Com percussão e chutes, Fundo de Quintal OFC ganha fama na internet

Grupo faz sucesso com performances gravadas no interior do Maranhão

São Paulo

É em cima de uma única moto, de modelo popular, que os sete integrantes do grupo Fundo de Quintal OFC se deslocam da área habitada de Centro dos Rodrigues para o descampado onde gravam os vídeos de sua página no Instagram.

Um de cada vez, eles fazem o percurso na garupa da moto.

Situado no município de Santo Antônio dos Lopes, no Maranhão, o povoado tem cerca de 900 moradores —sem dúvida, os músicos e humoristas da internet são os mais famosos entre eles.

Mesmo com tanta visibilidade (criada em 2019, a página tem mais de 1 milhão de seguidores), as filmagens continuam sem qualquer glamour, nos mesmos moldes do início da carreira.

Imagem do grupo Fundo de Quintal, do Maranhão
Imagem do grupo Fundo de Quintal, do Maranhão - Reprodução/Twitter

O visual mambembe, aliás, é o grande diferencial do grupo. Os rapazes instalam a câmera em frente ao cenário, que varia entre o antigo campinho de futebol e o paredão de barro de onde às vezes despencam de propósito.

O câmera João Victor Paiva Ferreira, que mora num povoado vizinho, aperta o "Rec" e a magia começa.

Com idades entre 14 e 25 anos, os integrantes assumem seus postos na percussão, coreografia ou vocais, e dão vida às músicas pedidas pelos seguidores. Ao longo de uma hora e meia, gravam versões, jogam areia para cima, trombam uns com os outros. É essa bagunça que faz sucesso.

"Buscamos trazer músicas da atualidade, que estão rolando nas rádios e em outras plataformas. Também músicas antigas que marcaram época", conta Jaimerson Santos Sousa, do Fundo de Quintal OFC.

Seu amigo de infância Francisco Rhuan Miranda Santos é considerado o fundador. Acostumados a jogar bola na rua diariamente, numa manhã os meninos receberam via ​WhatsApp um convite para, em vez da pelada, aproveitarem a tarde para bater lata.

Uma vez reunidos, Denilson de Araúdo Sousa começou a dançar o "piseiro", coreografia da moda à época em Centro dos Rodrigues. "Ele dançando isso e a gente batendo lata. Aí o Rhuan chamou a gente para fazer a banda. Vambora", lembra Santos Sousa.

Um amigo gravou em vídeo a primeira performance, que circulou pelos aplicativos de mensagem da vizinhança. A repercussão foi boa, e a banda entendeu que havia ali um caminho. Criou uma página no Instagram e, já no terceiro dia de existência, resolveu inovar ainda mais.

Era a hora de recrutar os "mascotinhos". É assim que Santos Sousa nomeia "os pequenos" que se juntaram ao grupo. "Vimos que não daria muito certo só com a gente, os grandões. Tudo que envolve criança fica mais engraçado."

Chegaram ainda Riquelme Santos Lima, hoje vocalista, e Eulisses Nascimento Silva. Matusalém Santos Sousa entrou a partir do sexto vídeo.

O grupo —que conta ainda com Victor Santos Mesquita— tem como principal inspiração a banda Mamonas Assassinas, sucesso nos anos 1990.

"Acho que fazemos sucesso porque somos espontâneos, fazemos 'loucuras', damos chutes e voadoras. Sem contar que é um conteúdo que nenhum outro grupo se atreve a fazer igual", diz Santos Sousa.

Ele lembra que a banda já recebeu elogios de DJs como Pedro Sampaio, Henrique e Psirico, que, segundo Santos Sousa, "pediu a Deus que abençoasse" o Fundo de Quintal OFC. Proteção, aliás, nunca é demais. "Já aconteceu de irmos gravar e, ao chegar, os instrumentos estavam danificados."

Perrengues, no entanto, não assustam os garotos, que gravam duas vezes por semana debaixo do sol quente. "Antigamente davam risada, diziam que éramos bestas, que tudo aquilo não tinha futuro, que estávamos só passando vergonha", lembra.

"Hoje, passaram a nos apoiar e a divulgar nossos vídeos. O pessoal fala com mais respeito, não zoa mais", diz Santos Sousa. Apesar da mudança no modo como são vistos, ele não considera que o grupo tenha ficado famoso.

"Tiram fotos conosco nas ruas e falam que nos amam, mas, mesmo assim, nos consideramos apenas conhecidos", conclui.

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