Descrição de chapéu Brasil que dá certo

Inteligência artificial individualiza ensino e ajuda professores

Plataformas identificam dificuldades do estudante e sugerem planos de estudo específicos

Ocimara Balmant
São Paulo

Todos os dias, ao chegar em casa após a aula, a estudante Júlia Toledo Alcântara, 14, faz o mesmo que a maioria dos adolescentes: passa horas no celular. 

No caso da aluna do 1º ano do ensino médio, esse tempo não é dedicado a redes sociais, blogs ou vídeos. Júlia fica conectada em um software que, por meio de inteligência artificial, identifica suas principais dificuldades de aprendizado e sugere planos de estudo personalizados.

“Já cheguei a ficar cinco horas estudando. Eu me empolgo nas atividades e emendo uma disciplina na outra”, conta a aluna do Colégio Mater Dei, de São Paulo.

Neste ano, todos os estudantes do último ano do ensino fundamental e do ensino médio do Mater Dei usam o Geekie One, software que reúne textos, vídeos e exercícios. 

A plataforma faz a análise qualitativa do desempenho de cada estudante a partir das tarefas realizadas. Fornece ainda recursos para ajudar o professor na correção de atividades e preparo das avaliações.

“A ferramenta indica o aproveitamento da turma e do aluno, questão a questão. Além disso, elabora uma sugestão de avaliação baseada nos conteúdos selecionados pelo docente”, afirma o professor de português da instituição Renê Wagner. “É um jeito novo de aprender.”

O software foi desenvolvido pela empresa de tecnologia educacional Geekie, escolhida pelo Ministério da Educação, em 2016, como plataforma de estudos oficial do Enem. Os simulados, que calculam a nota na escala do exame e montam um plano personalizado de estudos, alcançaram 4,5 milhões de alunos.

No Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, o uso da inteligência artificial chegou neste ano à gestão pedagógica. 

O uso de uma ferramenta chamada Remark possibilita que o coordenador transforme o resultado de simulados em ações efetivas e pontuais de ensino. 

“Se vemos que muitos alunos optaram pela mesma alternativa equivocada em uma questão do simulado, por exemplo, pode indicar que o conceito não foi bem aprendido. A partir daí, fazemos reuniões com os professores e coordenadores de área para criar uma nova estratégia de ensino”, afirma o coordenador pedagógico do Liceu, Emerson Paes Barreto.

Como nesses exemplos, a inteligência artificial na educação serve de ferramenta para auxiliar o trabalho do docente como curador de conteúdo. 

“A ideia é tirar o trabalho burocrático e braçal do professor para que possa dedicar tempo para conhecer os alunos e fazer o que só ele consegue: despertar o potencial dos estudantes”, afirma Leonardo Carvalho, sócio-fundador e diretor de tecnologia da Geekie.

Apesar dos bons resultados, o uso da tecnologia ainda é incipiente no Brasil e engatinha até nos países desenvolvidos, afirmam os especialistas.

“O Brasil e o mundo estão aprendendo. Por enquanto temos casos isolados até porque é preciso um processo de convencimento. A educação é muito refratária a métricas”, afirma Miguel Thompson, presidente-executivo do Instituto Singularidades, que atua na formação de professores.

Thompson afirma que tanto a rede pública como a privada, salvo exceções, ainda não trabalham de maneira eficiente os dados coletados. 

“Para que o uso da inteligência artificial seja eficaz, é preciso acompanhar tendências de dados em longo prazo. Formar uma geração que transforme metas em diagnóstico. E isso não envolve só notas, mas as facetas cognitivas e comportamentais do aluno.”

Em Goiás, a rede estadual de educação tem avançado nessa direção. Desde o início deste ano, todos os alunos dos ensinos fundamental e médio fazem uma avaliação bimestral. 

A correção, feita por um mecanismo informatizado, possibilita que os gestores monitorem o desenvolvimento de cada um dos 500 mil matriculados na rede e os direcionem a videoaulas e jogos educacionais em uma plataforma virtual também customizada. 

Por meio de um aplicativo para celular, os pais acompanham a evolução dos filhos em tempo real.
Isso é só o começo. Um relatório publicado pela Pearson prevê que os sistemas de inteligência artificial vão fornecer soluções extremamente precisas de aprendizado. 

Em uma atividade colaborativa, por exemplo, a ferramenta poderá mapear a participação de cada envolvido por meio do reconhecimento de voz e perceber se o aluno está ou não atento por meio do rastreamento ocular.


Uso da inteligência artificial na educação ao redor do mundo
Espanha A Netex Learning desenvolve plataformas educacionais digitais para escolas e empresas. Uma das ferramentas acrescenta recursos multimídia, atividades interativas e exercícios aplicados à produção acadêmica, conforme as características dos alunos 

EUA A Carnegie Learning, empresa de educação focada em matemática, elaborou o software Mika, que usa inteligência artificial para personalizar tutoriais e avaliações em tempo real. O objetivo é reforçar o aprendizado de estudantes do ensino superior. No Estado da Califórnia, um ex-funcionário do Google criou em 2016 a Alt School, uma plataforma de aprendizado personalizado que apresenta vídeos, áudios, textos e avaliações em forma de “playlist”

China O governo executa um plano para integrar inteligência artificial no ensino superior. Até 2020, o país deve ter ao menos 100 especializações, além de 50 faculdades de inteligência artificial e institutos de pesquisa interdisciplinares

Índia A empresa de tecnologia Mindspark criou, ao longo de dez anos, um banco de dados com mais de 45 mil questões. A plataforma indica ao aluno materiais de apoio de acordo com as dificuldades que ele apresenta ao resolver os exercícios

Inglaterra A britânica Third Space Learning atua com a Universidade College London em um sistema de aprendizado de matemática. Semanalmente, cerca de 3.500 estudantes fazem uma atividade de 45 minutos. Os dados de cada aluno seguem para avaliação de uma equipe de especialistas

Chile Alunos de 10 a 12 anos, do ensino fundamental, têm acesso ao Brainy, uma ferramenta que tem uma base de dados alimentada de enciclopédias, textos escolares e portais educativos. É capaz de realizar um perfil cognitivo dos estudante, analisando comportamento, limitações e motivações, e, a partir disso, orientar as atividades mais apropriadas. Teve início em 2016 numa parceria entre Cognitiva e a Red Crecemos

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