Harry Styles põe a mão no bolso e participa de projeto bilionário em Manchester

Astro do One Direction é investidor e garoto-propaganda de arena de eventos de R$ 2,5 bi a ser inaugurada em 2023

Ludovic Hunter-Tilney
Financial Times

Duas semanas atrás, começou a circular nas redes sociais a sombria frase “ele cortou o cabelo”. E posso confirmar que ela procede –Harry Styles, membro do grupo One Direction transformado em astro solo, de fato cortou o cabelo.

As madeixas cacheadas que ele costumava ostentar se foram, substituídas pelo penteado que ele teve de adotar para um filme que está rodando em Los Angeles. Mas o astro não conversou comigo via Zoom para discutir cortes de cabelo traumáticos. Em lugar disso, o assunto é o que vem sendo definido como sua primeira incursão no mundo dos negócios.

Styles é a face pública de uma nova arena para espetáculos que será construída em Manchester e se tornará um dos maiores espaços cobertos para shows do Reino Unido quando for inaugurada, em 2023.

O projeto está sendo tocado pelo Oak View Group, uma companhia de entretenimento dos Estados Unidos, e tem custo previsto de £ 350 milhões, cerca de R$ 2,5 bilhões. A capacidade será de 23,5 mil espectadores. Por causa de uma parceria entre a empresa americana e The Co-operative Group, de Manchester, o espaço levará o nome Co-op Live.

“Para mim parece quase que como fechar o círculo, participar disso”, disse Styles, falando de seu trailer no set de filmagem em Los Angeles, um ambiente em que predomina o aço inoxidável. Ele cresceu perto de Manchester, numa aldeia de Cheshire, o condado vizinho. “Meu primeiro emprego foi na Co-op, eu entregava jornais para eles”, recorda o cantor.

Era a Manchester que ele ia para assistir a shows com os amigos. Foi lá também que ele participou de audições para o show de talento televisivo The X Factor, em 2010, quando ele tinha 16 anos, cantando uma versão de “Isn’t She Lovely”, de Stevie Wonder, sem acompanhamento.

Isso o levou a se tornar parte da boy band One Direction. Transcendendo suas origens num programa de calouros, Styles e seus colegas de banda se tornaram um fenômeno mundial. Foram a primeira banda na história das paradas de sucessos dos Estados Unidos a ter seus quatro primeiros discos estreando em primeiro lugar, superando até os Beatles.

Com seu cabelo recém-cortado, uma jaqueta verde com um bordado grande, uma camiseta onde se viam palmeiras azuis e um crucifixo pendendo do pescoço, Styles satisfazia as expectativas quanto a um galã adolescente mesmo numa conversa via Zoom, uma mídia que não costuma ser lisonjeira em termos de aparência. Mas enquanto outros ex-integrantes de boy bands enfrentam dificuldades para estabelecer carreiras solo, Styles fez muito sucesso trabalhando sozinho.

Lançou sua carreira solo em 2016, e já lançou dois álbuns bem produzidos e de grande sucesso de vendas. Em 2017, estreou como ator em “Dunkirk”, filme de guerra de Christopher Nolan. No momento está filmando “Don’t Worry Darling”, um thriller de terror dirigido por Olivia Wilde.

Sua diversificação para além do mundo evanescente do pop adolescente segue em frente com seu envolvimento no projeto Co-op Live.

Isso o liga a dois grandes nomes do setor de entretenimento dos Estados Unidos, Tim Leiweke, ex-presidente executivo da AEG, uma empresa organizadora de shows, e Irving Azoff, antigo presidente-executivo da Ticketmaster, que dirigem o Oak View Group, responsável pela construção da arena.

Jeffrey Azoff, filho de Irving, é o empresário de Styles. “Esse é um grande projeto e seria muito mais assustador se eu estivesse trabalhando com pessoas que não conheço”, disse o cantor.

Ele tem participação na empreitada também como investidor. “Não comecei na música porque queria ser empresário”, ele disse. “Comecei na música porque amo música. Isso sempre virá em primeiro lugar para mim. Mas quando uma oportunidade como essa aparece, para mim a sensação é de que o que importa é o que posso contribuir como músico, e também como fã.”

