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Sharon Stone revela abuso sexual que sofreu nas mãos do avô em novo livro-bomba

Atriz conta que inicialmente sua mãe não estava confortável com a publicação da história, narrada em volume de memórias

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Dave Itzkoff
The New York Times

Durante uma internação hospitalar longa há 20 anos, quando Sharon Stone estava sendo tratada depois de um derrame e de uma hemorragia que causou sangramento em seu cérebro, espinha e cabeça, ela conta ter recebido uma visita de sua avó, Lela, que estava morta há 30 anos.

“É aí que a coisa fica esquisita”, conta Stone em seu novo livro de memórias, “The Beauty of Living Twice”, lançado pela editora Knopf. Lela apareceu para fazer um alerta. “O que quer que você faça, não mexa o pescoço,”

É uma das diversas cenas de sua vida que Stone, de 63 anos, estrela de filmes como “Instinto Selvagem”, “Cassino” e “Rápida e Mortal”, relata com franqueza e humor sardônico.

A despeito de sua longa carreira em Hollywood, na qual interpretou muitas “femmes fatales” e mulheres misteriosas —mesmo em séries recentes de televisão como “Mosaic” e “Ratched”—, suas memórias são um relato mais episódico de sua vida e de sua criação, especialmente de sua infância na modesta Meadville, no estado americano da Pensilvânia, e sobre a família, conturbada mas indelével, em que ela cresceu.

Como Stone explicou em uma entrevista via vídeo em fevereiro, “acredito que o ponto do meu livro seja o de que ele narra uma vida bastante comum". "Não acho que minha vida seja excepcional, exceto pelo fato de que me tornei estrela de cinema. O livro poderia ter sido escrito por muitas outras pessoas que cresceram em cidades pequenas.”

É uma história que Stone em muitos momentos conta em detalhes impiedosos, a começar pela experiência de quase morte que a inspirou a escrever o livro. “Depois de toda aquela dificuldade, aquele peso sobre meu pescoço, eu podia respirar de novo”, ela disse. “Podia falar de novo. E decidi que respiraria e falaria de um jeito diferente.”

Ela discorreu sobre a criação de “The Beauty of Living Twice”, sobre as experiências pessoais que registra, e sobre como escrever o livro a encorajou a se reavaliar.

Por que você decidiu escrever suas memórias?

Eu já tinha tentado conseguir uma editora que publicasse meus contos, e todo mundo me dizia que o público não se interessa por ler contos. Acho que o que eles queriam realmente dizer, com isso, é que só minha vida privada atrairia interesse suficiente. Mas não era algo que eu desejasse fazer, naquele momento.

E aí meu amigo Kael [J. Kael Weston, autor de “The Mirror Test”] recomendou que o editor dele na Knopf, Tim O’Connell, desse uma olhada nos meus textos.

Eu tinha escrito uma carta à agência literária Janklow & Nesbit, para tentar obter um agente. E a Knopf e outra editora começaram a me oferecer contratos. Imaginei que aprenderia mais com Sonny Mehta [o reverenciado editor da Knopf, que morreu em 2019] e com Tim. Sonny leu meus textos e disse que achava que eu me tornaria sua nova contadora de histórias irlandesa.

Você revela muitas informações intensamente pessoais no livro, sobre sua família e sua infância, entre as quais detalhes do abuso sexual que você e sua irmã, Kelly, sofreram de seu avô. Você discutiu sobre o assunto com os sobreviventes de sua família antes de publicar o livro?

Minha irmã e eu tomamos a decisão juntas. Conversamos com minha mãe e no começo ela foi muito estoica e me escreveu uma carta para dizer o quanto aquela informação era desconcertante. Aquela atitude pia, horrorizada, de “não quero falar sobre esse assunto”.

Mas minha irmã um dia bebeu demais, durante uma visita em que minha mãe estava hospedada com ela, e abriu o jogo sobre o acontecido. E minha mãe teve uma revelação.

Quando terminei de escrever o livro, eu o li para minha mãe, durante três dias. Eu estava com gripe, na época, estava de cama, e ela se deitou comigo, quando terminei de ler, e em seguida gravei uma hora e meia dela falando a respeito do que tinha ouvido. E depois reescrevi muita coisa. Por isso o livro é dedicado a ela.


Você está apreensiva quanto às pessoas descobrirem essas coisas a seu respeito quando o livro for publicado?

Se você prefere não revelar coisa alguma, as pessoas inventam tudo, de qualquer jeito. Passei toda a minha adulta vendo outras pessoas inventarem uma vida para mim. Eu tive problemas de estômago, enquanto esperava pelo lançamento do livro.

