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Aprendi com Yara de Novaes a buscar minha liberdade, diz Débora Falabella

Atriz fala sobre sua companheira de cena, que a acompanha desde o início da carreira

Débora Falabella

Claro que eu tenho muitas influências ligadas a vários lugares artísticos, mas se tiver que pensar em uma pessoa que reúne tudo isso para mim, é Yara de Novaes.

Não consigo pensar em alguém que tenha sido referência tão forte na minha carreira quanto a Yara, mesmo ela estando sempre ao meu lado. É uma inspiração que tenho desde antes de fazer teatro e algo que ainda me alimenta de forma recorrente.

Meu pai é ator, assim como minha irmã, então cresci envolvida nesse meio em Belo Horizonte. Ia ver peças de teatro mesmo na minha pré-adolescência. Lembro a primeira vez em que vi Yara em cena: foi na peça “Mão na Luva”, com Luiz Arthur, quando eu tinha cerca de 15 anos. 

Ali eu realmente fui deslocada do lugar de assistir a um ator para estar junto da Yara em cena, tamanha a verdade que ela colocava ali. Isso nunca tinha acontecido comigo antes. Fiquei achando aquela mulher incrível, linda, potente.

Depois, o segundo espetáculo que vi com ela —e aí, uma influência enorme, porque eu já fazia teatro—foi “O Beijo no Asfalto”. Yara já não era uma adolescente, mas fazia Dália, a irmã mais nova. A liberdade que ela tinha em cena era muito grande e dava para ver que ela se divertia muito —foi então que comecei a entender que eu poderia ser qualquer coisa, em qualquer momento, em qualquer idade.

Como ela conhecia meu pai, acabamos nos aproximando e fizemos um primeiro espetáculo infantil juntas. Era uma adaptação de “A Família Addams”, em que eu era a Wandinha e ela, Mortícia. Eu tinha 16 anos e ela já tinha uma postura carinhosa comigo, mas foi aí que começamos a nos conhecer de verdade.

Foi uma sorte muito grande, porque a partir daí Yara passou a ser minha companheira de camarim. A inspiração só cresce quando você vê a fundo como a pessoa trabalha e enxerga sua profissão —como tem suas próprias crises e as supera.

Depois disso, tomamos rumos diferentes, quando fui para o Rio fazer televisão e ela parou um pouco de atuar para dirigir mais. Então tive a ideia de chamá-la para dirigir minha volta ao teatro, em “Noites Brancas” (2003). A maneira como ela, diretora, se comunicava com o ator me interessava e me despertava. Não fiz faculdade de teatro, então Yara foi uma pessoa que realmente me guiou.

Aprendi com ela a enxergar teatro como um trabalho. É claro que, ao fazer uma peça, você quer comunicar algo, mas tem um lado da profissão que é simplesmente acordar todo dia e ir batalhar. Isso tira a gente da névoa de acreditar que estamos num lugar diferente dos outros.

Ficamos uns cinco anos em cartaz com “Noites Brancas”. Junto ao Gabriel Fontes Paiva, formamos então o Grupo 3 de Teatro e fizemos “A Serpente” (2005), de Nelson Rodrigues. Nesse ponto já tínhamos uma conexão tão grande que ela nem precisava pedir e eu já entendia o que queria.

Yara tem uma inventividade enorme e uma visão forte da estrutura da cena. Mas não larga o ator de jeito nenhum. Tanto que em todo trabalho que eu fiz depois, mesmo de cinema ou TV, eu sempre pedia quase uma preparação para ela. Sempre acreditei que a condução da Yara era algo diferente do resto.

Ela me ensinou a ter liberdade no palco e, ao mesmo tempo, prazer com a profissão. O ator sofre durante muito tempo, principalmente quando é mais jovem, cobrando-se muito, ansioso com a expectativa das pessoas. Estar com a inquietude da Yara em cena me fez aprender a buscar a mesma liberdade em mim.

 

Ao mesmo tempo, somos atrizes muito diferentes. A maneira como ela e eu entendemos as personagens é quase complementar. Tenho uma construção mais ligada ao meu corpo, que me ajuda a montar todo o resto; Yara junta referências e constrói a personagem na cabeça dela, deixando-a viajar. É muito lindo de ver, e no final, acabamos nos encontrando no mesmo lugar.

Hoje em dia eu me sinto forte por ter tido todo esse tempo de trabalho ao lado de uma pessoa como Yara. Já dirigi um espetáculo infantil, devo dirigir um adulto, tudo provavelmente por influência dela.

Quando estou em cena com Yara, tenho o prazer da intimidade. Quando a vejo de fora, tenho o prazer da admiração. E isso porque nem entrei ainda no assunto da amizade. 


Débora Falabella, atriz, encena com Yara de Novaes uma temporada gratuita de ‘Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante’ no Teatro João Caetano a partir de 10/10.

Depoimento a Walter Porto.

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