Atento ao mercado interno, agricultor vira industrial de suco de laranja

Produtores da fruta ampliam sua atuação como processadores da bebida

Marcelo Toledo
Ribeirão Preto

No supermercado, o que até pouco tempo atrás era incomum hoje virou rotina. As marcas de suco integral de laranja se avolumam nas geladeiras.

Seja por dificuldade para negociar com as indústrias tradicionais, seja por enxergar um novo nicho, os produtores de laranja têm ampliado sua atuação como processadores da fruta e, cada vez mais, vendido diretamente aos consumidores ou a intermediários.

Já há ao menos 15 marcas em atuação no segmento.

Na avaliação do setor, o suco vendido diretamente nos supermercados segue o hábito do brasileiro de consumir laranja, mas com mais praticidade, sem a necessidade de cortar a fruta e espremê-la.

O mercado interno de suco integral, sem adição de água, açúcar ou conservantes, cresce, em média, 10% ao ano, segundo a CitrusBR (Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos), graças aos produtores que deixaram de ser apenas fornecedores.

É o caso do empresário Paulo Pratinha, cuja marca Prat's é líder de mercado.

Até 2012, tinha uma fábrica de suco concentrado para exportação e, naquele ano, decidiu abrir uma empresa de suco pronto para beber, para atender o mercado nacional.

Com isso, a empresa partiu de zero para os atuais mais de 50 milhões de litros por ano, dos quais 85% são de suco de laranja. O restante engloba uva, goiaba e limão.

"Era um nicho inexplorado. O país exportava muito e não tinha um mercado [local] forte, havia basicamente néctares. A grande surpresa foi que o consumidor estava ávido por um produto de qualidade", disse o empresário.

A entrada no segmento exigiu a montagem de uma estrutura de distribuição que contemplasse desde carrinhos de cachorro-quente até as grandes redes.

Apesar de já estar diversificado em relação ao número de marcas, o mercado ainda está em formação, diz ele.

"Os 'players' até o momento estão muito mais envolvedores do que concorrentes. Não chegamos nem sequer a um litro per capita, juntando todo mundo. Há um espaço grande."

A projeção da CitrusBR é que o mercado interno de suco integral tem capacidade de absorver uma demanda adicional de 50 milhões de caixas de laranja.

A previsão do Fundecitrus (Fundo de Defesa da Citricultura) é que a safra 2018-2019 chegue a 288,29 milhões de caixas de 40,8 quilos cada.

O empresário Júlio César Jacobs, cuja família é dona das marcas Jacobinho e Pomaris, decidiu investir no setor como uma evolução de um negócio que consistia na venda de laranjas descascadas aos clientes --desenvolveu uma máquina para isso.

Os três produtores de laranja estão sentados sobre uma montanha de frutas
Os irmãos (da esq. para dir.) Marcelo Jacobs, 32, Júlio César Jacobs, 46, e Leandro Jacobs, 40, em sua industria de processamento de suco, em Bebedouro, interior de São Paulo - Joel Silva/Folhapress

Em 2012, ele e os irmãos Leandro, diretor agrícola, e Marcelo, diretor de matéria-prima, todos engenheiros agrônomos, decidiram focar a venda de suco extraído da laranja sem a casca.

Começaram o negócio esmagando cem toneladas anuais. Hoje, esmagam de 90 a cem toneladas por dia, com uma previsão de chegar a 250 toneladas diárias dentro de cerca de um ano.

"Hoje não precisaria vender para as indústrias, porém ainda vendo uma parte porque, para fazer um bom suco, preciso de laranja de várias altitudes de plantio. Fazemos permuta. Vendemos para a indústria e compramos dela na entressafra", afirma Júlio César.

A empresa tem atualmente dois produtos, um a partir de máquinas de extração tradicional e outro que inclui a extração da laranja sem a casca.

"Estávamos sendo esmagados pela indústria. Ou saíamos da citricultura ou agregávamos valor ao produto. Foi o que fizemos", afirma Júlio César.

A estratégia de Dagoberto Cardilli, dono da Brasil Citrus, foi investir na venda a cozinhas industriais, restaurantes e na produção de suco para outras marcas.

"Muitos produtores têm dificuldade de escoar a safra e resolvem arriscar, colocando o produto direto no mercado. A tendência de produtos naturais é crescente no mundo. Marcas surgirão, mas não é um mercado fácil", afirma Cardilli.

Apesar do crescimento do mercado de suco integral, 95% da produção nacional ainda é exportada, segundo a CitrusBR, associação dos exportadores de suco.

Para Ibiapaba Neto, diretor-executivo da entidade, o mercado interno é uma importante saída para o setor, e a nova concorrência dos produtores é saudável.

"É a melhor garantia de que podemos ter bons preços para todos, do produtor à empresa de suco. É bobagem falar que a concorrência é prejudicial, ou que a gente ache isso. Muito pelo contrário", diz.

Produtividade cai, mas ainda mantém patamar elevado

Após atingir a maior produtividade de todos os tempos no país na última safra, os pomares de laranja devem cair.

Na safra 2017-2018, encerrada em junho, a produtividade foi superior a mil caixas de laranja por hectare, e a previsão é que atinja 762 caixas na safra 2018-2019.

O resultado, porém, deverá se manter superior ao de safras anteriores no cinturão citrícola formado pelo interior paulista e o Triângulo Mineiro.

"A cultura se comporta com bianualidade, com safras grandes num ano e queda no outro", diz Neto.

O recorde na última safra ocorreu graças ao adensamento da cultura e a práticas como irrigação.

Também contribuíram o controle mais eficiente do greening (principal praga da citricultura) e mudanças no manejo, que incluem menos uso de água e defensivos.

A alta ocorre após três anos de crise (entre 2012 e 2014), por causa de estoques altos e superoferta da fruta.

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