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Fusões e pressão da internet mudam negócios de mídia

Amazon e Netflix investem em conteúdo mirando espectador da TV tradicional

Logos de Yahoo e Verizon
Logos de Yahoo e Verizon em North Andover, nos EUA - Elise Amendola/AP
Shannon Bond James Fontanella-Khan
Nova York

Sob pressão de gigantes da tecnologia como a Amazon, Apple e Netflix, e diante da perspectiva de que os grandes grupos tradicionais do setor se tornem ainda maiores —como demonstram a oferta de US$ 66 bilhões da Disney pela maior parte dos ativos da 21st  Century  Fox, de Rupert Murdoch, e a aquisição da Time-Warner pela AT&T, que aguarda aprovação—, as companhias de mídia estão chegando a uma conclusão: quem não devorar será devorado.

A revelação de que Murdoch estava interessado em deixar o setor de entretenimento despertou urgência renovada entre as companhias de mídia de menor porte —entre as quais a CBS e a Viacom, que na semana passada decidiram retomar as negociações quanto a uma possível união, que elas haviam abandonado pouco mais de um ano atrás.

"Fica claro que a mensagem que a Disney e a Fox estão enviando é a de que escala faz diferença", disse Lowell  McAdam, presidente-executivo da Verizon, a analistas, durante o anúncio de resultados trimestrais da empresa no mês passado. A Verizon foi identificada como potencial compradora de ativos, como os da Fox ou os da provedora de TV a cabo Charter.

Mas não é apenas a questão da escala que está impulsionando um dos mais movimentados ciclos de transações do setor de mídia na história recente.

A ascensão de pioneiros do streaming de vídeo, como a Netflix e a Amazon, desordenou o mundo da TV, erodindo as audiências e prejudicando o faturamento publicitário. À medida que o setor tenta lidar com a mudança nos hábitos dos telespectadores, grandes distribuidores se consolidam e adquirem provedores de conteúdo, o que deixa expostos proprietários de redes de TV, como a CBS e a Viacom ( que foram parte da mesma empresa entre 2000 e 2006).

"As companhias que ficarem no meio correm o risco de sofrer compressão econômica por parte dos gigantes, a não ser que consigam descobrir qual é sua vantagem comparativa", disse um importante financista de Nova York.

O setor vem passando por mudanças grandes já há algum tempo. A AT&T, mais conhecida como operadora de telefonia móvel, sinalizou suas ambições de avançar rumo ao setor de mídia com a aquisição da operadora de TV via satélite DirecTV, em 2014, por US$ 48,5 bilhões.

Dois anos mais tarde, ela fez aposta ainda maior com uma oferta de aquisição da Time Warner, que controla a HBO, CNN e o estúdio de cinema Warner Bros, por US$ 85,4 bilhões. O governo Trump recorreu à Justiça para tentar bloquear a transação, invocando a legislação antitruste, e o caso será julgado em março.

Algumas empresas menores também agiram, como a Discovery  Communications, que tomou o controle da Scripps Network Interactive, controladora da Food Network, por US$ 14,6 bilhões; já o estúdio de cinema Lionsgate investiu US$ 4,4 bilhões para tomar o controle da rede Starz de canais a cabo. Também há rumores quanto à AMC  Networks, empresa responsável por séries de sucesso como "The  Walking  Dead" e "Mad  Men".

A CBS e a Viacom estudaram uma possível união pela última vez em 2016, quando a família Redstone —que detém participações controladoras nas duas empresas—  as instou as considerar uma fusão a fim de "responder ainda mais agressiva e efetivamente ao desafio gerado pelas mudanças no cenário da mídia e entretenimento". Mas as discussões foram abandonadas depois que se tornou evidente que Les  Moonves, o presidente-executivo da CBS, se opunha à combinação, disseram pessoas informadas sobre o assunto.

O desempenho das duas empresas divergiu nos anos que se seguiram à sua cisão, em 2006. As redes de TV a cabo da Viacom, que incluem a MTV e a Nickelodeon, sofreram um baque especialmente forte, e a companhia está no meio de uma reestruturação, depois de uma complicada disputa por seu controle que levou a uma reformulação em seus quadros executivos, em 2016. A CBS, por outro lado, opera o canal de TV aberta mais assistido dos Estados Unidos, e buscou novas fontes de receita ao criar um serviço de streaming próprio.

O anúncio de que as duas empresas estavam de novo considerando uma união, na semana passada, sugere que, à medida que o número de possíveis parceiros encolhe, elas não querem terminar sozinhas, quando a música parar. Os investidores não demonstraram entusiasmo, porém —as ações da Viacom caíram em 6% e as CBS caíram em 3%, na sexta-feira (2).

TESTE DE VIABILIDADE

Financistas que operam no setor de mídia dizem que qualquer futura transação dependerá da aprovação das autoridades regulatórias à união entre a AT&T e a Time Warner e à transação da Disney.

"Acreditamos que o desfecho [da transação entre a AT&T e a Time Warner] servirá de teste de viabilidade para o resto do setor, e pode incentivar e acelerar novas transações, se aprovado pela justiça", escreveram analistas do UBS em um relatório de pesquisa recente.

A Verizon estará acompanhando com especial atenção o resultado da batalha judicial da AT&T contra o Departamento da Justiça.

Se a oferta da AT&T fracassar, a —Verizon  que até o momento se concentrou em adquirir ativos de mídia digital menores, como o Yahoo e a AOL— pode lançar nova proposta pela tomada de controle da Time Warner, dizem profissionais do setor.

Alternativamente, segundo essas pessoas, a Verizon pode decidir se combinar com a Charter Communications, a segunda maior operadora TV a cabo dos Estados Unidos —uma possibilidade que a empresa já estudou. Uma fusão como essa lhe ofereceria um canal de distribuição para competir melhor contra a Comcast, a líder no ramo de TV a cabo, e a AT&T.

"A Verizon precisa fazer algo grande", diz um consultor que já trabalhou em projetos sigilosos da empresa. "Ou eles fazem alguma coisa quanto à Charter ou correm o risco de uma aquisição pela Comcast".

A Charter e a Comcast recentemente admitiram a agitação no mercado de fusões e aquisições, em conversas de seus executivos com analistas quando do anúncio de seus mais recentes resultados trimestrais.

"Pode haver oportunidades para nós, de criar mais valor para nossos acionistas, como fizemos com a NBC Universal [grupo de mídia adquirido pela Comcast em 2009]. Quanto a isso, não seria surpresa que estudemos todas as situações que surgirem", disse Brian Roberts, presidente-executivo da Comcast.

Tom Rutledge, presidente-executivo da Charter, diz que "se houvessem oportunidades de aquisições, ao preço certo, estaríamos sempre interessados em estudá-las".

Mas enquanto os grupos de mídia e telecomunicações se avaliam mutuamente como parceiros, não podem ignorar o elefante na sala. Amazon e Netflix estão investindo pesadamente na produção de mais conteúdo e para roubar mais telespectadores da televisão tradicional. Enquanto isso, Google e Apple têm recursos financeiros e competência tecnológica para devorar ou esmagar até mesmo os maiores titãs da mídia convencional.

Até recentemente, o legado de Murdoch era definido pelo império que ele construiu. Mas talvez seu impacto mais duradouro venha a ser o reordenamento setorial em larga escala que sua saída causou.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Financial Times
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