Descrição de chapéu The New York Times

Cortina de Chagall para espetáculo de Mozart ganhou casa nova com teto bem alto

Obra de tamanho gigantesco precisou ser leiloada e rendeu bons lucros a instituição Bonhams, em Nova York

James Barron
The New York Times

Procura-se: amante da arte endinheirado e com teto alto —teto muito, muito alto. Um teto de 19,8 m de altura, ou seja, seis metros mais alto que o letreiro de Hollywood, oito metros mais alto que um poste de telefone e 14 m mais alto que uma girafa adulta.

O objeto em questão é uma cortina de palco —um tumulto de figuras pintadas sobre um fundo vermelho flamejante, com largura de pouco mais de 13 m—, pintada por Marc Chagall para uma produção de “A Flauta Mágica”, de Mozart, pelo Metropolitan Opera de Nova York, na década de 1960, mais ou menos no mesmo período em que o artista criou os famosos murais que flanqueiam o saguão da sala de ópera, no Lincoln Center. A cortina foi colocada à venda em 17 de novembro pela casa de leilão Bonhams, em Nova York, e vendida por US$ 990 mil (R$ 5,3 milhões).

Cortina vermelha grande repleta de detalhes coloridos
A cortina de Marc Chagall para uma produção da "The Magic Flute", de Mozart - Divulgação Bonhams Auction House

O tamanho gigantesco da cortina é o motivo para que ela tenha sido vendida. Ela era grande demais para o local onde o proprietário desejava pendurá-la, num museu na Armênia, uma pirâmide com cascatas artificiais e altura que se aproxima da do Empire State Building. E por isso a cortina foi dobrada, recolocada em seu caixote construído sob medida e despachada de volta para Nova York.
“É necessário um espaço especial”, disse Molly Ott Ambler, vice-presidente sênior da Bonhams. “É um objeto único a considerar.”

Mas ao contrário de outros leilões —um quadro, um diamante ou um minúsculo selo— em que o item é carregado para o palco pouco antes de as ofertas começarem, a cortina permaneceu em seu caixote. Ela é tão grande que a Bonhams teve que alugar um estúdio com a metade do tamanho de um campo de futebol para fotografá-la.

“É uma imagem que só poderia vir de Chagall, com múltiplas figuras e uma fantasia rodopiando no ar”, disse Ott Ambler, apontando que Chagall usou mais pigmentos de ouro e prata no tecido de linho da cortina do que nos cenários para balés que criou quando era mais jovem. “Ele é realmente bom em incorporar formas geométricas, em dar ao sol e à lua uma qualidade vibrante. Consegue criar relações dinâmicas entre as seções da cortina, e isso conta uma história”.

O Met vendeu a cortina, vista no último ato da produção, em 2007, dois anos antes de oferecer os murais do saguão como caução de um empréstimo obtido depois da crise financeira.

A cortina, realizada em colaboração com o cenógrafo russo Volodia Odinkov, era parte do único cenário para ópera que Chagall criou. Artistas por muito tempo expandiram seus portfólios ao colaborar com coreógrafos e diretores. A mais famosa dessas parcerias talvez tenha acontecido entre Alfred Hitchcock e Salvador Dalí, que pintou um pano de fundo para o suspense “Quando Fala Um Coração”, de1945.

Artistas como Eugene Berman e John Piper criaram cenários para óperas —Berman criou cinco cenários para o Met entre 1951 e 1963—, e os rascunhos e desenhos finais de Maurice Sendak para seus cenários de ópera e balé foram tema de uma exposição no Morgan Library & Museum no ano passado.

O escultor Henry Moore desenhou cenários para a ópera “Don Giovanni”, de Mozart, em 1967, que incluíam formas abstratas feitas de espuma de borracha. E Julie Taymor, que ganhou um Tony como diretora de “O Rei Leão”, criou um novo cenário para “A Flauta Mágica” no Met em 2004, para substituir a cenografia anterior criada pelo pintor David Hockney.

Chagall havia criado cenários inventivos para balés na década de 1940, mas não se aventurou na ópera até que sir Rudolf Bing, diretor do Met, o persuadiu a trabalhar em uma nova produção da ópera final de Mozart, uma fantasia sobre um príncipe cuja missão é resgatar a filha sequestrada da Rainha da Noite.
Bing, que era amigo de Chagall, havia tentado convencer o artista a desenhar o cenário de um balé, na década de 1950. Chagall recusou o projeto, assim como recusou criar cenários para a ópera “Nabucco”, de Verdi, que seria encenada na temporada de 1960. Mas não conseguiu dizer não ao convite para criar o cenário de “A Flauta Mágica”. Era uma de suas composições favoritas.

O artista, que já tinha passado dos 70 anos, havia acabado de desvelar seus novos afrescos no teto da Ópera de Paris, na verdade um conjunto de painéis posicionados sobre a pintura circular original de Jules Eugène Lenepveu. Chagall criou um redemoinho de figuras e símbolos que serviam como tributo a “Carmen”, de Bizet, “Tristão e Isolda”, de Wagner, e “Boris Godunov”, de Mussorgsky, entre outros —e a “A Flauta Mágica”.

E em seguida ele mergulhou na nova produção do Met. Sua neta, Bella Meyer, descreveu a cortina como “toda uma celebração” do compositor. “Para ele foi uma aventura extraordinária poder ingressar no mundo de Mozart e levá-lo ao palco”, ela declarou em entrevista.

“A Flauta Mágica” tinha sido planejada para a primeira sessão do Met no Lincoln Center. Chagall “desenhava e pintava da manhã à noite”, Bing escreveu em suas memórias, “A Knigh at the Opera” (um cavaleiro na ópera), de 1981, e participava de reuniões com o diretor de produção Günther Rennert.

Nem todo mundo se entusiasmou com o resultado. John Canaday, o crítico de arte do jornal americano The New York Times na época, disse que Chagall parecia "ter pensado na tarefa como uma exposição individual”, e Harold Schonberg, o crítico de música do jornal, se queixou de que a audiência da noite de estreia não estava ouvindo a música e sim “tentando contar o número de figuras nos panos de fundo”.

Mas “A Flauta Mágica” com os cenários de Chagall ficou no repertório do Met por 24 anos. Mesmo depois que a produção foi removida da lista, os cenários eram removidos da armazenagem periodicamente, para decorar jantares de gala para os patronos do Met.

lustre com desenhos em torno em tons de azul, amarelo e vermelho
O teto da Ópera Garnier, em Paris, desenhado por Marc Chagall - Jptinoco/Adobe Stock

E então a companhia de ópera vendeu os cenários a Gerard Cafesjian, colecionador que fez fortuna com sua participação em uma editora no centro-oeste dos Estados Unidos. Ott Ambler disse que Cafesjian, que morreu em 2013, “amava trabalhos coloridos e de impacto poderoso”. (O espólio dele é dono da cortina, agora.) Ele também era passional com relação às suas raízes na Armênia, e ao que se sabe doou mais de US$ 50 milhões (R$ 267, 4 milhões) para o museu na capital armênia, Yerevan.

“Acho que ele viu a cortina como uma peça central potencialmente forte para o museu”, disse Ott Ambler sobre a cortina. “Acho que ele a considerava como uma celebração comovente da vida e das imagens em que você pensa ao pensar em Chagall, o grande pássaro azul em primeiro plano ou os símbolos de música que Chagall não se cansava de retratar. Chagall estava sempre em busca de alegria, e a música tinha grande parte nisso.”

Tradução de Paulo Migliacci

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