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São Paulo encarna menino da favela que ajuda a salvar avatar de Nova York em livro

Romance de N. K. Jemisin transforma cidades e distritos da metrópole americana em pessoas com poderes especiais

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São Paulo

Se São Paulo fosse uma pessoa, que características ela teria? Magra, gorda, branca, negra, com sobrenome italiano, libanês, japonês, coreano ou sírio? Seria tímida, festeira, obstinada ou sem direção?

Cada leitor terá sua resposta, e a da escritora americana N.K. Jemisin, de 42 anos, está logo nas primeiras páginas de "Nós Somos a Cidade" –um sujeito alto, esguio, criado nas favelas, esperto e com excelente senso de direção. O rapaz, porém, perdeu esse último talento quando a capital paulista decidiu que ele deveria se tornar, literalmente, o seu corpo.

Esse é o destino de metrópoles que atendem certos requisitos, como tamanho, reconhecimento e personalidade, na mitologia da nova série da autora que venceu três prêmios Hugo consecutivos, um dos mais importantes na literatura de fantasia e ficção científica.

Observar as belezas particulares da paisagem urbana deram à Jemisin, que morou em Nova York em diversos momentos da vida e se fixou lá em 2007, a certeza de que "as cidades são vivas, cheias de energia e escolhem as pessoas que pertencem a elas", como ela aponta numa entrevista por videoconferência.

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Capa da edição brasileira de 'Nós Somos a Cidade', livro de fantasia da escritora americana N. K. Jemisin - Divulgação

O conceito nasceu num conto, "The City Born Great", publicado há cinco anos, e agora chega aos romances no primeiro volume de uma trilogia, que acaba de ser lançado pela Suma. É uma aventura em que os cenários também são personagens do enredo que se passa nos dias atuais.

Nova York está à beira de nascer em seu avatar, e quem encarna São Paulo —a última das metrópoles a tomar forma— vai ajudar o escolhido, um jovem morador de rua, a encarar a nova responsabilidade e o alertar sobre uma força maligna que ronda esse universo.

Depois de enfrentar essa ameaça numa cena que remete a lutas de monstros gigantes, uma paixão da autora, Nova York cai em sono profundo e só os cinco distritos da metrópole —Manhattan, Queens, Bronx, Staten Island e o Brooklyn, onde Jemisin mora— serão capazes de enfrentar esse mal e revitalizar o belo adormecido.

"Eu fiz pesquisas históricas, mas os atributos de cada um foram mais baseados propositalmente nos estereótipos de cada região", conta Jemisin sobre a criação das personagens. "Todos conhecem Manhattan, sabem da Broadway, dos arranha-céus e do seu visual atraente. Então eu fiz um homem muito bonito, amigável. Mas ele tem um lado obscuro em sua personalidade, que reflete a formação desse distrito, que é bem assustadora."

Seu glamour, afinal, é uma pátina sobre aterros, lixo e cemitérios —como a necrópole onde foram sepultados mais de 20 mil afro-americanos no século 18, onde hoje existe um edifício de 34 andares.

Criações de uma autora negra que teve dificuldades com as editoras no começo dos anos 2000 por rejeitarem protagonistas também negros, as outras personagens agregam a diversidade característica de cada lugar acrescidas de um volume que as torna verossímeis para além de alegorias ambulantes.

Para ficar entre os principais, há também uma vereadora rapper, uma idosa lenape lésbica, uma imigrante de origem indiana e uma mulher branca na faixa dos 30 anos representando os distritos da cidade.

Da mesma forma que os protagonistas, São Paulo foi imaginada com base em sua reputação. "Não pude viajar para a cidade devido às circunstâncias, mas pesquisei sua história e me baseei em um colega brasileiro, que é da Bahia." O tabagismo, como aspecto simbólico da poluição, e um constante perfume de café também são característicos da personagem —talvez não seja mesmo preciso visitar São Paulo para conhecer seu perfil.

Se o festival de diversidade gera inevitavelmente reclamações de quem não se sentiu abraçado por um ou outro —eis o desafio de ficcionalizar a partir do real—, a postura política de Jemisin fica clara no decorrer da obra, denunciando a ascensão da alt-right, da supremacia branca e de diversos preconceitos —todos elementos identificáveis nos antagonistas sobrenaturais.

Dessa forma, ela peita os padrões que regem o entretenimento mundial e ainda desafia o filão da fantasia e da ficção científica atacando frontalmente um de seus cânones.

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A escritora americana N.K. Jemisin - Laura Hanifin

"H.P. Lovecraft é um bom exemplo de como racistas desumanizam as pessoas que eles temem para se sentirem poderosos", diz ela, sobre o escritor americano que revolucionou a literatura de horror no início do século 20 com histórias marcadas pelo medo do desconhecido.

Jemisin nunca foi grande leitora dele. Mesmo que alguns de seus contos tivessem referências ao sobrenatural, com línguas inventadas e impronunciáveis, outras histórias, como o "O Horror em Red Hook", refletiam o racismo e a xenofobia pessoais dele, também registrados em cartas e diários.

"Quando você lê o que o Lovecraft escreveu sobre Nova York, você percebe que ele tinha noção da mesma energia que eu vi na cidade. Mas, enquanto eu amo a diversidade, ele tinha medo. Quando ele escreve sobre Chinatown, fica apavorado com aquelas pessoas e não considera os chineses como seres humanos", diz a autora. "Ler isso me deu uma luz para entender como os racistas pensam, o que eu tenho muita dificuldade para entender."

Se para Lovecraft a monstruosidade estava no diferente, Jemisin tem horror pelo igual. "Se eu for para São Paulo ou para o Rio de Janeiro encontrarei Starbucks, e eles terão o mesmo cardápio de Nova York", diz ela, criticando a morte às culturas locais que grandes franquias impõem ao redor do mundo.

Não à toa, diversas cafeterias da rede ganham vida em uma cena de perseguição no livro. "Tenho certeza que o Brasil tem seus jeitos próprios de fazer café e, quando uma rede como essas chega, ela homogeiniza e torna tudo comum."

"Nós Somos a Cidade" se junta à galeria de ficções que fazem uma homenagem a Nova York, enquanto a dissecam em seu tempo. Atenta à cidade pulsante e multifacetada, Jemisin transforma as assombrações contemporâneas —sejam o capitalismo selvagem, a violência policial ou a gentrificação — em vilões de um filme do Godzilla ou dos Power Rangers.

"Eu amo essa cidade, mas ela precisa de uns ajustes e precisamos falar desses problemas. Mas no final das contas, eu só queria me divertir e escrever uma história alegre —e que acabou tendo uns elementos políticos no meio", diz Jemisin, rindo.

Nós Somos a Cidade

  • Preço R$ 59,90 (410 págs.); R$ 39,90 (ebook)
  • Autor N.K. Jemisin
  • Editora Suma
  • Tradução Helen Pandolfi
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