Descrição de chapéu

Letras de Roberto Carlos, que faz 80 anos, exibem do bronco ao amante

Mesmo sem o dom de Chico Buarque para assumir o olhar feminino, cantor também construiu galeria de damas

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Chico Buarque é conhecido como o compositor brasileiro que “entende a alma da mulher”, ou qualquer outra definição que sirva para a galeria de personagens femininas em suas canções.

Mesmo sem a habilidade de Chico para assumir o protagonismo das mulheres nas músicas, Roberto Carlos também construiu um universo feminino ao longo de sua obra.

No começo, mesmo em seus discos anteriores à Jovem Guarda, elas já estavam nos versos. Quase sempre, eram chamadas de brotos.

Os brotinhos do jovem Roberto eram meninas lindas, musas inalcançáveis para os garotos tímidos. Talvez a melhor canção que represente o tipo seja “A Garota do Baile”, que ele gravou em 1965. Nos versos, a epopeia silenciosa do rapaz cercando a mais bonita da festa, até que ela finalmente dá a chance de uma dança.

Roberto sairia dessa idealização adolescente logo no ano seguinte, adicionando novos perfis femininos em seus versos. “É Papo Firme” mostra um garoto suburbano conservador —o próprio Roberto?— deslumbrado com a menina moderninha. Encontrar uma mulher que fala gíria, veste minissaia e só namora cabeludo, entre outras qualidades descritas na letra, muda a vida do sujeito.

Ainda em 1966, o cantor cometeu uma ousadia para a época, algo que hoje em dia provavelmente arrancaria risos. Quando foi lançada a música “Namoradinha de um Amigo Meu”, alguns torceram o nariz.

Não admitiam a ideia de que Roberto, que representava um ídolo perfeito, traísse um amigo. De todo modo, a canção representava uma ruptura com a idealização romântica que estava até então em seu repertório.

Nos anos seguintes, letras com retratos femininos mais realistas vieram em seus discos. Até que uma nova polêmica surgiu forte em 1971, com “Amada Amante”. Um dos maiores sucessos da carreira do rei, a canção não foi inicialmente compreendida por uma parte do público.

Uma leitura, que parece ser a que estava na cabeça de Roberto e Erasmo, era a admiração por uma mulher ousada, que seguia o amor por suas próprias leis, como diz o verso. No entanto, muita gente considerou a música um tributo à amante, aquela com quem o marido traía a mulher. Em 1971, adultério era uma questão bem mais delicada na sociedade. Mas a beleza ímpar da canção sepultou logo a discussão e ela entrou na lista dos êxitos de Roberto.

Cantor romântico por excelência, ele seguiu cedendo a letras sobre paixões desenfreadas e relações idealizadas, cenários de amor por vezes irreais. Mas, em 1975, veio um dos momentos mais surpreendentes e bonitos do cancioneiro de Roberto. Em “Olha”, pela primeira vez o narrador enxergava defeitos em sua amada, e até em si mesmo.

Na abertura, logo vem a quebra da perfeição. “Olha, você tem todas as coisas/ que um dia eu sonhei pra mim/ a cabeça cheia de problemas/ não me importo, eu gosto mesmo assim.” Depois, o homem admite seus defeitos. “E eu que sempre fui tão inconstante/ te juro, meu amor/ agora é pra valer.” Claro que “inconstante” suaviza a coisa, mas mesmo assim ele assume seu lado galinha como algo a mudar.

Muitos fãs tentam descobrir quanto de autobiográfico existe nas mulheres do repertório de Roberto. Ele nunca deu pistas sobre isso, mas, em 1985, “A Atriz” não deixou dúvida. É um relato do ciúme doentio que ele sentia de sua segunda mulher, Myriam Rios, quando ela aparecia em cenas românticas nas novelas.

Um ano depois, em 1986, Roberto começaria, de forma discreta, a lançar músicas louvando tipos diferentes de mulheres. “Nêga”, que não chegou a ser grande sucesso, fala da beleza de uma negra sedutora. Mais uma vez, uma música dele teve recepção negativa inesperada. Houve repúdio à imagem clichê da personagem, uma passista que o homem conhece quando vai a uma roda de samba. Por que Roberto não poderia cantar uma mulher negra fora desse contexto era a pergunta no ar.

Foi nos anos 1990 que o rei forjou uma galeria de homenagens que caiu nas graças do público. Começou em 1992, com “Mulher Pequena”, tributo às baixinhas em ritmo de salsa. Mais uma vez, demonstra sua grande qualidade como letrista, descrever cenas com versos diretos e imagéticos. “Fica na ponta dos pés/ se pendura como louca/ olha o céu e fecha os olhos/ pra ganhar beijo na boca.”

Depois, em 1993, as gordinhas fãs do cantor puderam parar de ter ciúme das baixinhas. “Coisa Bonita” foi um sucesso tremendo, executada insistentemente pelas rádios. Mesmo com uma letra que, é preciso dizer, não acompanha os bons momentos de poesia do compositor. Roberto arrisca versos como “olha, eu não me incomodo, um quilinho a mais não é antiestético/ pode até me beijar, pode me lamber, que eu sou dietético”.

A qualidade da letra não melhorou muito na homenagem seguinte, em 1995, com “O Charme dos Seus Óculos”. Seu louvor às mulheres que usam óculos começa assim “gosto desse jeito discreto, especial/ por trás desses óculos, que coisa mais sensual/ ar de executiva, às vezes formal/ beleza com um toque sexy e intelectual”. Não repetiu o sucesso que conseguiu com as baixinhas e as gordinhas.

A última homenagem a um tipo feminino específico veio em 1996, com “Mulher de 40”, que despertou algumas críticas de fãs, que reclamaram de Roberto chamar de corajosa uma mulher madura que se preocupa com a aparência. “Retoca a maquiagem/ cheia de coragem/ essa mulher bonita/ que já não é menina/ mas a todos fascina/ e a mim me conquista.”

Assim parece ser Roberto Carlos com as mulheres. Um amante à moda antiga que ainda manda flores, sim, mas também um galanteador meio bronco, ligado a um discurso antigo de idealização da mulher amada.

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