trama de “A Megera Domada”, de Shakespeare, é famosa —inspirou, por exemplo, o longa “Dez Coisas que eu Odeio em Você”, clássico adolescente dos anos 1990, e a novela “O Cravo e a Rosa”, exibida pela Globo em 2000.

Mas pode ser que o bardo inglês não seja seu único autor. E que ao menos um trecho da peça tenha sido escrita por seu folclórico antagonista, Christopher Marlowe.

É o que propõe um estudo conduzido por John Nance, pesquisador da Universidade Estadual da Flórida, e um dos editores da coleção “The New Oxford Shakespeare”, da editora da Universidade de Oxford.

Esta não é a primeira vez que a autoria de uma peça de Shakespeare é contestada, ou que uma parte de uma obra sua é atribuída a Marlowe.

Afinal, datam de séculos as primeiras suspeitas de que Shakespeare trabalhou com outros colaboradores. Além disso, há quatro anos a “The New Oxford Shakespeare” decidiu creditar partes de “Henrique 6º” a Marlowe.

Mesmo assim, a adição de “A Megera Domada” à obra do suposto inimigo número um de Shakespeare traria mudanças significativas à forma como Marlowe é visto hoje.

A primeira delas é o fato de que o autor de tragédias como “A Trágica História do Doutor Fausto”, sobre um homem que vende a alma ao Diabo, se aventurou também na comédia romântica —embora Nance ressalte que qualquer um que tenha lido “O Judeu de Malta” consiga notar o senso de humor de Marlowe.

A segunda é que o dramaturgo, morto precocemente aos 29 anos e reconhecido como autor de só sete peças, pode ter seu cânone aumentado consideravelmente a depender do avanço da pesquisa.

Nance explica que o estudo de agora teve como base só a cena inicial do primeiro ato de “A Megera Domada”.

A análise operou por dividir a cena em expressões de duas ou três palavras —“teus desejos”, “ver a bela”, “ama das artes”, no caso da frase que inicia o texto, "Trânio, bem sabes que por teus desejos de ver a bela Pádua, ama das artes". Essas combinações foram então procuradas numa base de dados com todas as peças publicadas entre 1588 e 1594, período em que, concordam os historiadores, a peça foi escrita.

O resultado da pesquisa foi, no mínimo, surpreendente, diz Nance. Só nas primeiras 46 linhas da cena, há 32 expressões que se repetem em trabalhos de Marlowe. Apenas três delas estavam presentes em obras do próprio Shakespeare.

Questionado se esse tipo de arranjo vocabular não é fortuito demais para ser conclusivo, Nance responde que, ao longo das décadas, especialistas em autoria perceberam que o que costuma distinguir os escritores uns dos outros não são expressões exóticas e memoráveis, mas fatores que não têm nada a ver com decisões conscientes.

Além disso, continua, esse mesmo método foi bem-sucedido ao ser usado para identificar trabalhos que não têm a autoria contestada —caso, por exemplo, de outra obra de Shakespeare, “Ricardo 3º”.

Mesmo assim, alerta o professor, ainda é cedo para fazer qualquer declaração radical. “A essa altura, é seguro de dizer que, com base nesses dados, é muito pouco provável que Shakespeare tenha trabalhado sozinho em ‘A Megera Domada’. E mesmo a isso acho que haverá muita resistência.”

Daqui a um ano, no entanto, ele espera ter muito mais novos fatos para discutir. Isso porque, até lá, deve estar pronta uma ferramenta automática de comparação de textos, desenvolvida junto à empresa Inside Data Science.

Além de agilizar a análise, permitindo que uma obra seja testada em um dia em vez de em um ano, a ideia é que o instrumento possa ser usado por qualquer pesquisador na internet.

“Queremos testar todas as teorias já criadas sobre o começo do drama moderno”, afirma Nance.

Uma das mais tresloucadas dessas é a de que Shakespeare e Marlowe foram, na verdade, a mesma pessoa. Nance logo diz que ela não faz sentido historicamente. Mas que, talvez, essa fosse uma maneira de o público expressar uma suspeita de colaboração entre os dois. “É a explicação mais simples.”

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.