Autor que defendia até o racismo em livros infantis se viu no espelho e voltou atrás

Perry Nodelman revisita manifesto em defesa da tolerância à intolerância após evolução do debate sobre preconceito

menina com bichinho no nariz

Ilustração de Eloar Guazzelli para 'Reinações de Narizinho', de Monteiro Lobato, lançado pela Globinho Divulgação

São Paulo

O pesquisador Perry Nodelman fez, há quase três décadas, um manifesto famoso condenando qualquer tipo de censura a livros infantis. Num ensaio ardoroso, chamado “Somos Todos Censores”, ele argumentava contra o veto a obras que abordassem qualquer assunto, fosse ele nocivo ou não.

Sua posição era simples. “Não há nada que uma pessoa deveria ser impedida de dizer ou escrever —nada, não importa quão ofensivo, tacanho, estúpido ou perigoso eu possa pessoalmente achar isso. Nem qualquer coisa sexista ou racista. Nem representações neonazistas da história. Nem pornografia. Nada.”

Segundo ele, permitir que tudo fosse dito também permitia que críticos pudessem apontar, com igual liberdade, como esses posicionamentos eram ridículos ou danosos. A ideia, em resumo, era ser tolerante com a intolerância.

E, sim, isso valia para as obras infantis. “Quando se trata de crianças, rejeitamos livros com base na ideia de que eles podem ensinar a elas algo que nós mesmos já sabemos, mas que não desejamos que elas saibam de jeito algum”, escreveu o professor emérito de literatura da Universidade de Winnipeg, no Canadá.

“Manter as crianças afastadas de ideias e valores de que não gostamos é praticamente impossível”, continuava o artigo. “Seria mais lógico protegê-las sem tentar suprimir materiais potencialmente perigosos, mas as ajudando a aprender a importante habilidade de serem menos crédulas.”

Hoje, passados 28 anos, Nodelman mudou de ideia.

perry nodelman com crianças
O professor Perry Nodelman, especialista em literatura infantil - Divulgação

“Quando escrevi aquele ensaio, estava concentrado nas coisas que éramos livres para fazer, dizer e acessar”, afirma, em entrevista. “E percebi que nós não pensamos o suficiente naquilo de que, idealmente, queremos nos livrar.”

Agora, ele publica uma reedição do ensaio antigo, sem cortes ou mudanças, acoplada a um novo texto, feito depois dessa releitura e chamado “Ainda Somos Todos Censores, e Isso Inclui Perry Nodelman”.

É um exercício de autocrítica que não quer esquecer o passado nem se desfazer das posições libertárias, mas tecer um comentário mais nuançado —ou, como reconhece o próprio autor, contraditório.

“Acho que deveríamos ter mais consciência. É da responsabilidade humana pensar com cuidado no efeito que aquilo que você diz tem nos outros”, diz. “Eu com frequência vejo as pessoas usando a ideia de liberdade de expressão, contra a censura, como justificativa para dizer coisas danosas a outras pessoas.”

Nos últimos anos, movimentos feministas e antirracistas, por exemplo, têm sido firmes em deixar claro o tipo de discurso que não é aceitável para eles. E Nodelman tem se debruçado sobre pesquisas que lidam com diversidade.

“Um dos pontos básicos do meu ensaio era a favor de crianças lerem toda e qualquer coisa. Fiquei mais humilde ao notar que é fácil para mim falar isso, porque os estereótipos não são dirigidos a pessoas como eu”, afirma. “Quando reli aquele artigo, percebi que estava tomando como certo que o modo como eu era se aplicava a todo mundo.”

Há um exemplo bem ilustrativo. No ensaio de 1992, ele trazia como argumento uma antiga aluna que tinha uma grande afeição, nutrida na infância, por um livro de forte teor racista chamado “10 Little Negroes”, protagonizado pelo casal Ebony e Choc’late Sam.

Depois de crescer e notar o preconceito presente no livro, ela ficou envergonhada. E, quando teve filhos, passou a esconder a obra numa prateleira alta, fora de alcance.

Nodelman comentou, então, que essa atitude mostrava que a aluna não tinha se tornado racista. Ou seja, “ela própria, quando pequena, não havia sido vítima do crime que, imaginava, o livro pudesse cometer em relação a outras pessoas”.

O professor de agora faz uma reflexão diferente. “O que não me ocorreu pensar enquanto dizia isso foi na criança que compartilhasse a cor da pele de Choc’late Sam.”

“Cheguei à conclusão de que a consciência do mal pode não ser necessariamente sempre algo positivo”, reconhece, no ensaio. “Pode prejudicar a autoestima das crianças ou, quem sabe, fazer com que se sintam impotentes diante de forças que escapam ao seu controle ou ao controle de seus cuidadores.”

O que ele sugere fazer então com obras canônicas da literatura infantil que contenham racismo semelhante, como os tão discutidos trabalhos de Monteiro Lobato?

Nodelman diz que não tem objeção a distribuir esses livros a crianças, desde que se traga junto a conscientização sobre o que está contido ali. Mas acaba ponderando. “Por que essa necessidade toda de ler esses livros? Não estão escritos em pedra, não é um dos mandamentos de Deus que nós os leiamos. Há 20 bilhões de livros infantis por aí. Por que todo esse estardalhaço?”

Ele também reagiu à atual situação do Brasil, que está sob um governo conservador com preocupantes impulsos censores sobre a arte, entre eles a reação da ministra Damares Alves clamando pelo veto ao filme “Lindinhas”, da Netflix, e a iniciativa do Ministério da Educação para recontar histórias infantis sob orientação de um pupilo de Olavo de Carvalho.

As manifestações de grupos organizados de esquerda contra discursos que consideram errados não desembocaria num outro tipo de censura? “Há uma questão de poder aí”, diz Nodelman. “Se há um governo socialista dizendo para você não consumir algo, é diferente de grupos gritando que não aprovam aquilo.”

O professor afirma que a autocensura de autores diante de temas delicados é aceitável se incentivar uma nova reflexão, e não só fizer com que eles calem a boca. “Se o resultado da gritaria for alguém não seguindo em frente com um projeto em que acredita, é causa para ficar alarmado.”

Mas aponta que o holofote deveria se voltar às editoras. As grandes escolhem o que publicar, diz ele, com base naquilo que sabem que vai vender. “Todos os tipos de camadas interessantes de discurso foram desaparecendo. Se você quer saber onde fica a censura mais dura, siga o dinheiro.”

Somos Mesmo Todos Censores?

  • Preço R$ 45 (96 págs.)
  • Autor Perry Nodelman
  • Editora Selo Emília e Solisluna Editora
  • Tradução Lenice Bueno

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