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Despedida dos robôs do Daft Punk mostra que a música entrou em pane

Dupla que reinventou o som eletrônico, no calor da pista de dança, sai de cena numa era em que tudo virou comercial

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O Daft Punk nem sempre foi uma dupla de robôs. A transformação em máquina teria se dado por volta de 2000. Humanos de seus alter-egos, Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo gostam de dizer que foram vítimas de um bug —um curto-circuito em seu estúdio os teria relegado à forma robótica.

A outra história diz que eles assumiram as personas antes do lançamento de “Discovery”, o segundo álbum. Seria mais uma maneira de subverter a indústria. Se queriam identidades, lá eram anônimos.

O grupo anunciou o fim de suas atividades nesta semana num vídeo no YouTube, exibindo outra vez a maestria com que pivotaram a indústria ao longo de quase 30 anos. Em quatro discos, criaram faixas atemporais, carregadas do espírito dos tempos. Uma obra que botou a França no mapa da música de pista e antecipou tendências, dos megapalcos para DJs à força esteta de poucos artistas do pop atual.

Daft Punk
Guy Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter, do Daft Punk - Chad Batka/The New York Times

O mundo era diferente nos anos 1990. A música eletrônica começava sua escalada global. A ponte entre as cidades de Detroit e Chicago e a Inglaterra criava, pela primeira vez, um mercado de novos gêneros. Porém, ao contrário de países como Jamaica, Japão e Alemanha, a contribuição da França se restringia às herméticas obras de artistas como Jean Michel Jarre.

O intercâmbio entre Paris e Londres favoreceu o nascimento de uma geração de DJs franceses longe da academia e mais perto das festas. Esses artistas revisitam a primeira onda do house americano com a verve das raves britânicas, mas sem o mesmo frenesi. A essa leva se dá o nome french touch, e o Daft Punk surge entre nomes como Air, Laurent Garnier, Stardust e Cassius.

A dupla já desponta no primeiro disco. “Homework” tem linhas de acid house, frases e arpejos de sequenciadores e o efeito que se tornaria uma marca em músicas como “Around the World” —a faixa começa abafada e se revela aos poucos, como se o ouvinte estivesse adentrando um clube subterrâneo ou subindo as estreitas escadas que levam a um apartamento em festa.

Como robôs, nos anos 2000, o grupo enveredou para outros lados ainda com a assinatura da estreia. Se o debut foi uma coleção de faixas pra pista, “Discovery” revigora a música eletrônica sem melindres em soar kitsch e popular.

Anos antes do Auto-Tune se popularizar no trap, o Daft Punk usa a ferramenta como objeto estético na irretocável “One More Time”. Um solo glam-rock de guitarra confronta as batidas em “Aerodynamic” e a atmosfera disco envolve “Voyager” —o pai de Bangalter, aliás, foi um dos principais produtores franceses da disco music, nos anos 1970.

O duo foi criando aos poucos seu universo com referências que unem os matizes do pôr do sol na Califórnia, animes dos anos 80 e ficção científica.

Diretores como Michel Gondry e Spike Jonze se juntaram em clipes como “Da Funk” e “Around the World”. Quando a ideia de álbum visual ainda nem existia, o duo lançou a animação “Interestella 5555” com a Toei Animation, produtora de”Dragon Ball”.

“Human After All”, de 2005, adensa a trama robótica e por isso não repete o sucesso dos antecessores. Mais do que só fazer dançar, o duo reitera o duelo homem-máquina em faixas como “Technologic” e “Robot Rock”. É a partir dessas músicas que o Daft Punk entrega o ao vivo “Alive” em 2007. No ano anterior, a dupla se tornara o primeiro espetáculo de música eletrônica a liderar o Coachella com uma pirâmide e pirotecnia até então pouco vista entre DJs.

O último álbum de estúdio, “Random Access Memories” de 2013, fez uma volta à pista de dança com que sonhava o duo nos anos 1990. Personagens que haviam inspirado Homem-Christo e Bangalter, os produtores Giorgio Moroder e o guitarrista Nile Rodgers participam do disco. Faixas como “Get Lucky” antecipam a nostalgia repaginada que artistas como The Weekend e Dua Lipa repetem hoje.

A ausência quase absoluta dos palcos desde então e o anúncio do fim da dupla são recados do Daft Punk para uma era de música comodificada e artistas de redes sociais —se querem excesso, aqui está o rarefeito. O nome Daft Punk, surgido de uma crítica pouco elogiosa aos músicos, continua fazendo sentido na lógica binária do duo.

Tem um “je ne sais quoi” punk em se anonimizar como robô para transformar a música das máquinas em algo mais humano.

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