Desastre afeta mais a imagem do que as finanças da Vale, dizem analistas

Avaliação é que nova tragédia em MG pode dificultar atração de investimentos e até de profissionais

Joana Cunha
São Paulo

O rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG) já causou danos financeiros à mineradora, mas o impacto mais profundo se dará na imagem da companhia, tanto para a atração de investimentos quanto de bons profissionais no mercado, avaliam analistas. 

A tragédia deixará um alerta sobre a situação em que se encontram as barragens da Vale e a necessidade de investir em tecnologia, além de questionamentos sobre a qualidade da gestão de riscos feita pela empresa, estimam especialistas.

No cenário internacional, há potencial para contaminar todo o mercado de mineração no Brasil, pelo fato de ter acontecido pouco mais de três anos após o desastre de Mariana (MG).

Para Pedro Galdi, analista da Mirae Corretora, a pressão estrangeira forçará o governo a rever a legislação, o que pode provocar custos com avanços tecnológicos para todo o setor. 

“O risco para a mineração se torna maior. Vai levar as empresas a mudar tecnologia. Hoje, há tecnologia a seco, não precisa fazer barragem. As empresas vão ter que gastar dinheiro. Vai precisar estudar como fazer isso, e são gastos importantes. Não é só a Vale que tem barragem.”

André Perfeito, economista da Necton, diz que o grau de envolvimento do governo para aperfeiçoar os sistemas de controle será observado pelo mercado nos próximos meses e terá influência direta sobre o valor das ações da Vale.

Na sexta-feira (25), em reação às primeiras notícias da tragédia, os ADRs (recibos de papéis de ações) da Vale negociados em Nova York fecharam em queda de 8%. Por causa do feriado, a Bolsa de São Paulo não operou, e os primeiros reflexos do mercado à queda da barragem só aparecerão no Brasil nesta segunda (28).  

“Vai ter queda logo de início, mas a continuidade ou não do tombo terá muito a ver com a perspectiva de quanto o governo vai querer resolver esse problema”, diz Perfeito.

A agência de classificação de risco S&P anunciou no sábado (26) que poderá rebaixar a nota da Vale em vários degraus em razão das implicações financeiras do desastre. 

Até agora, a empresa já recebeu três pedidos de bloqueio de valores de suas contas. 

Neste domingo (27), a Justiça de Minas Gerais determinou o bloqueio de mais R$ 5 bilhões da Vale para garantir auxílio às vítimas. No sábado, o Ministério Público solicitou outros R$ 5 bilhões para reparar danos ambientais. No mesmo dia, a Advocacia-Geral de Minas Gerais entrou com pedido de R$ 1 bilhão para socorrer as vítimas, levando o total a R$ 11 bilhões.

O Ibama já aplicou multa de R$ 250 milhões, mas, na prática, são cifras que os analistas não consideram dramáticas para uma empresa cujo valor de mercado alcança quase R$ 300 bilhões. 

“Não é número que machuca a companhia de modo intenso, mas vem como um soco no estômago”, diz Raphael Figueredo, da Eleven Financial.

Do ponto de vista de produção e caixa, o impacto também é menor, calcula Galdi. “A mina de Feijão pouco representa na produção da empresa. Em caixa, a empresa está bem definida. E está em patamar satisfatório de dívida.”

Procurada, a Vale informou entender que “os bloqueios judiciais não são necessários, uma vez que não se eximirá de suas obrigações de atendimento emergencial da população e reparações devidas”.

A empresa não se pronuncia sobre impactos financeiros.

Na opinião de César Caselani, professor de finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas), “ficou escancarada uma negligência” e a companhia precisa ser “completamente revista”.

O professor avalia que faltam gestão de riscos e controle dos processos.

“É um absurdo ter instalações, inclusive administrativas, no caminho da barragem. Não é seguro ser funcionário da Vale. Quantas pessoas vão querer ir trabalhar na Vale na próxima seleção de trainees? Qual é a confiabilidade de uma declaração da Vale de que as barragens estão seguras depois disso?”, afirma.

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