Agora vou sair mundo afora no momento mais ameaçador, perturbador, psicologicamente mais agressivo que o planeta enfrenta desde a década de 1960, e terei de ser vulnerável e aberta. Compreendo que eu vá ser recebida com certa dose de desconfiança. Mas não quero me preparar para isso. Não quero ser defensiva. Quero me preparar para estar aberta e presente. Porque é esse o propósito de minha jornada.

Há algumas cenas violentas no livro uma lesão no pescoço que você sofreu em um acidente de cavalgada, a morte de um tio que tropeçou, caiu e morreu congelado, mas você encontra maneiras secas e bem-humoradas de narrar. De onde vem isso?

Minha personalidade tem um lado de humor negro. Realmente acredito que precisamos encarar a vida com certa graça, e o humor ajuda isso a acontecer. Afinal, tive muitas oportunidades de interpretar a vilã, em minha carreira.

Quando eu estava estudando, meu professor de interpretação me mandou fazer algumas aulas com um sujeito que ensinava os atores a explorar seu lado sombrio. E fiquei realmente surpresa ao me contemplar daquela maneira —cheguei à conclusão de que era só aquilo?

Eu não era assim tão ruim, então. Não tenho medo do meu lado sombrio. Quando você vem a descobrir a a extensão e a profundidade de seu lado sombrio... [O celular dela começa a tocar, com a melodia de “Happy”, de Pharrell Williams. Ela desliga sem atender e, depois de rir um pouco, retoma a resposta].

As pessoas sempre me procuravam para aquele tipo de papel porque sou boa neles, e acho que todo mundo acredita que eu goste de fazer. Na verdade não gosto e não quero mais fazer papéis desse tipo, se não tiverem propósito. Se eu tiver de interpretar alguma coisa sombria, agora, preciso de um motivo a mais e não simplesmente o de que assim a cena fica mais engraçada.

Acho que a ideia de carregar o macaco no ombro [uma das excentricidades de seu personagem, Lenore Osgood, na série “Ratched”, da Netflix] é superengraçada. Disse a Ryan [Murphy, o criador da série], que talvez pudéssemos remover o macaco digitalmente, quando a filmagem terminar, e a interpretação mesmo assim seria interessante.


Além das passagens do livro em que você escreve sobre seu trabalho em filmes como 'Instinto Selvagem' e 'Cassino', você não se concentra muito em sua carreira cinematográfica. Por quê?

Não era o tema em que eu estava trabalhando, naquele momento. Os filmes não eram parte do assunto que eu realmente queria tratar.

Você planeja deixar a atuação de lado e se concentrar mais na escrita?

Bem, eu já dispensei meus agentes, meu empresário, todo esse pessoal. Agora, só quero ser contratada por cineastas cuja escolha seja eu. Não quero ser indicada para trabalhos porque minha presença vai ajudar a financiar o filme. Não quero ser mercadejada. Não quero que outras pessoas decidam que propostas chegam a mim e que propostas não chegam. Agora, só vou discutir propostas que forem feitas diretamente.

E como é que as pessoas chegarão a você com essas propostas?

A maioria das pessoas conhece alguma maneira de entrar em contato comigo. Podem enviar coisas para meu agente de imprensa, que as encaminha para mim. E estou no Instagram, é claro.

Eu não quero mais ouvir sobre todos os motivos para que eu não possa mais trabalhar. Acho que 40 anos de ser alta demais, baixa demais, gorda demais, magra demais, loira demais, morena demais, jovem demais, velha demais são suficientes. Isso demais, aquilo demais. Não estou mais interessada nos motivos pelos quais eu não deva responder a um telefonema. Assim, se um diretor me quiser, especificamente, será capaz de me encontrar.

O título de seu livro é uma referência a uma sensação pessoal de ressurreição, depois que você sobreviveu à sua crise de saúde em 2001?

Passei por toda aquela experiência de ver a luz, na mesa de cirurgia. E quando você está estendida na mesa de cirurgia, acaba se fazendo algumas perguntas. Eu queria revisar minha vida e me questionar sobre os motivos para ter me distendido tanto, sem prestar atenção ao que eu mesma queria.

Que parte do seu aparato de escuta se quebrou ou fraturou a ponto de impedir que você percebesse em que direção estava se encaminhando? O livro é sobre as grandes questões. Não sou o tipo de pessoa que pede que alguém passe o envelope e decide rasgar um cantinho dele. Meu negócio é explodir o envelope. Eu prefiro apertar o detonador. E aí me colocar lá no meio dos destroços e olhar ao redor.

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