Produção de café deve subir 20% e atingir nível recorde

Cafeicultores investem em técnicas que reduzem impacto da safra bienal e ampliam número de sacas

Grãos de café em saca
Saca de café de produtores do sul de Minas Gerais - Ricardo Benichio/Folhapress
 
Gilmara Santos
São Paulo

​​Maior produtor mundial de café, o Brasil colheu no ano passado 44,9 milhões de sacas. A expectativa para este ano é que esta produção cresça mais de 20% e chegue a um volume recorde entre 54,4 e 58,5 milhões de sacas, segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

O salto na produção se deve, principalmente, a técnicas mais eficientes de manejo que reduzem o impacto da bienalidade da safra —entre um ano e outro, o café precisa fazer a sua recomposição vegetal, o que resulta em uma produção com alta em um ano e baixa no seguinte. O ano de 2018 é o de alta.

Para se ter uma ideia, entre 2009 e 2010, houve diferença de 22% no volume produzido nas safras, considerando a mesma área plantada. Entre 2016 e 2017, a diferença caiu para 15%.

“A tecnologia contribui muito para reduzir a discrepância entre as safras”, diz o especialista da Conab, Cleverton Santana.

O café também é beneficiado pelas novas técnicas adotadas pelos agricultores para o manejo no campo. 

De acordo com dados da Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café), a produtividade dos cafezais brasileiros era de 18,9 sacas por hectare em 2009 e subiu para 24,1 sacas em 2017. Neste ano, o índice deve chegar a 28,4. 

“Nos últimos 20 anos o Brasil ganhou muito em produtividade”, afirma o presidente do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), Nelson Carvalhaes.

Entre essas técnicas, estão a gestão da lavoura com ciclo de podas regulares, um sistema de adubação diferenciado que leva em consideração a necessidade específica de cada solo e a introdução de variedades de sementes mais resistentes a seca e doenças.

“São pequenas atitudes que no geral garantem um aumento significativo da produtividade”, explica Marcelo Vieira, 66, que é produtor de café em fazendas no sul de Minas e presidente da Sociedade Rural Brasileira.

Em sua propriedade, que tem 200 hectares e produz cerca de 6.000 sacas de café por ano, Vieira conseguiu aumentar a produtividade em 50% nos últimos 20 anos com o manejo da lavoura. São medidas que vão do acompanhamento detalhado do crescimento das plantas ao treinamento dos trabalhadores.

Com uma área de 12 hectares em Santo Antônio do Jardim, interior de São Paulo, Márcio Cristino, 49, produz cerca de 550 sacas por ano. 

“Comprei as terras há dez anos para lazer e acabei produzindo café, já que é uma região muito boa para essa cultura”, conta Cristino, que antes era empresário do ramo de metalurgia.

De lá para cá, o agricultor diz ter visto uma grande evolução no manejo. “Houve melhorias nas análises do café, no uso de defensivos e nos adubos. Tudo isso impacta na produtividade”, afirma.

Na Fazenda Santa Cruz, a administradora Josiani Moraes, 40, conta que tem investido para melhorar a fertilidade do solo com materiais orgânicos, minerais e renovação dos grãos.

 

A Santa Cruz, que fica no Sul de Minas, tem 390 hectares destinados à produção de café, que atinge 660 toneladas por ano.

Além das técnicas de produção, a modernização do maquinário tem ajudado os agricultores, principalmente aquelas que fazem a mecanização da colheita, com a separação dos grãos verdes dos maduros e a medição eletrônica do café.

Na fazenda de Márcio Cristino, a tecnologia de ponta está também na torrefação dos grãos. Ele usa um torrador de leito fluidizado, tecnologia que faz a torra por vazão ar quente.

“Essa técnica garante melhor sabor, sem risco de um grão ficar sem torrar e outro ficar muito torrado”, explica 

O alto custo desses equipamentos, no entanto, ainda breca a adesão em massa dos cafeicultores brasileiros à tecnologia. 

“Um dos grandes desafios é a pouca oferta de financiamento ao produtor, porque estes equipamentos são um investimento de alto custo”, afirma Vieira, da Sociedade rural Brasileira.

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