Descrição de chapéu

Detratores de 'Lindinhas' atiram sem ver que estão do mesmo lado do filme

Mais uma vez conservadores se entregam à fúria das redes ao atacar longa da Netflix que questiona modelos do feminino

Nem toda menina tem a sorte de ter um avô como o de Olive, de "Pequena Miss Sunshine". O velho fanfarrão vivido por Alan Arkin no filme de 2006 estimula a neta a se divertir e a dar uma banana a concursos de beleza em que crianças usam quilos de maquiagem e laquê para parecerem mulheres em miniatura.

Concursos de miss são só um dos diversos modelos de feminilidade, muitos deles problemáticos porque marcados pelo machismo, que o nosso mundo criou e para os quais meninos e meninas olham na difícil transição para a vida adulta que é a puberdade.

A polêmica da semana nas redes sociais gira em torno do filme francês "Lindinhas". Conservadores nos Estados Unidos esperneiam e acusam a Netflix, que distribui o filme, de apologia da pedofilia e da sexualização de crianças, pedindo que a plataforma tire o filme do ar.

menina negra de casaco azul parada com cara de assustada
Fathia Youssouf, que vive Amy, em cena do filme 'Lindinhas' - Divulgação

E como por aqui andamos a remedar o conservadorismo americano, a ministra Damares Alves, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, já prometeu logo se juntar à luta da liga extraodinária da censura e dos cancelamentos.

Mas, como na maior parte das polêmicas de Twitter, toques e mais toques de teclado são gastos em fios de discussão em torno de capas de livros nunca abertos. Neste caso, a partir de um pôster e uma curta sinopse.

O filme da franco-senegalesa Maïmouna Doucouré não exalta nem romantiza —palavra da moda— a sensualização precoce de meninas. Muito menos a pedofilia, assunto que só tangencia, em dois momentos, justamente em que as personagens meninas se mostram conscientes do que o crime significa.

Chega a ser irônico, depois das reações ao filme, descobrir, assistindo a "Lindinhas", ser ele mesmo conservador. O longa vencedor do prêmio de direção em Sundance tece uma crítica à permissividade europeia e ataca a erotização infantil, mas com um olhar sincero de quem lida com adultos, crianças e famílias do jeito que são, e não como gostaríamos, cada um do seu jeito, que fossem.

Cegados pela sede de censura, os escandalosos das redes não viram que estão do mesmo lado de seu alvo —ao menos no que diz respeito à erotização precoce.

Amy, uma menina de 11 anos de uma família senegalesa muçulmana, chega a um bairro novo e a uma nova escola nas franjas de Paris, e fica fascinada com um grupo de quatro garotas que se vestem com cores chamativas, saias curtas e tops. Em casa, as mulheres de sua família usam longas e largas batas.

As meninas ensaiam para um concurso de dança e, desesperada por fazer parte da patota, Amy passa a ensaiar secretamente os passos de uma coreografia não muito diferente daquela que jovens mundo afora aprendem com o k-pop, espécie de misto de jazz e hip-hop. Ela é aceita pelo grupo e se aproxima das colegas, sobretudo de Angelica, que mora no mesmo condomínio e é filha de imigrantes latinos.

Na internet, por meio de um celular que furta de seu primo, Amy descobre alguns dos muitos vídeos de música que nos rodeiam nos quais mulheres mexem as bundas cobertas por minúsculos shorts e fios-dentais. Ela decide então levar os passos para a dança das amigas.

Ao mesmo tempo, Amy acompanha o sofrimento da mãe, que espera o retorno do marido à França com uma segunda mulher para celebrar, em grande festa, a união.

O anseio por ser aceita, por fazer parte de um mundo bastante diferente do de sua família, e por emular uma feminilidade que surge como modelo num momento em que, após a menarca, é decretada como mulher, leva Amy a um ato extremo. Num revés, ela então é execrada por suas amigas por ter ido longe demais.

Ao final, o frenesi do rito de passagem se acalma, e, dividida entre um modelo familiar que torna sua mãe infeliz e um modelo que reduz a mulher a seu sexo, Amy escolhe um terceiro caminho.

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