Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Reforma e controle de gastos são núcleo da agenda de Paulo Guedes

Propostas do superministro da economia dependem de aprovação no Congresso

Flavia Lima
São Paulo

O controle de gastos e a necessidade de uma reforma da Previdência formam o núcleo das promessas feitas pelo homem forte na área econômica do governo Jair Bolsonaro, o superministro Paulo Guedes. 

Ainda não se sabe se isso está claro para os mais de 57,7 milhões de brasileiros que elegeram Bolsonaro, mas as mudanças na área econômica devem começar por aí. 

Nas poucas vezes em que falou, tanto durante a campanha quanto após o resultado das urnas, Guedes foi enfático ao identificar os gastos públicos como os grandes responsáveis por corromper gradualmente a ordem política e estagnar a economia —na contramão de economistas chamados de desenvolvimentistas, que veem os investimentos do governo, por exemplo, como ferramenta crucial para alavancar a economia.

Na perspectiva de Guedes, é o excesso de governo que impede o progresso econômico do Brasil, país cujos indicadores de desigualdade, a despeito dos avanços obtidos pelo menos até 2014, se mantêm entre os piores do planeta. 

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes em aperto de mãos
Jair Bolsonaro e Paulo Guedes em cerimônia no Palácio do Planalto - Ueslei Marcelino/Reuters

Aos 69 anos, Paulo Guedes tem doutorado pela Universidade de Chicago, instituição que se tornou o símbolo do liberalismo e lugar de formação de parte de sua equipe.

Guedes costuma brincar que, no início dos anos 2000, era possível contar nos dedos os economistas brasileiros com viés abertamente liberal, ou seja, que defendiam o Estado mínimo, privatizações e carga tributária reduzida, entre outros pontos. 

Agora, como já disse Salim Mattar, dono da locadora Localiza e escolhido para chefiar a secretaria das privatizações, o “primeiro liberal desde Roberto Campos” chegou ao comando da economia.

Morto em 2001, Campos foi ministro do Planejamento do general Castelo Branco, um ícone liberal e avô de Roberto Campos Neto —nome de Guedes para comandar o Banco Central numa escolha marcada por simbologia. 

Para Guedes, após 30 anos de governos de centro-esquerda —ele inclui aqui de José Sarney a Michel Temer, passando por FHC, Lula e Dilma Rousseff—, o mandato de Jair Bolsonaro será “uma aliança de centro-direita, conservadora nos costumes e liberal na economia, controlando gastos públicos”, disse Guedes em novembro, durante Congresso do MBL em São Paulo.  

O diagnóstico é claro do ponto de vista econômico, prosseguiu. “É um governo que gasta 45% do PIB [Produto Interno Bruto], cobra impostos altíssimos, encargos trabalhistas e previdenciários também. O Brasil está sufocado, asfixiado”, afirmou. 

Algumas falas do ministro, como a que descreve as agruras do empresário brasileiro, já são bastante conhecidas. 

“Aqui, o empresário brasileiro tem uma bola de ferro na perna direita, que são os juros altos, uma bola de ferro na perna esquerda, que são os impostos, e um piano nas costas, que são os encargos sociais e trabalhistas. E ainda ouve: corre porque o chinês vai te pegar”, costuma dizer, geralmente em meio a risos e aplausos da plateia para a qual se apresenta.

Quando Guedes discorre sobre o alto desemprego brasileiro —hoje, mais de 12 milhões de pessoas estão desempregadas—, o empreendedorismo é sempre lembrado como uma arma importante nesse combate.

“A palavra-chave é empreendedorismo criando empresas e empregos.”

 Com uma próspera carreira na área bancária, Guedes costuma explicar a parceria inusitada com Bolsonaro como “o encontro da ordem com o progresso” —o primeiro passo para romper o processo de estagnação da economia. 

O passo seguinte, diz ele, é mudar o jeito de fazer política.

“Sem ter nenhum compromisso político amarrado, como é que você faz um governo?”, questionou a plateia do MBL naquela noite de novembro. “Está implícita nisso uma reforma do nosso jeito de fazer política.” 

A governabilidade, disse ele, será, em primeiro lugar, temática —algo visto por críticos com certo ceticismo. 

Chances para testar a fórmula não faltarão.

Levantamento da Folha mostra que nove das dez principais propostas sugeridas pela equipe de Guedes dependem de aprovação dos parlamentares. Temas como a reforma da Previdência e a tributária e a desvinculação do Orçamento. Apenas a abertura comercial da economia estaria fora dessa dinâmica.
 

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