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'Fico feliz de ver a força da nossa cultura', diz Antonio Pitanga sobre Cannes

Ator de 'Casa de Antiguidades', contemplado pelo festival francês, acompanha os protestos pela morte de George Floyd

São Paulo

Não foi exatamente uma surpresa ver que “Casa de Antiguidades” estava na seleção oficial do Festival de Cannes deste ano, impedido de acontecer por causa da pandemia de coronavírus. Divulgada na semana passada, a lista confirmou a intenção do filme brasileiro de dar as caras na Croisette —mesmo que, agora, isso já não seja exatamente possível.

Primeiro trabalho de João Paulo Miranda na direção de um longa-metragem —ele já havia sido premiado na Riviera Francesa pelo curta “A Moça que Dançou com o Diabo”, de 2016—, o filme agora faz parte de um seleto grupo de 56 produções que podem ostentar o selo de aprovação de Cannes, mesmo que, neste ano, não haja disputa pela Palma de Ouro.

“Casa de Antiguidades” traz o veterano Antonio Pitanga no papel de um operário transferido para uma cidadezinha de colonização austríaca do sul do Brasil. Imerso naquela comunidade de cabelos loiros e olhos claros, o personagem vai ficando deslocado, enquanto o racismo ecoa nas paredes da fábrica onde trabalha.

Segundo o ator, não havia melhor momento para a divulgação da seleção de Cannes. O prestígio de aparecer na lista, para ele, é uma resposta à indiferença do atual governo em relação à cultura.

“Eu fico muito honrado com esse selo e, com ele, entendo que toda essa minha vida profissional, na área artística, teve um resultado, mesmo num país desfigurado, em que a cultura não faz parte do projeto de governo”, diz Pitanga. “Fico feliz de ver a força que tem a nossa cultura, que extrapola o Brasil e vai além-mar, para um dos festivais mais importantes do mundo.”

Às vésperas de completar 81 anos, no dia 13 de junho, Pitanga recebeu a notícia sobre “Casa de Antiguidades” como um presente de aniversário adiantado. “E olha que eu já fui Palma de Ouro”, brinca ele, em referência à sua participação em “O Pagador de Promessas”, que abocanhou a premiação máxima do Festival de Cannes em 1962.

O ator põe o novo filme no mesmo patamar de alguns de seus trabalhos mais marcantes, até mesmo por tratar de um assunto tão caro a ele, como o racismo. “Para mim esse é um novo ‘Barravento’”, diz em alusão ao primeiro longa de Glauber Rocha, que estrelou também em 1962. “É um filme tão humano, realista, atual. Parece até um discurso que eu faria na década de 1960, contra o racismo, a perseguição, a invisibilidade. Mas estamos em pleno 2020.”

Ele celebra as mudanças que têm observado, no entanto, principalmente nos últimos dias, com o movimento Black Lives Matter e seus protestos que têm engolido um mundo já febril por causa da Covid-19. É especialmente digna de destaque a união que o caso gerou, com “negros, brancos e pardos saindo às ruas, gritando por justiça”.

Pitanga assistiu com consternação o vídeo em que um policial americano branco sufoca George Floyd, um homem negro, com o joelho. “Essa morte, a maneira como ocorreu e a tragédia que representa, é uma revolução, ela tem que causar uma mudança —e eu quero acreditar que vai.”

Por trás das manifestações de horror e indignação que sucederam o assassinato de Floyd, Pitanga sublinha que estão séculos de invisibilização da população negra, tanto nos Estados Unidos, quanto no Brasil e no resto do mundo.

“Eu sempre digo que a conta não fecha. Na minha época eram poucos os negros em evidência na cultura, e hoje o percentual ainda está aquém. Então eu acho que ter o Lázaro [Ramos], a Camila [Pitanga, sua filha], a Taís [Araújo], a Juliana [Alves], o Fabrício [Boliveira] é muito significativo, porque cada um acaba valendo por mil. Em ‘Barravento’ eu já falava isso, cada negro que se liberta, liberta um milhão. É o que estamos vendo hoje, e precisamos manter essa sede de democracia, de justiça.”

Pitanga é como um amálgama de cultura e política. Na tarde em que conversou com o repórter, se mostrava ansioso com a votação da Lei Aldir Blanc, que destina R$ 3 bilhões para socorrer a cultura em meio à crise, aprovada pelo Senado naquele mesmo dia e de coautoria da deputada Benedita da Silva, sua mulher.

Mas o avanço do projeto é um breve respiro num contexto político que o assusta. “Nós estamos no caminho da ditadura. Eu já vivi isso, nós já vimos esse filme. As coisas caminham para isso”, afirma.

Se você põe um negro na Fundação Palmares e ele é pior do que um capataz, dizendo coisas que até mesmo alguns brancos se envergonhariam de dizer, tudo pode acontecer”, diz sobre a nomeação de Sérgio Camargo para a instituição. “E essa nomeação vem de um presidente homofóbico, racista, que não gosta de mulher, de negro, de gay.”

Mas o ator tem esperança de que, com as gerações mais jovens, que “emanam coisas positivas”, o cenário que se desenha no Brasil vai tomar outro rumo, assim como as injustiças dirigidas a grupos considerados minorias.

Em meio às caminhadas diárias, aos livros que tem devorado e aos olhos atentos para o que acontece no Brasil e no mundo, Pitanga tem encontrado tempo, no atual isolamento, para preparar seu próximo projeto.

Assim que as restrições sociais forem afrouxadas, ele pretende começar a gravar “Malês”, filme sobre a revolta de escravos ocorrida no Brasil Império, que ele dirige e estrela. No elenco, é acompanhado dos filhos, Camila e Rocco Pitanga.

“Precisa ser um épico, porque um levante como esse precisa ser filmado com toda a força e a verdade dos acontecimentos. Pouco se conhece dessa história, que dá um grito de liberdade para o povo negro em 1835. E agora voltamos a ele, em 2020."

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