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Cinema Globo de Ouro

Globo de Ouro não será levado a sério enquanto não refletir a imprensa

Representatividade da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood entre os que cobrem o cinema é mínima

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Há cinco anos, ao apresentar a cerimônia de entrega do Globo de Ouro, o comediante Ricky Gervais disparou “como se as estrelas do cinema fossem perder a chance de vencer um Globo de Ouro, principalmente se seus estúdios já tiverem pagado pelo prêmio”.

Três anos depois, o mesmo Gervais anunciou seu retorno à premiação dizendo que a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, a HFPA, responsável pelos indicados e vencedores, teria “feito uma oferta que não pude recusar”.

As piadas com a corrupção da HFPA e a comparação da organização à máfia ítalo-americana de “O Poderoso Chefão” são exatamente isso, piadas. Mas a reportagem minuciosa do jornal Los Angeles Times sobre as contas da entidade e suas práticas obscuras traz à tona o velho ditado que diz “toda brincadeira possui um fundo de verdade”.

Segundo a reportagem, alguns membros da associação aceitam pagamentos em troca de convites para a cerimônia e suas festas e outros ganham uma porcentagem para fazer um meio de campo entre estrelas e organizadores de eventos. E até a credibilidade do prêmio, que nunca foi muito alta, foi posta em xeque.

O jornal americano revelou que 30 integrantes da HFPA viajaram luxuosamente para Paris com tudo pago para uma entrevista coletiva sobre a série “Emily em Paris” –indicada, para a surpresa dos especialistas, para dois troféus no Globo de Ouro, o de melhor série de comédia ou musical e o de melhor atriz de comédia ou musical, para Lily Collins. E nenhum convidado foi com a obrigação de escrever sobre a visita às filmagens.

A história demonstra o maior calcanhar de Aquiles de uma entidade que tem “imprensa” no nome. Entre os cerca de 90 membros, poucos trabalham como jornalistas em Hollywood ou publicam em veículos relevantes em seus países de origem —na verdade, existem americanos representando Alemanha, México e China, holandês representando Cuba e assim por diante.

No quadro de votantes, há Lisa Lu, atriz chinesa que interpreta a avó em “Podres de Ricos”; Margaret Gardiner, sul-africana que ganhou o Miss Universo; Yola Czaderska-Hayek, uma socialite autointitulada “a primeira-dama polonesa de Hollywood”; Alexander Nevsky, um fisicultor russo que virou ator e produtor; Noel de Souza, ator que fez participação como Gandhi em episódio de “Star Trek: Voyager”.

“É difícil levar o Globo de Ouro a sério quando você vê quem vota nele”, disse o crítico de TV australiano Dan Barrett à ABC local. Isso não vai mudar enquanto a HFPA não refletir quem realmente trabalha como imprensa em Hollywood e aumentar seu quadro.

Da maneira que existe hoje, fica difícil defender uma organização sem fins lucrativos que fechou outubro com um caixa de US$ 50 milhões, ou cerca de R$ 276 milhões, segundo documentos obtidos pelo Los Angeles Times. Isso basicamente vem do contrato com a rede de TV NBC, que transmite o Globo de Ouro.

“A maioria dos votantes é essencialmente empregada indireta da NBC”, escreveu o autor Mark Harris, de “Five Came Back”. “A HFPA existe simplesmente porque a NBC paga para ela existir. A emissora deveria largar o evento ou insistir que a organização fosse reconstruída do zero.”

Escrevo sobre Hollywood há mais de 20 anos, oito deles diretamente em Los Angeles. A representatividade da HFPA entre aqueles que realmente cobrem a indústria cinematográfica é mínima. Para se tornar elegível para fazer parte da associação, os membros precisam ter seis artigos publicados, mas, como mostrou a reportagem do Los Angeles Times, os textos podem vir do site do próprio Globo de Ouro, que paga os próprios membros pelos artigos que os tornarão elegíveis.

Isso passa a impressão de que a HFPA não pensa em mudanças que visam à ampliação porque é muito mais fácil controlar um pequeno grupo de votantes para atingir seus objetivos –ao contrário da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que entrega o Oscar, com quase 10 mil membros.

Na sua autobiografia, Philip Berk, ex-presidente da entidade, reconheceu que o “protecionismo foi realmente levado ao extremo”. Com a pandemia, a situação ficou ainda mais grave. Muitos jornalistas, sem acesso a entrevistas presenciais, simplesmente foram deixados de lado pelos estúdios.

Vários voltaram aos seus países de origem. Alguns passaram a se dedicar a outros trabalhos. Muitos reclamam que não conseguem ingressar na HFPA, mesmo com credenciais para isso –nunca participei de nenhum processo oficial de seleção para a organização, apesar de ter apoiado o movimento de colegas jornalistas na ampliação do quadro de membros, no ano passado.

Hollywood, por outro lado, permanece calada. Só a diretora Ava DuVernay comentou a ausência de integrantes negros na organização. “As pessoas estão agindo como se isso não fosse amplamente conhecido? Há anos?”, escreveu ela no Twitter. Nada sobre as acusações de corrupção.

Neste domingo, durante a cerimônia, as apresentadoras Amy Poehler e Tina Fey dificilmente conseguirão superar a comparação de Ricky Gervais, em 2012. “O Globo de Ouro é para o Oscar o que Kim Kardashian é para Kate Middleton –mais histérico, inútil e bêbado. E mais facilmente comprável, dizem. Nada foi provado.”

Globo de Ouro

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