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Cinema

'Era Uma Vez Um Sonho', com Glenn Close e Amy Adams, é raio-x dos EUA

Filme da Netflix é o mais ambicioso dos 40 anos de carreira de Ron Howard

Era Uma Vez Um Sonho

  • Onde Netflix
  • Elenco Glenn Close, Amy Adams, Gabriel Basso
  • Produção EUA, 2020
  • Direção Ron Howard

Ao longo de quatro décadas, a carreira de Ron Howard como diretor de cinema consistiu, essencialmente, em preservar sua carreira.

Seus filmes podem ser simpáticos –“Splash – Uma Sereia em Minha Vida”, “Cocoon”–, apelar ao heroísmo –“Apollo 13”–, ao comercialismo –“O Código Da Vinci”–, à busca de prestígio –“Uma Mente Brilhante”. Tal diversidade também pode ser entendida como impessoalidade, digamos, mas não como incompetência.

Com “Era Uma Vez Um Sonho”, Howard —discípulo secundário, mas não vergonhoso da escola de Roger Corman— realiza seu filme mais ambicioso, em termos de análise da sociedade americana e, talvez, aquele que mais busca compreender os rumos recentes do país.

São dois os eixos que movem o filme –o sonho americano (já impresso no título brasileiro) e a família. O primeiro diz respeito ao mito do “país das oportunidades”, onde qualquer um pode chegar e fazer fortuna (ou se realizar, ou ser feliz —dá no mesmo). O segundo, a um lugar de refúgio e permanência, que nos sustenta enquanto o mundo exterior agride.

Glenn Close e Amy Adams em cena de "Era Uma Vez um Sonho" (2020), de Ron Howard
Glenn Close e Amy Adams em cena de "Era Uma Vez um Sonho" (2020), de Ron Howard - Divulgação

Eles podem ser complementares (veja-se a máfia, instituição de defesa dos imigrantes, mas também lugar de oportunidade —embora criminal, o que é outra história). No caso do jovem J. D. a família tem papéis contraditórios.

Ela é apoio (em suas brigas de adolescência), lugar de conforto e orientação (sobretudo a avó —Glenn Close, de novo ótima), mas também um peso difícil de carregar (a mãe drogada —Amy Adams, muito bem). Em resumo, a família como instituição contradiz o princípio —tão profundo quanto o “sonho”— do individualismo americano.

É nessa teia que se vê preso J. D. Jovem pobre, tenta conseguir um estágio que permita a ele concluir os estudos de advocacia em Yale. Mas, às vésperas de uma entrevista decisiva, tem de atender pela enésima vez a mãe, Bev, ex-enfermeira que voltou a ter uma recaída nas drogas.

Bev está em crise a mais de dez horas de viagem de automóvel do local da entrevista que definirá o estágio (e portanto o futuro) do rapaz. O rapaz não tem alternativa a não ser socorrer a mãe, já que o hospital está dando alta a ela de forma evidentemente prematura.

“Era uma Vez um Sonho” toca aqui em duas questões quentes da atualidade –o alto custo do ensino universitário nos Estados Unidos (pais fazem poupanças por décadas para que filhos possam estudar) e seu sistema de saúde (caro e excludente).

Ron Howard não deixa dúvidas –a avó e a mãe de J. D. são provas vivas de que o valor de um homem depende de muitas coisas além dele. A meritocracia, digamos assim, é coisa um tanto relativa e põe em questão o sonho americano. O fracasso tem outras razões além da preguiça, da burrice, da falta de fé em Deus etc.

Assim como demonstra seu apego à família lançando mão de seus cartões de crédito para custear os caros tratamentos da mãe, J. D. se apoia, por sua vez, na namorada de origem indiana.

Promove, assim, o encontro dos dois polos –o passado com sua herança de fibra e fracassos, e o futuro, marcado pela esperança de triunfo da profissão e sorte no amor. Conseguirá conciliar essas forças opostas, a família e o indivíduo?

Se J. D. conseguirá é o que vereemos. Já Howard encontra uma maneira de conciliar duas continuidades, a da família como lugar de solidariedade e continuidade e a do sonho como ideal cuja permanência constitui —malgrado as adversidades— uma essência da sociedade americana.

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