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Livros

Censura na Palmares mostra o que ocorre ao se dar poder aos burros

Instituição comandada por Sérgio Camargo anunciou que vai excluir livros de autores como Marx, Engels e Marighella

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Wilson Gomes

A divisa do Iluminismo nunca foi tão desafiada nesses tempos de tribalismo identitário desenfreado. Para que assumir o risco de conhecer se o conceito de verdade está sendo mudado, à força?

Sai a ideia de adequação das nossas representações às coisas para a adequação das coisas ao que é conveniente para a política de representações. Verdade, para o identitário, é o que está em conformidade com os interesses e as crenças da nossa tribo, o resto é erro, imoralidade e pecado.

Os identitários de esquerda vasculham bibliografias de disciplinas e policiam mesas de congresso para verificar se livros e autores errados estão referendados, se os autores certos estão presentes, se há isonomia entre “os deles e os nossos”.

Os identitários da extrema direita, agora que chegaram ao poder, fazem devassas em acervos de bibliotecas para verificar se lá estão os autores e livros certos e para mandar ao degredo os errados.

Depois de tentar fazer isso com seleção ideológica do que deve ser ensinado (os tais projetos de Escola Sem Partido) o bolsonarismo tenta agora, por meio da Fundação Palmares, implementar o seu programa de reeducação cultural. De fato, acabou de publicar um “relatório público” expondo uma devassa no acervo da biblioteca da instituição, a mando de Sérgio Camargo e executado pela equipe de Marco Frenette.

Camargo tem funções “identitárias” no governo Bolsonaro, é um negro conservador de direita, e faz questão de sustentar as três adjetivações, pois a sua função é provocar. Marco Frenette é um jornalista conservador, que trabalhou como assessor de Roberto Alvim, aquele que passou dos limites com o seu dia de Goebbels. Veio para a Palmares para continuar a obra de formação ideológica do país. Do país, sim, mas, ao que parece, tudo começa pela biblioteca da fundação.

O tal relatório é uma obra de propaganda. Um dos recursos básicos desta consiste em, antes de oferecer a própria doutrina, demonstrar a sua necessidade por meio da denúncia de que o outro lado vem doutrinando para o mal há muito tempo. É o marxismo estrutural, o esquerdismo sistêmico e subliminar,
a doutrina a ser denunciada.

Fomos manipulados e enganados por muito tempo, diz o propagandista, os mais vulneráveis dentre nós —no caso da extrema direita, o fetiche é com crianças— não tiveram defesa, a coisa foi sistemática e chegou aos limites do absurdo, isso tem de parar. É basicamente o que nos gritam as 74 páginas publicadas.

É um conjunto de espantalhos destinado a impressionar os ignorantes e a causar pânico moral nos ultraconservadores. É com eles que Camargo e Frenette podem compartilhar premissas como a de que livros de ciências humanas são como textos sagrados das religiões, que as pessoas leem não para entender fenômenos ou modos de pensar, mas para moldar a própria alma e a conduzir à divindade.

A ideia de formação, cultivo, a paideia, lhes escapa. O sujeito “se expõe” ao livro, ao quadro, ao filme e, automaticamente, está sob o seu efeito, monolítico e irresistível, para fazer o que quer que o autor, o realizador, o artista, tenha projetado com aquela obra.

Não é possível ser mais estúpido do que isso, mas é possível acrescentar ainda camadas de intenções maliciosas a esse projeto de “desmascaramento”. “Todas as pessoas de bem ficarão chocadas ao descobrir que uma instituição mantida com o dinheiro dos impostos, sob o pretexto de defender o negro, abriga, protege e louva um conjunto de obras pautadas pela revolução sexual, pela sexualização de crianças, pela bandidolatria e por um amplo material de estudo das revoluções marxistas e das técnicas de guerrilha”, declara Camargo. O resto do relatório é um esforço, entre patético e grotesco, de provar essa tese.

A “sexualização de crianças” seria demonstrada por manuais de educação que cometem o pecado de orientar, nos anos 1960, que pais e professores usem “palavras como ‘pênis’, ‘vagina’ e ‘testículos’” para crianças, com isso disparando, “uma sexualização precoce”.

A “bandidolatria” é basicamente um velho livro chamado “Bandidos”, cujo autor é nada menos do que Hobsbawm, um dos maiores historiadores contemporâneos, que foi professor da Universidade de Londres e da New School for Social Research de Nova York. Hobsbawm, como Sade, está na lista dos “clássicos do pensamento delinquencial”.

A lista dos “livros comprobatórios do desvio de função da Fundação”, e que agora passam das estantes às caixas longe da vista dos inocentes, inclui abominados livros de autores marxistas e neomarxistas, mas também fazem parte Gógol e Tolstói, Simone de Beauvoir, Durkheim, Aron, Reich e Malinowski, que não podem faltar em qualquer biblioteca do mundo. Sem mencionar clássicos do pensamento brasileiro como Nelson Werneck Sodré, Celso Furtado, Octávio Ianni, Ruy Fausto, Jacob Gorender e Caio Prado Jr.

Como exemplo de livros que indicam desvio de função de uma biblioteca pública, o relatório serve muito pouco. Em compensação, é uma bela peça de etnografia para se entender os medos e as fantasias da mente conservadora brasileira, e o que acontece quando se entrega uma biblioteca aos brutos e aos ignorantes com poder.

Wilson Gomes

Professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, é autor de "Transformações da Política na Era da Comunicação de Massa" (Paulus)

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