Mercado questiona Moreira Franco para Minas e Energia

Escolha política e saída de técnicos da pasta levam à reação negativa

O ministro Moreira Franco foi transferido pelo presidente Michel Temer da Secretaria-Geral da Presidência da República para o Ministério de Minas e Energia - Ueslei Marcelino / Reuters
São Paulo e Rio de Janeiro

O mercado recebeu mal as mudanças no Ministério de Minas e Energia, cuja área técnica sofreu uma debandada desde que Moreira Franco (MDB-RJ) foi anunciado como novo chefe da pasta --em uma decisão tomada pelo governo com intuito de manter o foro privilegiado do emedebista.

Na sexta-feira (6), quando o nome de Moreira veio à tona para assumir o cargo, as ações da Eletrobras já haviam recuado 9,17%. Nesta segunda-feira (9), voltaram a cair: as ordinárias tiveram recuo de 9,56% e, as preferenciais, de 6,74%.

Às 11h15 desta terça (10), os papéis preferenciais subiam 0,9%, enquanto os ordinários recuavam 0,38%.

As quedas refletem as renúncias do secretário-executivo, Paulo Pedrosa, na semana passada, e do presidente da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), Luiz Barroso, nesta segunda. Junto a eles, saem assessores técnicos que integravam suas equipes —tidas como referências dentro do ministério por executivos.

Temer confirmou Moreira na pasta no domingo (8).

“Há uma percepção de que Moreira Franco é menos favorável à privatização da Eletrobras. O principal catalisador para a alta da empresa foi a privatização. Agora, isso pode demorar mais para acontecer”, afirmou Eduardo Guimarães, especialista em mercado de ações da Levante.

Para Adeodato Netto, estrategista-chefe da Eleven Financial, o fato de as ações ordinárias (que têm poder de voto) terem caído mais mostra que a União, controladora da estatal, terá de provar que está disposta a “soltar a corda da empresa”. 

As mudanças também geraram preocupação entre executivos e analistas do setor elétrico, que temem que um desmonte da equipe técnica trave o avanço, não só da privatização da Eletrobras, como também de mudanças regulatórias importantes.

Além disso, há um temor de que o ministério possa adquirir um foco maior no setor de óleo e gás do que em energia elétrica.

No lugar de Pedrosa, entrará o secretário de Petróleo e Gás, Márcio Felix. O posto de Barroso será assumido interinamente pelo o diretor de Estudos de Petróleo e Gás, José Mauro Ferreira Coelho.

“É importante que o ministro também nomeie pessoas com representatividade e que possam dialogar com o setor elétrico”, disse o advogado Gustavo de Marchi, do Décio Freire & Associados.

Para ele, a capacidade de articulação política de Moreira pode ajudar no diálogo com o Congresso —visão defendida por associações setoriais.

“Ele [Moreira] veio da presidência do PPI [Programa de Parcerias de Investimentos], acreditamos que dará seguimento aos projetos”, afirmou Nelson Leite, presidente da Abradee (associação das distribuidoras de energia).

CONTINUIDADE

Nomeado presidente interino da EPE, Ferreira Coelho tentou tranquilizar o mercado, afirmando que a ideia é de continuidade das ações iniciadas depois que Michel Temer assumiu a Presidência.

“Às vezes, o setor fica muito ansioso, mas é um processo de continuidade. Saem alguns nomes, mas as instituições seguem. A tendência é continuarmos a trabalhar para que todas as reformas que são importantes para o país sejam tocadas”, disse.

Entre os temas em discussão, além de Eletrobras e do marco do setor elétrico, estão novas regras do setor de gás, hoje no Congresso, e o programa Combustível Brasil, cujo objetivo é atrair investimentos em produção e logística.

Em evento no Rio, o presidente da estatal, Wilson Ferreira Junior, que também foi indicado por Temer, disse que tem um mandato a cumprir —vence em abril de 2019— e quer concluir as medidas iniciadas em sua gestão. 

“Tenho compromisso com os trabalhos na companhia”, afirmou, citando mudanças gerenciais, enxugamento da companhia e o processo de venda de ativos em curso.

Taís Hirata , Danielle Brant e Nicola Pamplona

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