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Avanço do trabalho informal compromete retomada do crescimento

Deterioração no emprego reduz produtividade do país, diz pesquisador

Fernando Veloso
São Paulo

Desde o final do ano passado, vários indicadores mostram que a recuperação da atividade tem perdido fôlego. As previsões de crescimento para 2019 têm sido sucessivamente revisadas para baixo, começando a se aproximar das taxas de crescimento verificadas em 2017 e 2018.

Os dados da Pnad Contínua do IBGE divulgados na terça (30) evidenciaram as consequências desta recuperação anêmica sobre o mercado de trabalho, com elevação da taxa de desemprego para 12,7% no primeiro trimestre, e 13,4 milhões de desempregados.

Quando se utiliza o conceito mais amplo de trabalhadores subutilizados, que além dos desempregados inclui os trabalhadores que gostariam de trabalhar mais horas, aqueles que não estavam disponíveis para trabalhar por algum motivo, e os que desistiram de buscar emprego, o quadro é ainda mais dramático. Segundo esta medida, a taxa de subutilização foi de 25%, atingindo mais de 28 milhões de pessoas.

Além disso, os empregos gerados têm sido predominantemente informais. Segundo a Pnad Contínua, 39,5 milhões de trabalhadores encontravam-se na informalidade no primeiro trimestre, o que corresponde a 43% da população ocupada.

Além de representar um grave problema social, esse enorme contingente de trabalhadores desempregados, subutilizados ou na informalidade reduz a capacidade produtiva da economia.

No caso do desemprego ou subutilização, isso ocorre devido à menor incorporação do trabalho no processo produtivo. O efeito negativo da informalidade, por sua vez, decorre do fato de que trabalhadores informais, de modo geral, são empregados em empresas de baixa produtividade. Estimativas do Ibre /FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) indicam que cerca de metade da queda de produtividade desde o início da recessão deveu-se ao aumento da informalidade.

Embora a recessão tenha contribuído muito para a deterioração do mercado de trabalho nos últimos anos, esse quadro desolador também reflete um problema de caráter estrutural, que diz respeito à baixa geração de empregos de boa qualidade.

As inúmeras distorções do ambiente de negócios no Brasil reduzem a competição, dificultando o crescimento das empresas mais produtivas, e facilitando a sobrevivência de firmas de baixa produtividade.

Isso diminui a geração de empregos com salários mais elevados e maior proteção social, e resulta na absorção de grande parcela da mão de obra em empresas menos produtivas, que pagam salários mais baixos e não oferecem acesso a seguros sociais.

Uma reforma profunda do ambiente de negócios é a única forma de melhorar de forma sustentada a quantidade e qualidade do emprego no Brasil.

Fernando Veloso é pesquisador do Ibre/FGV

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