Descrição de chapéu The New York Times

Morre executivo americano Lee Iacocca, pai do Ford Mustang, aos 94

Filho de imigrantes italianos, ajudou a salvar a Chrysler da falência

Robert D. McFadden
Nova York | The New York Times

Lee A. Iacocca, o fabricante de automóveis visionário que dirigiu a Ford Motor Co. e depois a Chrysler Corp. e chegou a personificar Detroit como a fábrica de sonhos da paixão americana por carros no pós-guerra, morreu na terça-feira (2) em sua casa em Bel Air, na Califórnia, aos 94 anos.

Ele teve complicações da doença de Parkinson, segundo uma porta-voz da família.

Em uma indústria que produziu lendas, de gigantes como Henry Ford e Walter Chrysler ao nascimento da linha de montagem e da liberdade de locomoção que levou aos subúrbios e à classe média, Iacocca, filho de um imigrante vendedor de cachorro-quente, fez história como o único executivo nos tempos modernos a presidir as operações de duas das três grandes montadoras.

O empresário Lee Iacocca, em 2011
O executivo Lee Iacocca, em 2011 - AFP

Os críticos o rotularam como um vilão maquiavélico que cavou com suas garras o caminho para o poder em 32 anos na Ford, construindo carros vistosos como o Mustang, fazendo as capas da "Time" e da "Newsweek" e tornando-se o presidente da companhia aos 46 anos, apenas para ser demitido de forma espetacular em 1978 pelo neto do fundador, Henry Ford 2º. 

Mas os admiradores o chamaram de um líder ousado e criativo, que conseguiu firmar os pés após sua demissão e, num segundo ato de 14 anos que garantiu sua reputação mundial, assumiu a problemática Chrysler Corp. e restaurou sua saúde, no que os especialistas chamaram de uma das mais brilhantes reviravoltas na história das empresas.

Ele realizou isso com uma polêmica garantia de empréstimo federal de US$ 1,5 bilhão, que conseguiu ao convencer o governo de que a Chrysler era vital para a economia nacional e não deveriam permitir que ela falisse, e com concessões de sindicatos, novas linhas de carros e um novo porta-voz nacional --ele mesmo-- apresentado numa campanha publicitária na televisão que durou décadas.

Uma figura heróica para muitos americanos, ele se tornou presidente de um projeto para restaurar a Estátua da Liberdade e a ilha Ellis, e era procurado para fazer palestras e aparições públicas que ganhavam cores de uma campanha. Iacocca dialogou com o presidente Ronald Reagan, com membros do Congresso, governadores e líderes empresariais. Foi perseguido por admiradores e pela imprensa. Pesquisas confirmaram que uma candidatura à Casa Branca seria realista, e suas negativas de ambição política apenas alimentaram o interesse do público por essa possibilidade.

Mas no final da década de 1980 nuvens de tempestade que Iacocca e outros executivos da indústria automobilística haviam por muito tempo ignorado se adensavam. O mercado de ações tinha caído em 1987, e o Japão, já bem recuperado dos desastres da Segunda Guerra Mundial, se tornara uma potência econômica de classe global, cujos carros eficientes no consumo de combustível estavam inundando os Estados Unidos. Os americanos queriam carros confiáveis e bem construídos, com inovações como os air bags, e a Honda e a Toyota ofereciam isso.

Para tentar reverter o declínio, Iacocca formou parcerias com a Mitsubishi, a Maserati e a Fiat, mas não foram uma panaceia. Finalmente cedendo às pressões para renunciar, ele contratou Robert J. Eaton, chefe de operações da GM na Europa, como seu sucessor designado, e se aposentou como presidente e diretor-executivo da Chrysler em 1992."

Ele é como Babe Ruth", disse Bennett E. Bidwell, executivo aposentado da Chrysler, sobre Iacocca. "Ele fez 'home runs' e bateu muito para fora. Mas sempre enchia o estádio."

Lido Anthony Iacocca nasceu em 15 de outubro de 1924, em Allentown, na Pensilvânia, um dos dois filhos de Nicola e Antoinette Perrotto Iacocca, imigrantes de San Marco, Itália, que lhe deram o nome do balneário de Veneza. Ele e sua irmã, Delma, cresceram em Allentown.

Seu pai tinha pouca instrução. Começou como vendedor de cachorro-quente em Allentown, emprestou dinheiro e entrou em empreendimentos imobiliários e outros. Mas mais tarde adquiriu vários cinemas e abriu uma das primeiras empresas de aluguel de carros do país, com uma pequena frota de Fords, e Lido cresceu conversando sobre carros com o pai.

Na Universidade Lehigh, próxima a Bethlehem, na Pensilvânia, depois de três anos Iacocca se formou bacharel em engenharia industrial.

Ele também impressionou um recrutador da Ford e foi contratado para um programa de treinamento executivo. Decidiu mudar seu primeiro nome, que soava estranho, para Lee, uma séria concessão para um jovem orgulhoso de sua origem italiana.

Em 1956, Iacocca se casou com Mary McCleary, recepcionista da Ford em Chester, Pensilvânia. Tiveram duas filhas, Kathryn Iacocca Hentz e Lia Iacocca Assad, que sobrevivem a ele, assim como uma irmã, Delma Kelechava, e oito netos. Sua primeira mulher morreu em 1983, de complicações do diabetes. Em 1986 ele se casou com Peggy Johnson, ex-comissária de bordo. O casamento foi anulado em 1987. Em 1991 ele se casou com Darrien Earle, de quem se divorciou em 1994.

Iacocca aprendeu as estratégias sutis, às vezes brutais, da disputa executiva. Mas superou os rivais pela suíte executiva e foi nomeado presidente da Ford em 1970, o segundo posto, reportando-se apenas ao presidente do conselho, Henry Ford 2º.

Ford demitiu Iacocca em julho de 1978, dizendo que simplesmente não gostava dele. Nunca deu motivos mais detalhados. Vários meses depois, Iacocca entrou para a Chrysler.

Depois de se aposentar, mudou-se para Bel Air, na Califórnia, onde investiu em bicicletas elétricas, azeite de oliva e outros empreendimentos, além de promover pesquisas sobre diabetes.

Além de sua autobiografia, Iacocca escreveu "Talking Straight" [Falando claro], de 1988, com N.R. Kleinfield, então repórter de "The New York Times", e "Cadê os Líderes?" (2007), com Catherine Whitney.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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