Descrição de chapéu

Filme cresce ao lembrar negritude de Caymmi e manter rigor estético

Longa 'Dorivando Saravá' se perde, no entanto, em balangandãs e confusa sobreposição de vozes

São Paulo

Dorivando Saravá, o Preto que Virou Mar

  • Quando 10/9 até 13/9 (Plataforma In-Edit Brasil); 15/9 até 16/9 (Plataforma Sesc Digital); 18/9 até 20/9 (Plataforma In-Edit Brasil)
  • Preço R$ 3 (Plataforma In-Edit Brasil); grátis (Plataforma Sesc Digital)
  • Direção Henrique Dantas

Quando Dorival Caymmi morreu, em agosto de 2008, o jornal A Tarde, de Salvador, deu o título “Adeus ao Buda Nagô”.

Era uma referência à música de Gilberto Gil, que celebra um de seus mestres. “Como príncipe, principiou/ a nova idade de ouro da canção/ mas um dia Xangô/ deu-lhe a iluminação.” Versos depois, Gil canta “Dorival é um monge chinês/ nascido na Roma negra, Salvador”.

São esses temas, transformados em poesia por Gil, que o documentário “Dorivando Saravá, o Preto que Virou Mar” se propõe a abordar –a presença da cultura afro-brasileira na obra de Caymmi; a espiritualidade fortemente ligada aos fenômenos da natureza a conduzir suas canções; a condição de homem negro nascido e criado nessa Roma dos trópicos, negra e racista.

Um das atrações do festival In-Edit Brasil, o filme dirigido por Henrique Dantas vai muito bem quando, de fato, se concentra nessa temática da negritude e se atém a um certo rigor estético.

São emocionantes as interpretações de “Dora” por Mateus Aleluia e “Sargaço Mar”, com Marina de La Riva. Mas talvez o grande momento musical seja “A Jangada Voltou Só” na voz e no violão de Lucas Santtana.

Nenhum dos cantores rouba, no entanto, o protagonismo do mar, que aparece em imagens captadas com sensibilidade pela equipe de Dantas. Não é um mar qualquer, é a natureza capaz de levar à transcendência.

Numa gravação antiga, Caymmi fala do candomblé como uma religião que estimula as pessoas a “cultuar a criação, não o criador”. Ao longo do documentário, o registro das ondas quebrando na praia e as imagens antigas dos pescadores sublinham a ideia de espiritualidade do compositor.

Responsável pelos depoimentos mais comoventes do filme, Gil lembra como a morte representa o fim e o recomeço nas músicas de Caymmi, que foi filho de santo de Mãe Menininha do Gantois.

Pena que “Dorivando” se esqueça em diversos momentos de um dos legados do Buda Nagô, a busca pela arte em sua essência, o que implica despojamento e rejeição de adereços --ou balangandãs, como diria Caymmi.

Um exemplo –o diretor convida os participantes do filme a conjugar o verbo “dorivar”, uma brincadeira tola que não leva a lugar algum.

Outro –também pede que eles leiam cartas escritas por Caymmi para amigos. Os textos são tocantes ou divertidos, mas perdem parte desse lirismo com a confusa sobreposição de vozes.

​O foco se esvai com efeitos, assim como acontece ao abordar questões políticas, assunto secundário na vida e na obra de Caymmi, como ele mesmo admitia.

“Dorivando” é um bom filme quando mais contido, mas se perde em penduricalhos estéticos e temáticos. Faltou atenção aos versos de uma música composta há mais de 70 anos. “Não pinte esse rosto que eu gosto/ que eu gosto e que é só meu/ Marina, você já é bonita/ com o que Deus lhe deu.”

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