Sem incentivo, montadoras reveem planos

Indefinição sobre Rota 2030 põe em xeque R$ 16,7 bi em investimentos

Toyota Yaris 2018
Toyota Yaris será produzido no Brasil a partir do segundo semestre de 2018 - Divulgação
Eduardo Sodré Daniel Camargos
São Paulo

O crescimento na produção e nas vendas de veículos no Brasil não é suficiente para garantir a manutenção de investimentos no setor. As indefinições sobre o Rota 2030, que trará as novas regras para a indústria automotiva, começam a afetar o cronograma das montadoras e de seus fornecedores de peças.

As injeções de recursos consideraram metas de eficiência estipuladas pelo Inovar-Auto. Com a crise, a maior parte dos recursos veio das matrizes. O setor, em conjunto, anunciou R$ 16,7 bilhões em investimentos até 2022.

As prioridades eram reduzir o consumo e as emissões de poluentes e gás carbônico.

Sem regras para novas exigências --e benefícios fiscais como contrapartida --, as montadoras instaladas no Brasil terão menos justificativas para embasar novos pedidos às matrizes.

"Continuamos acreditando que virá o Rota 2030, mas, se a indefinição persistir por tempo maior, precisaremos passar o recado para o Japão", afirma Ricardo Bastos, diretor de assuntos governamentais da Toyota. Ele estava em Brasília nesta terça-feira (6), em reuniões sobre o programa Rota 2030.

O executivo entende que o atraso de três a quatro meses na apresentação do programa --que deveria ter ocorrido em outubro de 2017-- pode ser absorvido, mas que a definição é fundamental para a manutenção dos investimentos da fabricante japonesa no país. Hoje, R$ 1,6 bilhão está sendo aplicado nas fábricas de Sorocaba e Porto Feliz, no interior de São Paulo.

Representantes das marcas afirmam que reuniões para ajustes de investimentos globais ocorrem a cada três ou quatro meses. A indefinição no Brasil tende a beneficiar outras filiais com regras mais claras.

DEPENDÊNCIA

Programas de incentivo à indústria são comuns mundo afora, mas o caso do Brasil tem especificidades.

Os benefícios fiscais estipulados pelo Geia (Grupo Executivo da Indústria Automobilística) nos anos 1950 foram mais bem aproveitados pelas multinacionais que já montavam carros estrangeiros no país --e tinham capital para investir. O Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek não privilegiava empresas 100% brasileiras.

De lá para cá, cerca de 80 milhões de veículos foram produzidos, de acordo com a Anfavea (associação que representa as montadoras instaladas no Brasil).

O desenvolvimento do setor foi sempre associado a regras e mudanças fiscais estipuladas em diferentes governos, além de programas de desenvolvimento ou de restrição às importações.

Enquanto as novas regras não entram em vigor, as montadoras reavaliam os investimentos já feitos, além de aguardar por mudanças metas propostas durante negociações do Rota 2030.

'ROTINHA'

Caso o programa se torne menos exigente e vire um "Rotinha", representantes das fábricas acreditam que haverá redução no investimento, o que ajudaria o setor a recuperar a rentabilidade neste período de retomada.

Ou seja: um carro que receberia um motor mais moderno ou itens de segurança (com base nas predefinições do Rota 2030, discutidas há cerca de um ano) poderia ter seu ciclo de vida prorrogado sem mudanças significativas.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.