A construção da arena deve começar em novembro. Styles tem um papel definido vagamente no projeto, como consultor de design e decoração.

“Obviamente não sou especialista em arquitetura, em termos de construir uma arena”, ele disse. “Acho que o peso do meu envolvimento está na ideia daquilo que um artista deseja encontrar nos bastidores. As pessoas funcionam de maneiras diferentes depois de um show. Alguns preferem um espaço tranquilo, e outros querem um lugar para o qual possam convidar todos os amigos”.

Arenas têm uma reputação de frieza, um espaço sem alma e intercambiável que pode levar um astro a esquecer o nome da cidade em que está (como aconteceu com Bruce Springsteen, que pediu animação ao público dizendo “façam festa, Pittsburgh” durante um show que fez em Cleveland em 2016).

Mesmo com só 26 anos, Styles é um veterano nesses espaços cavernosos, a que ele se refere como “salas”.

“Há muitas salas frias em que você termina tocando”, ele diz. “Mas você certamente se lembra mais daquelas em que o som é bom, e daquelas em que é possível criar alguma sensação de que você está em casa.”

“Como artista, é raro que essas grandes salas, se você está fazendo turnês de muitos meses de duração, o façam sentir confortável”, ele acrescentou.

A nova arena de Manchester está sendo projetada de forma a permitir mais visibilidade entre artistas e público.

“Essa é usualmente a primeira coisa de que você sente falta ao tocar em grandes salas”, ele diz. “Há um ponto em que você faz shows nos quais pode ver os brancos dos olhos das pessoas, e isso cria uma conexão com a plateia. É fácil perder essa conexão quando você não consegue ver o rosto das pessoas.”

A primeira vez que Styles cantou em público foi no refeitório de sua escola em Cheshire, num concurso musical. Ele se recorda do sentimento de empolgação.

“Você está tão acostumado a ficar sentado na sala de aula, com o olhar voltado aos professores. E de repente todo mundo está lá embaixo, e os professores é que estão olhando para você”.

Ele sente a mesma sensação ao tocar para dezenas de milhares de pessoas. “A escala evidentemente é diferente, mas o sentimento é bem parecido”, ele diz.

“Creio que seja a mesma química. É uma coisa que parece tão pouco natural. É algo que não costuma acontecer daquele jeito, não é daquele jeito que a vida funciona. É um tipo de adrenalina que você gostaria de poder compartilhar com as pessoas que conhece. É uma coisa bonita, e um momento realmente especial”.

A pandemia do coronavírus representa uma ameaça à existência dos espaços usados para shows.

“O momento é estranho para falar de música ao vivo, porque neste instante ela não existe”, disse Styles. Ele insiste em que o Co-op Live foi concebido para ampliar a infraestrutura de Manchester para shows, e não para a sobrepujar. (A cidade já conta com a AO Arena, um dos maiores espaços cobertos para espetáculos do Reino Unido.)

“O propósito não é de maneira alguma monopolizar a cidade em termos de música”, ele diz. “O propósito é levar mais música a Manchester, levar mais artistas até lá, usar aquele edifício como lembrete de que Manchester é uma grande cidade para a música, sem tentar eliminar outros espaços.”

Depois de sua inauguração, prevista para 2023, o Co-Op poderá receber seu célebre investidor no palco. (“Se eles me quiserem. Tenho de conversar com alguém sobre isso”.) Enquanto isso, Styles deve iniciar uma turnê mundial, em fevereiro do ano que vem, ainda que a pandemia tenha colocado esses planos em questão.

“É uma daquelas coisas que precisaremos esperar para ver”, ele diz. “Não creio que ninguém vá querer realizar uma turnê antes que seja seguro. Chegará a hora em que vamos voltar a dançar, mas até lá acho que o importante é que protejamos uns aos outros e que façamos tudo que pudermos para ficar seguros. E quando tudo estiver pronto e as pessoas assim quiserem, aí vamos tocar”.

Tradução de Paulo Migliacci

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