Maia diz que Guedes é injusto em críticas à Previdência e que governo virou 'usina de crises'

Sem articulação do Parlamento, reforma teria 50 votos, afirmou o presidente da Câmara

São Paulo e Brasília

Em resposta a Paulo Guedes, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou nesta sexta-feira (14) que o ministro da Economia é injusto em suas críticas ao relatório da reforma da Previdência apresentado na véspera e que o governo se tornou uma "usina de crises".

"Nós blindamos a reforma da Previdência de crises que são, muitas vezes, geradas quase todos os dias pelo governo. Cada dia um ministério gerando uma crise. Hoje, infelizmente, é o meu amigo Paulo Guedes, gerando uma crise desnecessária", afirmou Maia a jornalistas.
 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, em reunião com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia no Ministério da Economia. - José Cruz - 28.mai.2019/Agência Brasil

O presidente da Câmara disse que, sozinho, o governo teria 50 votos a favor da reforma, "e não a possibilidade de 350 que nós temos".

"Acho que o ministro Paulo Guedes não está sendo justo com o Parlamento que tem comandado sozinho a articulação para aprovação da Previdência", afirmou.

Maia disse que o Congresso se tornou "o bombeiro" de crises no país e que a tramitação da reforma pode inaugurar "um novo momento em que o governo tem menos responsabilidade com o comando da aprovação das matérias e o Parlamento passa a assumir essa responsabilidade".

"Nós blindamos o Parlamento. A usina de crise bate e volta. Fique lá no Executivo, no ministério da Fazenda, da Educação criadores de crise", afirmou.

Maia elogiou "o trabalho brilhante" do relator da reforma na comissão especial, o deputado Samuel Moreira (PSDB). "Na democracia, nossas vitórias não são absolutas, isso que o ministro Paulo Guedes talvez não saiba."

Na noite desta sexta, Moreira se manifestou pela primeira vez desde a troca de farpas entre Guedes e o Congresso. Pelas redes sociais, o deputado disse que seu papel como relator é construir consensos, e não alimentar intrigas. "Tenho responsabilidade com o Brasil e compromisso com a reforma da Previdência."

Maia disse que o Congresso vai continuar atuando com "responsabilidade, equilíbrio e paciência".

"Não vamos entrar nessa polêmica, nessa falsa crise. É triste ver o ministro fazendo isso. Deixa o governo criando crise", disse. 

Apesar disso, Maia negou que se sinta traído pelo ministro da Economia. Mas disse que, "infelizmente, Paulo Guedes passa a ser um ator dessas crises."

Maia afirmou que a Câmara vai aprovar a reforma da Previdência "apesar do governo" e com uma garantia de economia na casa de R$ 900 bilhões em dez anos, o que, segundo ele, "é uma grande economia para um governo que não tem base". O projeto original previa R$ 1,2 trilhão.

O presidente da Câmara rebateu afirmação de Guedes segundo a qual, com a redução da economia fiscal, o próximo governo precisará fazer outra reforma nas aposentadorias.

"Eu acho que ele [Guedes] está errado [ao criticar a desidratação do projeto]. A economia de R$ 900 bilhões é muito próxima de R$ 1 trilhão. Acho que ele foi injusto com o Parlamento. Pedi que os líderes não falassem antes de mim, falo em nome da Casa, inclusive de quem é contrário à reforma da Previdência", disse Maia.

MILITARES

Em relação às críticas de Guedes sobre regras de transição para servidores incluídas no relatório, Maia afirmou que "gostaria muito que o ministro Paulo Guedes explicasse a transição que ele assinou para as Forças Armadas".

Segundo ele, a transição dos militares seria cinco vezes mais branda do que a proposta pelo relator aos servidores. Maia diz que o pedágio para os militares cobra acréscimo de 17% sobre o tempo que falta para deixar a ativa, enquanto na regra dos servidores haveria pedágio de 100%.

"Quem fez uma transição que beneficiou as corporações foi o ministro Paulo Guedes e o presidente da República", afirmou. Ele disse ainda que as regras para as Forças Armadas pressionaram as corporações sobre o Parlamento, em uma referência à afirmação de Guedes de que o Congresso cedeu a lobby.

Maia reforçou que a ideia é votar o projeto na comissão especial por volta do dia 25 de junho, para possibilitar levar o texto a plenário em julho. Disse também que atua para tentar reincluir no texto ainda durante a comissão estados e municípios.

"Espero que seja lá [na comissão]. Mas [se não passar na comissão] depois [vamos tentar] no plenário", afirmou.

Sobre o regime de capitalização, que também foi retirado do relatório, Maia disse que o modelo pode ser votado no segundo semestre. "Inclusive, os partidos de esquerda têm uma ótima proposta de capitalização, do deputado Mauro Benevides [PDT-CE]", afirmou.

REPERCUSSÃO

Na Câmara, a fala do ministro Paulo Guedes repercutiu mal. O vice-presidente da Câmara e presidente do PRB, Marcos Pereira (SP), endossou Maia e disse que a declaração de Guedes não ajuda a reforma. "Pelo contrário atrapalha, na medida em que cria um desconforto com o Parlamento", disse.

Líder do DEM na Câmara, Elmar Nascimento (BA), afirmou que a "ingratidão é um defeito muito grave". 

"Nós não sabíamos dessa caracteriza do Paulo Guedes, da ingratidão. Ainda mais depois de tudo que fizemos, principalmente o presidente Rodrigo Maia, para blindá-lo dos ataques da oposição quando ele foi sabatinado na Câmara. A ingratidão é um feito muito grave", disse. 

Para Nascimento, as declarações de Guedes refletem o descontentamento do ministro com o fato de a capitalização ter ficado fora do texto da reforma da Previdência. 

"A capitalização pode ser tranquilamente tratada em outra PEC. Não adianta querer colocar tudo e perder", disse, ressaltando que o trecho não tinha consenso entre parlamentares e poderia, em última instância, até inviabilizar a proposta. 

Anaïs Fernandes, Thais Arbex e Angela Boldrini

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