Reduzir desigualdade é meta dos 'bons-moços'

Autor de artigo sobre idades diferentes de aposentadoria para pobre e rico, Oded Grajew responde a Alexandre Schwartsman

Oded Grajew

Alexandre Schwartsman, a propósito do meu artigo publicado na Folha em 2/1/19 ("Os pobres não vão poder se aposentar"), critica-me na sua coluna de 9/1/19, intitulada "Contra o bom-mocismo".

No meu artigo, procurei advogar por uma reforma previdenciária que pudesse ajudar a reduzir nossas desigualdades. Utilizei dados públicos que mostram que aproximadamente 30% da população da cidade de São Paulo, 4 milhões de pessoas, os mais pobres, têm a idade média ao morrer inferior a 65 anos. Isso na cidade mais rica do Brasil. Imagine no resto do país. 

Propus no meu artigo que esse dado fosse levado em conta na hora da fixação da idade mínima para se aposentar, diferenciando pobres e ricos. 

Alexandre desanca totalmente minhas considerações e proposta. Discorre sobre a diferença entre idade média ao morrer e expectativa de vida. Não percebe, ou não tem consciência, que, em qualquer dos casos, os pobres, por suas precárias condições de vida (saúde, saneamento, habitação, educação, segurança e renda), vivem menos que os ricos. 

Argumenta que há pobres que se aposentam por idade. É verdade. Como estamos falando de média, há pobres que vivem mais de 65 anos. Mas certamente há muito mais ricos, proporcionalmente, que se aposentam por idade, vivem mais tempo após a aposentadoria e recebem uma aposentadoria bem maior. 

Alexandre tergiversa, não entendeu ou evita a tese central do meu artigo, ou seja, a de que, se quisermos reduzir as desigualdades, pobres e ricos deveriam ter diferentes idades mínimas para se aposentar. 
Propõe como solução alternativa que bastaria reduzir a violência e a mortalidade infantil. 

Embora sejam medidas meritórias, não se dá conta, apesar de advogar por "argumentos ancorados em sólidas bases estatísticas", de que vive num país onde 80% da população, ou 165 milhões de brasileiras e brasileiros, vivem com renda per capita inferior a dois salários mínimos mensais! 

Que vive no nono país mais desigual do mundo. Onde o 0,1% mais rico da população recebe em média mais de 25% de toda a renda nacional e os 5% mais ricos abocanham o mesmo que os demais 95%, o 0,1% mais rico concentra 48% de toda a riqueza e os 10% mais ricos ficam com 74%. 

Alexandre deveria conhecer melhor o que fizeram, por exemplo, os países escandinavos para terem os melhores indicadores econômicos, sociais e ambientais, uma baixíssima mortalidade infantil e minúsculos índices de violência, tão corretamente recomendados por ele. 

Chegaram à obvia conclusão de que, para isso, deveriam ter uma sociedade harmoniosa e, portanto, as menores desigualdades possíveis. E, para isso, os desiguais deveriam ser tratados desigualmente, corrigindo as assimetrias por meio das políticas públicas.

No fim da sua coluna, Alexandre baixa gratuita e deselegantemente o nível da argumentação, chamando os que lutam pela redução das desigualdades de "autodenominados cruzados de desigualdade", ironizando seu "bom-mocismo" para ele desinformado e inconsequente. 

Alexandre, que fez carreira no mercado financeiro e em governo e doutorado numa universidade americana, não precisaria usar adjetivos pejorativos para justificar suas teses.

Deveria, isso sim, contribuir de forma mais qualificada, para colocar, como "os bons-moços" estão tentando fazer, a redução das desigualdades como meta prioritária para nossos governos e nossa sociedade. E não depreciar aqueles que tentam construir um país mais justo.

Oded Grajew é presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil e presidente emérito do Instituto Ethos

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