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'O Gambito da Rainha' erra tradução, mas desmistifica o xadrez

Sucesso na Netflix, série mexe as peças com precisão ao contar história de enxadrista prodígio

O Gambito da Rainha

  • Onde Na Netflix
  • Elenco Anya Taylor-Joy, Chloe Pirrie, Bill Cam
  • Produção EUA, 2020
  • Criação Scott Frank e Allan Scott

Uma abertura ruim no xadrez pode ser fatal. Fazer um movimento errado logo no início da partida é o suficiente para gerar uma descoordenação de todas as peças e abrir espaços para que o adversário consiga atacar e ficar mais próximo do xeque-mate.

É mais ou menos o que acontece com "O Gambito da Rainha". A série da Netflix que mergulha no universo do xadrez faz inesperado sucesso e aparece entre as mais vistas da plataforma, mas já escorrega feio na largada —ao menos no Brasil, num problema grave de tradução do original, "The Queen's Gambit".

A palavra estranha, "gambito", é uma jogada em que a pessoa sacrifica um de seus peões na intenção de ter algum tipo de vantagem mais adiante. Mas o erro não está aí —está no "rainha", uma peça que não existe no xadrez em português. Por um motivo prático e bem racional, o nome da peça no jogo é dama.

Isso porque os movimentos das peças no tabuleiro costumam ser anotados pelos jogadores, o que é incansavelmente mostrado na série.

As linhas horizontais recebem números de um a oito. Já as verticais, letras de "A" a "H". Assim, se o cavalo avança para a casa C3, por exemplo, anotam "Cc3". Se a dama vai para a casa H5, escrevem "Dh5". Mas, caso ela se chamasse rainha em português, a anotação ficaria "Rh5". E, então, surgiria a pergunta –afinal, foi a rainha ou o rei que se moveu? Seria complicado saber.

É claro que o título "O Gambito da Rainha" soa mais forte, agressivo e empoderado se comparado a um pacato "O Gambito da Dama". Mas, para uma série que faz uma ode a esse esporte, não deixa de ser uma tradução infeliz.

Mas as partidas de xadrez não são feitas só de aberturas. O desenvolvimento das peças nos lances seguintes é também fundamental. E, nessa parte, a produção da Netflix consegue algo raro —ela trata o xadrez com profundo respeito e, ao mesmo tempo, desmistifica a fama de cabeçudo que o jogo tem há tempos.

O ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, um dos consultores de 'O Gambito da Rainha'
O ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, um dos consultores de 'O Gambito da Rainha' - Goran Kovacic/Xinhua

Em sete episódios, a trama conta a história de Elizabeth Harmon, uma órfã que aprende a jogar xadrez com o zelador do orfanato e logo se torna a grande sensação dos tabuleiros nos Estados Unidos, única pessoa que pode fazer frente à supremacia dos enxadristas soviéticos nos anos 1960.

Do ponto de vista narrativo, a produção não traz nada de novo e segue à risca as regras dos roteiros de Hollywood e das demandas atuais. E, talvez por isso, funciona bem.

Para começar, a protagonista é uma mulher mergulhada num ambiente masculino e até machista. Seguindo as normas da jornada do herói, Beth sai de sua zona de conforto ao perder a mãe e empreende uma aventura da qual voltará transformada. Tabuleiros e peças são seus objetos mágicos. O zelador, a mãe adotiva, companheiras de orfanato e outros jogadores servem de ajudantes da heroína.

Os conflitos hollywoodianos também estão lá. A protagonista tem problemas com álcool e abuso de remédios, que misteriosamente mais ajudam do que atrapalham seus desempenhos nas partidas. Há ainda um quê de inadequação social, numa tentativa de emular a aproximação da genialidade com a loucura.

Embora um pouco clichês, esses pontos não transformam a série em algo artificial, muito por causa da boa atuação de Anya Taylor-Joy, que se segura como uma grande mestre no papel principal.

O enxadrista americano Bobby Fischer
O enxadrista americano Bobby Fischer, considerado um dos maiores de todos os tempos e cuja biografia tem semelhanças com a personagem principal de 'O Gambito da Rainha' - Ivan Milutinovic - set.1992/Reuters

Com isso, o xadrez vai perdendo sua aura de passatempo de nerds ou de hobby excêntrico e extremamente difícil para se tornar pop, moderno e descolado na série. Mas sem desrespeitar o esporte.

Na tela, tabuleiros aparecem montados de maneira correta, peças se mexem com precisão e, tirando uma adaptação ou outra para dar maior fluidez à narrativa, o que se vê são verdadeiros jogos de xadrez. Tanto que muitas das partidas realmente existiram e podem até ser jogadas. No YouTube, uma série de canais analisam os principais embates dos episódios.

Para evitar escorregadas, "O Gambito da Rainha" teve, entre seus consultores, Garry Kasparov, ex-campeão mundial e um dos maiores enxadristas de todos os tempos. Aliás, a personagem Elizabeth Harmon tem traços que lembram outro gênio, o americano Bobby Fischer. Morto em 2008, ele revolucionou o xadrez e foi peça fundamental nas disputas entre Estados Unidos e União Soviética na guerra fria dos tabuleiros.

Fischer, inclusive, pregava que jogadores não deveriam ficar decorando jogadas de abertura, mas se preocupar com a criatividade —arma que poderia reverter um início de jogo ruim.

"O Gambito da Rainha" segue essa toada. Começa de um jeito desajeitado, mas desenvolve suas peças com precisão. Não à toa vem colecionando xeques-mates em espectadores ao redor do mundo.

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